20 de maio de 2013 às 0:08
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A justiça olhou-se ao espelho... e não gostou

Marinho Pinto atacou os juízes, Pinto Monteiro queixou-se da contaminação política dos processos judiciais, Noronha do Nascimento falou do lixo processual e de geoestratégia, o ministro Alberto Martins anunciou estágios mais curtos e um ano mais difícil. E Cavaco Silva avisou-os a todos: é preciso uma reforma " profunda e urgente".
Ricardo Marques (www.expresso.pt)

Começou com um ataque e acabou com um aviso. A cerimónia de abertura do Ano Judicial ficou marcada por ataques violentos, denúncias de promiscuidade entre os poderes político, económico e judicial e muitos alertas à navegação. E apenas Jaime Gama, presidente da Assembleia da República, fez votos de um "Bom Ano judicial".


Marinho e Pinto, Bastonário Ordem dos Advogados

"Que posso eu dizer aos meus filhos?"

Marinho Pinto, o primeiro a falar, não precisou sequer de uma palavra para lançar o ataque e apresentou-se ao microfone, perante as mais altas figuras da Justiça portuguesa, sem o colar de bastonário da Ordem dos Advogados. Fê-lo, explicou logo no início das 19 páginas que trazia para ler, de modo a simbolizar a sua solidariedade com os "simples e anónimos advogados" que defendem os cidadãos e dignificam o estado de direito. Cidadãos esse que, por vezes, perante a "desjudicialização da justiça", se vêem "tentados a fazê-la pelas suas próprias mãos"

Foi o mote para um discurso violento, de ataque permanente aos juízes - com alguns alvos bem identificados. Carlos Alexandre, o juiz do Tribunal Central de Investigação Criminal, foi um deles: "Que podemos pensar dos juízes portugueses no seu conjunto quando um deles, através de atos de pura chicana na comunicação social, devolve o equipamento que lhe fora entregue para o exercício das suas funções".

Mas não foi o único. O bastonário falou também de um juiz que se "refere aos colaboradores do senhor ministro da Justiça, alguns dos quais magistrados, tratando-os panfletariamente como boys e girls". E de um outro que interveio nas eleições da Ordem dos Advogados, participando, referiu Marinho e Pinto, "numa sessão pública de campanha em benefício de um dos meus adversários".

Num discurso em que assumiu várias personalidades - desde uma advogada grávida a quem foi recusado um adiamento, ao advogado a quem são recusadas as atas de julgamento até ao advogado condenado em taxas de justiça - Marinho Pinto denunciou a corrupção "que alastrou a todos os níveis do aparelho do Estado", queixou-se dos "assaltos aos recursos públicos" e das dívidas do Estado aos advogados oficiosos e perguntou "Que posso eu dizer aos meus filhos?". A seguir, concluiu: "A situação do país atingiu tal ponto que, hoje, todos temos de reconhecer publicamente esta evidência: as elites portuguesas falharam".



Pinto Monteiro, Procurador-Geral da República

"Contaminação política de processos judiciais"

O Procurador-Geral da República não respondeu à pergunta do bastonário. Mas recuperou um discurso de há quatro anos, na mesma cerimónia, para dizer que "a crise da justiça é, antes de mais, uma crise de falta de confiança na justiça". Sem nunca referir casos concretos, Pinto Monteiro não poupou nas palavras: "É importante afirmar que a contaminação política dos processos judiciais e, em sentido mais amplo da justiça, é tão nefasta que pode levar, como a história mostra, ao declínio da independência do poder judicial. Desiludam-se aqueles que pensam e proclamam que da guerrilha com o poder político resultará o domínio do poder judicial. Não será assim".

Perante o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República e o ministro da Justiça, Pinto Monteiro pediu "respeito mútuo". "A tentativa de resolver problemas políticos através de processos judiciais (dezenas de casos são conhecidos) é um dos exemplos da nefasta intromissão da política na Justiça", referiu o Procurador-Geral da República, ganhando balanço para várias críticas à comunicação social. "Julgamentos fora dos tribunais fazem lembrar épocas antigas de más recordações, por aí se ter assistido à negação dos princípios básicos do Estado de Direito".

