A jóia de Mugabe
"São veteranos de guerra", explica o motorista. Os "veteranos" da guerra da independência (obtida em 1980 do Reino Unido) foram a ponta de lança utilizada pelo Presidente Robert Mugabe no início desta década para impor a sua reforma agrária, com o objectivo de concretizar a redistribuição pela população indígena dos milhões de hectares de terra fértil que permaneciam nas mãos de pouco mais de quatro mil fazendeiros brancos, herança directa do período colonial.
Mas o processo resultou em violência e caos, levou ao abandono do país por parte da maioria destes fazendeiros e deixou no desemprego dezenas de milhares de trabalhadores rurais, contribuindo para agravar ainda mais a crise económica.
Apesar de estar na altura de lançar à terra as sementes do tabaco - a principal exportação agrícola do país -, a terra que se vê da estrada está coberta por ervas e arbustos, pois a generalidade dos novos proprietários dedica-se à tradicional agricultura de subsistência e apenas algumas parcelas estão a ser trabalhadas com tractores.
Está ali mesmo à vista a razão pela qual o Zimbabwe foi catapultado para as páginas dos jornais e das televisões europeias e do mundo inteiro. Mas parar para tirar fotografias ou falar com os "veteranos" está fora de questão: "É melhor não, ainda podiam pensar que são jornalistas, e as pessoas daqui não gostam disso", avisa o motorista. Aliás, também é preferível que este continue a pensar que transporta meros turistas.
Foi, porém, a estratégia fácil e eficaz de fuga para a frente adoptada por Mugabe - o pai da independência - após a derrota no referendo constitucional de 2000 que o fez perceber que os zimbabweanos, a braços com uma crescente crise económica, não estavam dispostos a passar-lhe mais cheques em branco, numa altura em que o emergente Movement for a Democratic Change (Movimento para uma Mudança Democrática, MDC) se afirmava como alternativa e desafio à altura da até aí incontestada ZANU-PF, o partido quase único desde sempre à frente dos destinos do país.
O regime jogou a cartada da terra, capaz de tocar as sensíveis cordas nacionalistas e raciais de um país marcado por um passado de segregação e humilhação da maioria negra pela minoria branca, mobilizando apoios e justificando excessos.
Volvidos sete anos, "a questão da terra", erigida pelo Governo como estandarte e desculpa para debelar todos os ataques de que se considera alvo a partir do exterior, parece ser algo que diz pouco à generalidade da população, onde a prioridade vai para a sobrevivência, com a taxa de desemprego a atingir os 80 por cento.
Na Inn on the Vumba, uma estalagem nas montanhas que lhe dão o nome com vista para o vale moçambicano, os poucos hóspedes jantam à luz das velas. Aos habituais "apagões", devido à incapacidade do Governo de garantir os pagamentos em divisas da energia importada, soma-se o roubo de grandes extensões de preciosos cabos eléctricos de cobre.
A poucos quilómetros de distância, no luxuoso hotel Leopard Rock, repete-se o cenário de um sector turístico outrora estratégico mas actualmente em decadência. Aqui, nem sequer há hóspedes. Em ambos os sítios, os empregados, vestidos com as suas fardas impecáveis, esforçam-se por manter uma aparência de normalidade.
Mas a pantomina colectiva não resiste à mais leve chamada da realidade. Na ausência dos aficionados de golfe cujas gorjetas lhe garantem o ordenado, James, desde sempre "caddie" naquele que foi considerado o melhor "green" do continente, aproveita a curiosidade dos visitantes para oferecer uma visita guiada pelo campo e suas soberbas vistas. Ao longo do passeio, conta, orgulhoso, indiferente ao dedo do pé que espreita pelo sapato roto, como tem conseguido baixar o "par" nos torneios organizados entre "caddies".
Mas o entusiasmo vai esmorecendo quando explica que, de há uns tempos a esta parte, só aos fins-de-semana surgem alguns turistas, o que o obriga a encontrar tempo para vender batatas e bananas, que compra nas quintas das redondezas, para poder continuar a enviar dinheiro para a mulher e os dois filhos. Gostava de ter mais crianças, mas "a situação está difícil". "São tempos de privação. Temos uma liderança que sabe tratar de si, mas a população passa muito mal", diz.
Tanto a Inn como o Leopard Rock ficam nas montanhas que rodeiam Mutare, a terceira maior cidade do país. A ida para Harare, a 300 quilómetros de distância, é uma verdadeira operação logística, principalmente para encontrar gasolina. Os camiões-cisterna que aguardavam para entrar no país provenientes do porto da Beira, em Moçambique, são claramente insuficientes para responder à procura.
