A Lampreia
Consta que terá morrido João Sem Terra, rei dos Ingleses, de um fartote de lampreia, deglutida por uma dessas tardes de calor que agitavam o conteúdo das veias dos remotos construtores da Europa, e que tão perniciosas se revelam aos bulímicos de sempre. Acredita-se porém que sem a ingurgitação de grandes copadas de sidra, a empurrar o trânsito do ciclóstomo pelo enredo das vias do aparelho digestivo, não se mostraria porventura tão fatal o destino do soberano medievo. Quando acontecem desaires assim, a tendência dos prevaricadores vai no sentido de assacar a responsabilidade a circunstâncias acessórias, e não à que prioritariamente se perfila como causa determinante.
João Sem Terra, se atentarmos no seu imoderado gosto pelo monstro que o matou, deixaria longa e tenaz descendência. No espaço atlântico que corresponde ao mapa da gastronomia do bicho, e sobretudo nesta altura do ano, desenvolve-se toda uma litúrgica atividade de comezaina, tocada por sinais que valerá a pena observar. Larvarmente considerada iguaria da masculinidade, a lampreia reúne à volta da mesa senhores geralmente pesadões, aproveitando o momento para atribuir ao ágape a dimensão confraternizante dos companheiros de armas, ou de sala de aula. E se os mais jovens se arredam de tais banquetes, não constituirá isso garantia de que não venham no futuro a pactuar com eles, quando se lhes manifestarem ao fim e ao cabo redentoras certas torturas da infância como a massa manga-de-capote, ou a singelíssima farinha-de-pau.
Por regra muito exigentes, os convivas da lampreia, percorrendo quilómetros e quilómetros, embuçados na categoria de experts, não se abstêm de censurar o bocadinho seca que se lhes patenteia a criatura, coisa que resulta da passagem de um tempo que em princípio deverá coincidir com o florescimento das mimosas, e algo artificioso que lhes parece o molho com que se aduba a dita, isto por se haver recorrido ao sangue da galinha para compensar o que faltava de circulação original. Saem todos ligeiramente atordoados da locanda onde cumpriram o rito, despedindo-se até um dia destes, mas de facto até ao próximo ano, e os mais hipocondríacos refastelam-se diante do televisor, a beberricar o salvífico soluto de Guronsan. Bem mais ecológico se afirmaria João Sem Terra que, dispensado exutórios químicos, optaria pela naturalidade da morte que se lhe deparava.
Quanta sabedoria, e quanta tristeza, se não encontra afinal na apetitosa lógica da lampreia!