A receita de Pinto Monteiro para melhorar a Justiça passa, segundo o próprio, por resolver os problemas de progressão na carreira do Ministério Público; re-estruturar o Ministério Público de modo a ser possível colocar os magistrados de acordo com a sua aptidão; prosseguir com a reforma do mapa judiciário; dar um novo estatuto ao Ministério Público. "O poder político tem que ter a coragem de clarificar que Ministério Público pretende, em prol de uma Justiça ao serviço do cidadão".



Noronha do Nascimento, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça

"Portugal corre o risco de se tornar periférico"

O presidente do Supremo Tribunal de Justiça,  anfitrião da cerimónia e terceiro na lista protocolar, fez um aviso que não estava no discurso. "Não vou falar de problemas pessoais e corporativos. Apenas dos problemas dos tribunais", disse Noronha do Nascimento, dirigindo-se à mesa de honra onde estava Cavaco Silva. Logo a seguir, fez as contas. "No espaço de cinco meses, um terço dos juízes do Supremo Tribunal jubilou-se arrastando consigo dezenas de outros juízes de segunda instância e originando a prazo problemas de gestão do quadro de magistrados".

Tal como fizera no ano passado, Noronha do Nascimento apresentou as conta do movimento processual no Supremo (3156 processos entrados e 3384 julgados), queixou-se do "lixo" processual (as centenas de milhar de ações de dívidas), e do processo executivo, a que chamou "tsunami". Depois, abriu o livro para uma lição de geoestratégia. Socorrendo-se de autores como o alemão Osvald Spengler, Samuel Huntignton, Arnold Toynbee e Tony Judt, bem como referência a um general angolano, Noronha do Nascimento defendeu que os Estados Unidos da América estão virados para o Pacifico, a Alemanha para a Ásia e que o eixo Paris - Berlim pode vir a ser substituído, em breve, no eixo tático Berlim - Moscovo.  "Portugal corre o risco de se tornar periférico", avisou.

Para evitar isso, para criar uma sociedade mais justa, Noronha do nascimento defendeu o fim do sigilo bancário e fiscal (lembrando que, na Suécia, todos os anos são consultáveis os rendimentos e descontos de todos os cidadãos), mais e melhores meios para defender os mais carenciados (o Estado, segundo o presidente do Supremo, gastou 56 milhões de euros em apoio judiciário em 2010, valor que seria inferior se houvesse 800 ou mil defensores públicos); e uma decisão sobre o processo de execução.



Alberto Martins, ministro da Justiça

"Ninguém pode antever qualquer facilidade"

O ano não vai ser fácil, disse Alberto Martins. "Esta cerimónia assinala a abertura de um ano judicial em que enfrentamos duras dificuldades", admitiu o ministro da Justiça, sublinhando que não está disposto a renunciar à esperança. "Temos o dever de agir", disse.

O governante, que também esteve na cerimónia em representação do primeiro-ministro, anunciou várias medidas "a aprovar brevemente", sendo uma delas o encurtamento dos estágios, de modo a alargar o número de magistrados colocados nos tribunais. Até setembro, ainda segundo Alberto Martins, estará concluído um debate sobre o modelo de funcionamento do Centro de Estudos Judiciários, onde são formados juízes e procuradores.



Cavaco Silva, Presidente da República

"São vários e inegáveis os sintomas da crise da Justiça"

O discurso do Presidente da República, o primeiro do segundo mandato, começou com uma constatação. "A abertura do Ano Judicial deve constituir momento  privilegiado para uma reflexão sobre a Justiça que os portugueses desejam ter - e que não é, manifestamente, aquela que atualmente existe". Depois de ouvir todas as queixas, críticas e sugestões, Cavaco Silva deixou o aviso: "Importa proceder a uma reforma profunda da Justiça, que, no essencial, permanece por realizar".