Ex-polícia convertido em taxista, Sebastien mostra como no Zimbabwe, apesar de quase nada funcionar, tudo funciona - e, apesar de quase nada existir, tudo se encontra no mercado negro. Se não há gasolina na bomba, facilmente se descobre quem vende pequenas latas a 1,4 milhões de dólares zimbabweanos (zimdólares) o litro. No mercado negro, um dólar americano (0,67 euros) vale cerca de um milhão de zimdólares. A taxa oficial (um dólar = 30 mil zimdólares, ou seja 33 vezes menos) é levada tão a sério quanto a promessa do vice-ministro do Desenvolvimento Económico de que, no final de 2008, a inflação, que actualmente atinge os 8000 por cento, será de apenas um dígito...
A caminho da capital, Sebastien desfaz-se em gargalhadas enquanto fala da mudança extra que passou a equipar todos os veículos do país, a "mudança Mugabe", ou seja, o ponto morto, ao qual todos recorrem ao mais leve declive para poupar algumas gotas de combustível.
É sábado de manhã, e as ruas centrais de Harare fervilham de gente que anda às compras ou à procura de sítios onde haja alguma coisa para comprar. Também na capital, a maior parte das lojas de bens alimentares está vazia, mas a situação repete-se em estabelecimentos de venda de roupa ou perfumes, e todas as sapatarias têm um aviso: "Apenas um par por cliente".
A presença de brancos, e ainda por cima estrangeiros, chama a atenção. De um grupo que se reúne num café para beber "chibuku", a pestilenta cerveja dos pobres consumida em pequenos barris de plástico, destaca-se um jovem "rasta" que, depois de encontrar umas garrafas de cerveja "normal", lança o convite: "Querem conhecer a verdadeira Harare? Amanhã levo-os ao gueto." O passeio concretiza-se pelos subúrbios mais pobres da zona sul de Harare e acaba por proporcionar uma experiência inesperada, com uma passagem por Tzarasekwa, um dos antigos bairros de lata mandados destruir pelo Governo em Maio de 2005. Com o pretexto de "limpar" a cidade, o regime arrasou igualmente os principais bastiões do MDC, cujo eleitorado é maioritariamente urbano, e deixou, segundo a ONU, mais de 700 mil pessoas desalojadas.
Kumbirai, o cicerone, parece perceber desde o primeiro momento que o interesse dos visitantes vai muito para além do mero passeio turístico, mas não faz perguntas e toma a iniciativa de falar longamente sobre a maneira como as dificuldades do país atingiram também o meio que melhor conhecia até há pouco tempo, a escola.
A educação foi uma das prioridades do Governo zimbabweano após a independência, num esforço que levou a taxa de alfabetização da população adulta aos actuais 90 por cento, valor digno de um país do Primeiro Mundo, mas em erosão acelerada. A crise económica obrigou o Governo a introduzir propinas, cujo pagamento é incomportável para muitas famílias, e os salários de 10 milhões de zimdólares (6,7 euros) pagos aos docentes forçaram muitos a procurar outros trabalhos ou a deixar o país.
Tal como "a questão da terra" estará longe das preocupações desta gente, também as actuais negociações entre Governo e oposição, mediadas pelo Presidente da África do Sul, são algo distante. Mas não para activistas políticos como Lovemore Madhuku, presidente da Assembleia Constitucional Nacional, uma das organizações que participou na criação do principal movimento de oposição, o MDC.
Madhuku acompanha essas negociações com desconfiança e desencanto, pois além de profundamente dividido e a braços com episódios de violência interna, o MDC, liderado por Morgan Tsvangirai, estará a fazer a Mugabe concessões inaceitáveis, que vão permitir ao actual Presidente preparar a sua sucessão nos seus próprios termos e condições.
Em causa está, nomeadamente, a aceitação de uma nova cláusula constitucional que permite que, caso o Presidente abdique, o sucessor seja eleito pelo Parlamento, o que é visto como uma forma de Mugabe preparar a sua saída de cena, talvez lá para 2009.
