A troika tirou os docinhos a Passos
Foi bom enquanto durou. Apenas duas semanas. O acórdão do Tribunal Constitucional que declarou a inconstitucionalidade do corte nos subsídios de férias e de Natal no Estado por violar o princípio da igualdade era um poderoso alibi para o Governo fazer mais dinheiro fácil à custa de cortes idênticos nos subsídios de férias e de Natal dos privados a partir de 2013. Passos Coelho já afiava o dente aos novos impostos: uma taxa global sobre a totalidade dos subsídios dos privados.
É sempre impressionante ver como os políticos adoram impostos e não resistem a ver mais um à esquina. Mesmo que causem ainda mais recessão. E contrariem então velozmente o discurso da moda que acabaram de abraçar, à Hollande, com a necessidade de crescimento económico.
Mas chegou o FMI para estragar a festa. É preciso cortar na despesa pública e não fazer mais dinheiro através da receita, ou seja de mais impostos, disse o chefe da missão para Portugal, Abebe Selassie.
O que era uma oportunidade vinda miraculosamente do Palácio Ratton, tormou-se um grande pesadelo para o Governo. Passos Coelho não pode contar com o corte dos subsídios do Estado em 2013, 2014 e 2015 por ser inconstitucional e tem de começar a fazer aquilo que nenhum governante em Portugal, com ou sem troika, quis fazer até hoje em Portugal: reformas a sério na Administração Pública (Estado e autarquias) para poupar os muitos milhões que perde em virtude do acórdão do Tribunal Constitucional.
O que não entra pela porta entra pela janela. Há um mês, Miguel Relvas dizia que tinha sido muito complicado convencer a troika de que não se podia acabar com metade dos concelhos portugueses. Pelos vistos a troika não desistiu desta e outras ideias de reestruturação do Estado. Aproveitou o acórdão do Tribunal Constitucional para voltar à carga.
Quem percebeu logo tudo foi Paulo Portas. Discordou do corte de subsídios no privado porque equivaliam a mais impostos. Ainda fez o seu estado da arte como verdadeiro estadista ao recusar comentar palavras do presidente do Tribunal Constitucional por respeito à instituição. Chamou-lhe "institucionalismo". E acentuou, desta forma, o amadorismo e ingenuidade de Passos ao convidar a praça pública, em declarações quase surrealistas, a comentar o acórdão do TC.
É um fartote para Portas. Ainda viu o n.º 2 do PSD no governo, Miguel Relvas, estatelar-se ao comprido no caso da licenciatura na Lusófona. É o PSD que dá sempre azo a estes espetáculos, enquanto o CDS assiste de cátedra. Olhe-se o caso de Henrique Chaves no tempo de Santana Lopes em 2004.