Para isso, segundo Cavaco Silva, os responsáveis do setor têm de estar conscientes que nada poderá mudar "num ambiente de crispação institucional e de conflitualidade entre os diversos agentes da Justiça. É imprescindível ultrapassar as tensões, que são visíveis, entre o poder judicial e o poder político, devendo ambos compreender que este não é um tempo de confrontos mas de cooperação patriótica". Para o Presidente, as reformas têm de ser feitas com a participação de todos.

Numa semana marcada pela instabilidade política, Cavaco Silva lembrou que, "ao contrário do que sucede noutros domínios da ação do Estado, "as causas da crise da Justiça são exclusivamente nossas e a sua resolução depende exclusivamente de nós, não decorrendo da intervenção de entidades externas".

A visão presidencial da mudança assenta em quatro pressupostos. Primeiro: não é possível mudar em clima de conflito. Segundo: "Não é possível reformar a justiça contra aqueles que, no quotidiano dos tribunais, irão aplicar as medidas (...) A certeza do Direito não se compadece com experimentalismos legislativos". Terceiro: sem ceder a pressões corporativas, a reforma não pode excluir quem participa na justiça. Quarto pressuposto: "A reforma, para ocorrer de forma efetiva, tem de ser interiorizada pelos agentes judiciários, mais do que imposta a partir do exterior pelo poder político".


Comentários 13 Comentar
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Não deixa de ser hilariante ver os principais
responsáveis pelo estado lastimável da nossa justiça a queixarem-se da mesma!
Justiça mal-amada
A Justiça em Portugal está para esta gente, como os enjeitados estão para os filhos família, ou seja, não lhes interessa que funcione e existe apenas para ser uma espécie de saco de boxe. Alguém se convence que aos advogados interessa uma Justiça que seja célere e menos garantística, que os Magistrados Judiciais aceitam deixar de ser os senhores absolutos nos Tribunais e que os Procuradores da República (MP) reconhecem que o papel da investigação criminal deve pertencer aos técnicos e que o seu importante papel deve ser de fiscalizadores e garantes da legalidade. Ninguém se convença disso, o que todos eles querem da Justiça é que para eles seja o meio de alcançar e defender os seus interesses, sendo apenas dura implacável para os outros, os que não tem lugar no palco onde decorrem estas comédias.
72 mil euros para a mulher de Alberto Martins
A Sra Procuradora e mulher de Alberto Martins,recebeu,contrariamente aos pareceres da hierarquia e apenas por despascho do ex secretário de Estado João Correia,72 mil euros por acumulação de funções.
Isso veio esta semana nos Jornais e prova um favorecimento do facto dos laços com o governante.
Neste quadro e numa Justiça a sério,o Ministro demitia-se imediatamente.Não o fez e dessa forma perdeu autoridade e ninguem o vai mais levar a sério.
Não percebo o "ano judicial"
Começa em Março, vão 3 meses de férias em Julho, lá para Outubro pode ser que façam qualquer coisinha...

Grandes vidas.
Justiça
Marinho Pinto arrisca a ser exonerado da era socrática, as verdades incomodam.
Pinto Monteiro não serve de exemplo como homem e profissional.
Noronha do Nascimento idem aspa.
Alberto Martins seriedade não mora para os seus lados.
Cavaco mais uma cavacada no sistema socrático.
Mas afinal alguns queixam-se do ajudaram a criar?
A promiscuidade
A Justiça tem razão para não gostar de se ver ao espelho. Cada um faz o que quer, não há autoridade e os amigos tratam-se depois da prepotência de alguns juízes, sabendo-se que sabem ter as "costas quentes" e por isso nada lhes acontece. É visível a promiscuidade da Justiça com a Política e o país doente assiste impávido e sem reacção, a este "casamento" de interesses.
A justiça olhou-se ao espelho... e não gostou
Os Portugueses têm olhado para a sua "JUSTIÇA" e não gostam do que vêm.
Um Poder que caiu no caricato!
Um Estado sem DIREITO!
Uma sociedade sem JUSTIÇA!
Faltam Sindicatos..
Falta:

Sindicato dos Presidentes da Republica
Sindicato da Assembleia e dos deputados
Sindicato do Governo e membros do Governo.