Mas, provavelmente, os desiludidos do MDC terão de se resignar com o resultado. Como disse ao "Expresso" um diplomata europeu em Harare, as próximas eleições "não serão livres, nem justas, mas na Nigéria foram piores, e a Europa aceitou-as". Por isso, tal como em relação às conversações entre Governo e oposição, este diplomata preconiza uma abordagem pragmática: "Provavelmente, o resultado será um rato, mas não o devemos ignorar, se queremos que este país saia da situação em que está." Mesmo que isso signifique um novo triunfo de Mugabe, pois, segundo a mesma fonte, o Presidente está muito empenhado em fechar um acordo com a oposição antes da Cimeira União Europeia-África, de Lisboa (nos próximos dias 8 e 9), "para ser recebido com uma passadeira vermelha" na capital portuguesa.
Mesmo que qualquer cidadão zimbabweano pretendesse acompanhar estas jogadas que decidirão o seu futuro, dificilmente conseguiria ter acesso a um relato minimamente fiel do que se passa, tal a distorção e manipulação levadas a cabo pela generalidade dos "media", que, tirando alguns semanários, são todos afectos ao Governo.
A excepção são pessoas como Guthrie Munyuki, jornalista, que trabalhou no "Daily News" até este diário ter sido fechado pelo Governo, em 2003. Detido e espancado pela polícia, faz questão em dar a cara para contar a sua versão dos acontecimentos: "Nos últimos quatro anos aprendi que tenho de defender a profissão, sou jornalista, e jornalismo é coragem, integridade e honestidade. Isso não se faz se tivermos medo. Já vi pior, aparecer não me assusta, nada me assusta", explica, com o olhar firme.
Pedzai Ruhanya, um dos responsáveis da Crisis in Zimbabwe Coalition, irrita-se quando alguém lhe pergunta se não é "normal" qualquer país africano registar atropelos democráticos e dificuldades económicas: "O Zimbabwe tinha um ponto de partida diferente dos outros, e a comunidade internacional devia intervir, em vez de ceder ao ditador e o convidar para ir a Lisboa, pois - pode ter a certeza - ele não cederá."
Provavelmente, era nessa diferença entre o Zimbabwe e os outros países da região que Samora Machel estava a pensar quando, na cerimónia de independência do novo país vizinho, em Abril de 1980, disse a Mugabe: "Robert, herdaste a jóia de África. Tens que a conservar!" Como constatou recentemente Doris Lessing, Prémio Nobel da Literatura que cresceu na então Rodésia e se bateu pela sua independência até esta se transformar no Zimbabwe, passados estes anos "a jóia está muito estragada".
"Porque é que um zimbabweano haveria de seguir um fazendeiro branco que ajudou a expulsar do Zimbabwe? Quem não fez nada para salvar o país tem algo por que pagar", afirma. Kevin, 37 anos, vive com a mulher, Tracy, e os dois filhos numa casa que pertenceu a um português, perto de Vanduzi, entre Chimoio e a fronteira com o Zimbabwe, na região de Manica. É o último de um grupo de 37 produtores de tabaco que tentaram prosseguir a actividade no país vizinho após terem sido expulsos das respectivas propriedades pelos "veteranos de guerra" de Mugabe.
A quebra no preço do tabaco no mercado internacional, a burocracia moçambicana e as diferenças no clima representaram dificuldades inesperadas e levaram a maioria a desistir.
Além de Kevin, não serão mais de meia dúzia os "farmeiros" que permanecem nesta zona de Moçambique. São apenas a ponta, privilegiada e não representativa, do icebergue que é o verdadeiro êxodo da população do Zimbabwe nos últimos anos. Empurrados pela crise económica e pelo desespero, estima-se que quase 3 milhões de zimbabweanos (em 13 milhões) tenham procurado uma vida melhor noutros países, principalmente na África do Sul.
Também Moçambique tem registado um afluxo massivo de cidadãos do país vizinho, seja para adquirirem bens de primeira necessidade que faltam nas suas lojas, seja para trabalhar. Enquanto a presença dos "farmeiros", que cria postos de trabalho, é bem vista pela população, já a mão-de-obra mais barata oferecida pelos zimbabweanos tem provocado algum desagrado.
As autoridades moçambicanas estão preocupadas sobretudo com o elevado número de zimbabweanas que vendem o corpo nesta região fronteiriça, muitas vezes por 50 meticais (menos de 2 euros). A sida, que atinge mais de 20% da população adulta do Zimbabwe, é a principal ameaça. Nancy, de 25 anos, professora de inglês e francês, está actualmente em Maputo, onde se prostitui nos hotéis da capital, depois de também ter passado pela região de Chimoio: "Até 2001 tínhamos uma vida normal, mas depois começaram a faltar coisas", recorda.


