21 de maio de 2013 às 18:08
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A linha de separação

O Estado social precisava de uma demografia e de uma economia que o próprio Estado social ajudou a degradar. Transformou-se numa espécie de pirâmide especulativa, em que os contribuintes pagam sem garantias de um dia receberem o correspondente ao seu esforço.
Rui Ramos (www.expresso.pt)

O Dr. Johnson chamava ao patriotismo o último refúgio dos velhacos. Desde então, apareceu outro: o Estado social. E nas últimas semanas, o Governo já recorreu aos dois. No debate de quinta-feira, resolveu identificar-se com o Estado social e acusou as oposições, à esquerda e à direita, de andarem a minar esse "avanço civilizacional". Vai então passar por aí a linha de separação da nossa política? É duvidoso.

O Estado social nunca separou as águas políticas em Portugal. O que existe não é obra de um só partido, nem sequer de um só regime. Começou antes de 1974 e, depois, preencheu a agenda de todos os governos. Não é por acaso que, à direita, um dos partidos é "Democrático Social" e o outro "Social Democrata". Durante décadas, no que diz respeito ao Estado social, a escolha em Portugal foi entre Dupond e Dupont. Houve apenas uma novidade depois de 1974: a nova classe política nunca aceitou cautelas financeiras. O Estado social representava "direitos" e expressava a europeização do país. Não podia ter limites. E a esse respeito, nunca houve propriamente debate ou divisão partidária: tratava-se apenas de saber quem podia ou queria ir ainda mais longe, nunca se sabendo bem para onde.

O problema é que o sistema acabou por ultrapassar as possibilidades. Foi isso que o défice orçamental e a dívida pública deixaram à mostra. Para as esquerdas, a culpa é dos liberais. Mas foram os leitores de Hayek quem fez crescer as despesas e o funcionalismo para além de tudo o que era sustentável? O Estado social precisava de uma demografia e de uma economia que o próprio Estado social ajudou a degradar. Transformou-se assim numa espécie de pirâmide especulativa, em que os atuais contribuintes vão pagando sem garantias de um dia receberem o correspondente ao seu esforço. Gerir melhor este Estado social? Mas seria possível gerir melhor os esquemas de Madoff? O INE sugere que, sem o Estado social, 41,5% dos portugueses estaria em risco de pobreza relativa (em vez de 17,9%). Mas com este Estado social, estamos todos, e especialmente os mais pobres, a empobrecer relativamente ao resto do mundo. Já é financeiramente insustentável - em breve sê-lo-á também social e politicamente.

Vai o Estado social, no seu declínio, proporcionar o grande confronto político que não houve durante a sua ascensão? Ficará Sócrates na história como o David Crockett do nosso Álamo social? Desconfio que não. O Estado social, tal como existe, tem demasiados dependentes para que alguém se permita um ataque aberto, mas já não tem os elementos de viabilidade necessários para uma defesa efetiva. Por isso, não esperem pelo dia da batalha final. Tal como ninguém sabe bem como começou, também ninguém, um dia, há de saber bem como acabou. Levantou-se aos bocados, cairá aos bocados.

Quanto ao que virá depois, poupem-se angústias excessivas. O Estado social representou a articulação ocasional entre solidariedade social e controlo burocrático. A sociedade desenvolverá outras formas de coesão e o poder político outros meios de domínio. A história não vai acabar.

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de julho de 2010

Comentários 5 Comentar
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Minha orfandade: da política global à localidade..

Permita-me, prezado professor Rui Ramos, a expor minha angústia (vivência da minha realidade), infelizmente, não consigo evitar e nem tão pouco poupar tal ecessividade!... Bem sei que não disponibilizo de instrumentos do conhecimento político para adentrar na sua profunda análise da situação sócio política emergente em Portugal... Também não entrarei na dicotomia de direita e esquerda, pois sabemos que aí está apenas uma nomenclatura para sustentar o maniqueísmo da ideologia inútil, estando aquém do Estado contemporâneo...

Tentando perceber pelo fim:” A história não vai acabar”... quanto a isto eu não me angustio, sei que a história é cíclica e que os indivíduos seguem o desenvolvimento da sociedade... No entanto, como é sempre o Estado que determina de quem são os direitos: levantou-se um pouquinho e cairá todo o restante... penso diferente e não “Levantou-se aos bocados, cairá aos bocados”...

Cont...
Minha orfandade: da política global à localidade..

Bem, a minha angústia é outra!... Existe outro grande déficit – impactante - eis um grande desafio da contradição global para eu entender: por um lado, a designação determinada pela globalização do Estado social perante o apoio na transformação das localidades é a exigência do neoliberalismo, nas sociedades periféricas, duma identidade econômica, política, social e cultural, mas a única situação que eu sinto é a palavra de ordem: dominar!...

Daí, para mim tudo é muito difícil: ao mesmo tempo que a globalização no Estado social propõe a identidade e o desenvolvimento das sociedades locais, impõe qual a direção que elas devem de seguir, além do domínio total oscilando entre liberdade e participação, está a intensificação dos direitos de liberdade burguesa na participação do poder político... Então, quais são os efeitos da “solidariedade social e controlo burocrático” (controlo da liberdade, isso sim) perante os direitos estabelecidos pelo Estado social?...

Aí eu não compreendo mesmo: como e para quê “A sociedade desenvolverá outras formas de coesão e o poder político outros meios de domínio ”... Por isso, acho tudo contraditório na política global e no Estado social... E, eu até pensei muito para entender, mas não consigo deixar de me angustiar!...

Re: Não é a política global, estúpida!... Ver comentário
Surpreendente!... Não a tua selvageria...
Nalgum momento li (não sei em qual dos livros de Foucault) que o “esvaziamento do espaço público”, em consequência da conturbação política, traça um novo caminho necessário para uma politização inovadora do pensamento - que possibilite a sustentabilidade nos relacionamentos afetivos.... Tais alternativas de sociabilidade se dão porque, assim como na política e nas ciências, nossa maneira de nos relacionarmos, o modo como pensamos, amamos, como agimos nos relacionamentos afetivos e sociais foram monopolizados... A inovação surge em resposta aos grandes avanços...
Nesse novo milênio... os avanços tecnológicos - do mundo da informatização - nos permite agir, também, numa sociedade em rede... Com o fim do estadismo fomos conduzidos para a construção duma identidade, também, coletiva!... E o maior desafio em prol da singularidade cultural, do controlo sobre nossas vidas e do meio ambiente é entendermos tais antagonismos: por um lado, os efeitos dos avanços foi um ativismo visando as transformações humanas, libertação da mulher, liberdade sexual, defesas ambientais; por outro, tem-se os chamados conservadores ou tradicionalistas criando resistências em nome das especificidades culturais, de Deus, da família e da localidade... (o terceiro efeito estou sem entender, pois é aonde estou enquadrada, já que não concordo com a liberdade desenfreada dos ativistas (Paulo Pedroso) e nem com o conservadorismo tradicionalista da selvagem (Mukany)

A seguir
Re: Surpreendente!... Não a tua selvageria... Ver comentário
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