Para que servem as artes? Para nada, segundo vários artistas que ouvi
debater esta questão
há umas semanas numa conferência do
Institute of Ideas
, que teve o apoio do
Instituto Britânico
. Os artistas fizeram questão de rejeitar a ideia de serem "úteis", de se sentir obrigados a justificar a sua existência através de qualquer benefício económico ou social; apesar das tentativas do Professor Augusto Mateus de explicar que sim, há benefícios económicos (entre outros) que vêm da criatividade. "Orgulhosamente inútil" não é um
slogan para todos, mas os artistas fizeram uma eficaz rejeição do conceito de utilidade. Tamanha convicção tem uma tradição longa; posso citar como exemplos deste raciocínio dois dos meus poetas preferidos -
"poetry makes nothing happen" escreveu WH Auden no seu
epitáfio sobre WB Yeats
, e o próprio Yeats mostrou o seu desdém pela utilidade pública, ou pelo menos, pela popularidade da arte, no seu
poema sobre um potencial mecenas
para a Galeria Municipal de Dublin.
Um comentário nesta orgia de negação veio de um participante que disse que a arte é intrínseca a qualquer ser humano. Concordo plenamente; para mim o acto criativo, de auto-expressão, e tão fundamental para nós como respirar.
Pode vir em muitas formas. Vi uma na semana passada, no contexto de um
evento que a Embaixada organizou com a Crinabel
, uma instituição que contribui para a educação, reabilitação e integração de pessoas com deficiência no seu desenvolvimento intelectual. Parte do dia foi preenchida por uma sessão de teatro na qual participaram vários membros da
Crinabel
. Um deles saiu da sua cadeira de rodas para dançar, junto aos seus colegas. Fiquei de boca aberta; poucas vezes na minha vida tinha visto tanta energia, tanto desejo de expressão, tanta força num ser humano - é uma imagem que ficará na minha memória e no meu imaginário. Os fins da arte são muitos; um deles tem de ser a capacidade de nos fazer sentir vivos.