Já temos o SMMP - Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e a Associação Sindical dos Juízes.
Pequenotes
Nunca gostei de homens pequeninos que não saibam dançar.
Tirem-me da vista esta cambada de pequenotes.
LEGALISED AND INSTITUTIONALISED CRIME !!!!!!!!!!
A orrupcao e de tal ordem que varios governos ja comecaram a tomar medidas para por fim a esse estado de coisas. Um dos prinicipais responsaveis por essa situacao sao as SEITAS E ORGANIZACOES SECRETAS E SINISTRAS:
South African judges’ political participation discussed in parliament
January 19th, 2011 in News, SocietyAPA – The South African Department of Justice on Wednesday briefed members of the joint ad hoc Committee set up in parliament to process the Judicial Service Commission Amendment Act, discussing whether judges should be allowed to belong to a political party, or whether only direct participation in party political activities should be outlawed, among others. The law requires Justice Minister Jeff Radebe and Chief Justice Sandile Ngcobo to come up with a code of judicial conduct and regulations to establish a register of assets for judges and their immediate family members. The deputy chief state law adviser, Jacob Skosana, told MPs that the minister “is happy to be led by Parliament” on judges’ political participation, noting that international practice barred political participation, but not party membership. However, while a blanket ban on membership could infringe a judge’s constitutional right of free association, the nature of cases brought before court “were increasingly political”. This might require a new approach to the issue. As it stands, the draft code of conduct states that a judge “does not “become involved in any political controversy or activity
Fiquei deprimido
O estado a que a justiça ficou deve-se não só aos magistrados, mas também ao poder político. Parece-me que há aqui muitos colegas comentadores que não percebem isso.

Não me alongo, porque o Marinho Pinto já disse o mais acertado que eu poderia dizer: «A situação do país atingiu tal ponto que, hoje, todos temos de reconhecer publicamente esta evidência: as elites portuguesas falharam».
O DILEMA DA JUSTIÇA, ATÉ QUANDO?
A justiça, e por isso as leis, deviam ser claras, simples e ser rápida a sua aplicação. Especialmente em ocorrências simples, que deviam ser de resolução imediata, senão, por vezes não tem interesse nenhum.

Mas não. Qualquer questiúncula, tem o mesmo tratamento como se do crime mais escabroso se tratasse. Ora isto é um erro de todo tamanho. Últimamente foram implementados os julgados de paz, que, parece, tem dado bons resultados, se bem que os seus executores tudo tenham feito para os sabotar. Isto também me parece, desculpem se estou enganado.

Primeiro, direi que só fui ou irei para tribunal, se fôr empurrado, e vou tantar explicar um caso que se passou comigo, e dar a minha opinião para jutificar o que atrás disse.

Foi um diferendo entre as extremas de duas propriedades rústicas, em que os marcos tinham desaparecido.

Tive que meter um processo em tribunal, e depois de muitas exigências processuais e formalidades, e anos de espera, o tribunal decidiu, que podia pedir a revisão da extrema. E o que é que isso significava? Os litigantes nomeavam cada um o seu perito e tribunal nomeava um para desempate.

Ora isto é o que su chamo uma autentica aberração. E pergunto: então isto não devia ser um assunto de câmaras municipais, mediante um simples requerimento? As câmaras não têm meios mais que suficientes, (arquitetos, engenheiros), para resolver estes assuntos?

Não que algum dos litigantes não podesse recorrer a tribunal, mas já com a informação da câmara atrás.
"ONDE PÁRA A JUSTIÇA ?'"
Deixemo-nos de tretas qual justiça qual carapuça.
Feirinha entediante de vaidades apenas e sem baile.

Advogados + dinheiro
Bastonário +dinheiro e foguetada
Magistrados + dinheiro
Juízes + dinheiro
Supremo Noronha + dinheiro alêm de uns tiques de ....enfim ! é lá com ele.
Ministro + dinheiro
Procurador Geral e companhia +dinheiro e artes plásticas.
Presidente +papel de embrulho e anti-gorduras.

Justiça em Portugal sim senhora existe e da boa para:
Quem tem azar na vida,quem anda a trabalhar ainda,e quem não tem onde caír morto.
Kácus
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