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| "A ciência é, na verdade, confusa, desordenada, e há muitas maneiras diferentes de a fazer" |
| Nuno Botelho |
O físico teórico e matemático anglo-americano Freeman Dyson, de 84 anos, é popular em todo o mundo pelo seu trabalho de investigação na física, mecânica quântica e energia e armas nucleares.
Publicou mais de uma dezena de livros de divulgação científica - quase todos esgotados em Portugal -, e criou novos conceitos na ficção científica que se tornaram famosos, alguns baptizados com o seu próprio nome.
É o caso das 'Esferas de Dyson', biosferas artificiais do tamanho de asteróides que os cientistas deveriam procurar no espaço se quisessem descobrir civilizações extraterrestres, ou da 'Árvore de Dyson', uma planta geneticamente modificada capaz de se desenvolver nos cometas e alimentar colónias espaciais.
Presidente do Space Studies Institute e professor do Institute for Advanced Study em Princeton (Nova Jérsia, EUA), Freeman Dyson foi um dos cientistas de renome mundial que assinou um carta aberta dirigida em Dezembro de 2007 ao secretário-geral das Nações Unidas, Ban Kin Moon, a propósito da Cimeira de Bali, que criticava "as conclusões cada vez mais alarmistas" do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU.
Falar no fim da ciência é tão absurdo como falar no fim da religião?
Sim, é completamente absurdo. É muito interessante ouvir conhecidos académicos como George Steiner dissertar sobre o assunto. É como Al Gore. Fala de alterações climáticas e tudo soa como um desastre. É um discurso bonito e a maior parte do que diz é verdade, mas as conclusões estão erradas.
É importante discutir os limites da ciência?
Eu diria que não faz grande diferença. Para mim, a ciência é apenas um conjunto de ferramentas que por vezes funcionam e outras vezes não. Da maneira que ele fala, George Steiner está a transformar a ciência numa religião. Algumas pessoas gostam de ver a ciência como algo de absoluto, puro e grande mas ela não é assim. A ciência é, na verdade, confusa, desordenada, e há muitas maneiras diferentes de a fazer. Algumas chegam a um fim e outras substituem-nas. Estou convencido que a ciência vai continuar no futuro, mas não aquela que nós fazemos hoje.
Portanto, está optimista em relação ao futuro da ciência.
Sem dúvida.
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| "Quando falamos de Deus estamos certamente fora dos limites da ciência" |
| Nuno Botelho |
E acredita que não há limites?
Sim. Há ainda muitos problemas que mantêm a ciência viva e nós, cientistas, gostamos de problemas e de mistérios para resolver e desvendar.
Nas previsões científicas sobre os próximos 50 anos publicadas pela revista "New Scientist" no final de 2006, você defendia que a maior revelação de todas seria a descoberta de vida extraterrestre. Porquê?
Não levaria essas previsões demasiado a sério. De certa maneira foram uma brincadeira. Claro que será muito importante se for descoberta vida extraterrestre.
"A Teoria de Tudo é uma ideia estúpida"
E descobertas como a Teoria de Tudo?
Essa é uma ideia estúpida que está a iludir a opinião pública, pensar que é possível encontrar uma teoria maravilhosa que explique tudo.
No seu último livro 'O Cientista como um Rebelde' (2006) constata que "a ciência é um mosaico de visões parciais e em conflito". Isto significa que é mesmo impossível descobrir a Teoria de Tudo?
Sim.
Mas a Teoria das Supercordas, por exemplo, não é um bom esforço para lá chegar, para compreender o Universo?
Não sei. A única coisa que sei é que os matemáticos adoram esta teoria, porque tem uma boa base matemática. Na generalidade, os físicos não estão muito interessados nela, não a consideram útil. Mas pode ser que venha a ser útil dentro de cem anos por alguma razão que hoje não conseguimos imaginar.
E outro tipo de descobertas como, por exemplo, a base fisiológica da consciência?
É certamente um dos grandes problemas a resolver até ao próximo século, pelo menos. Estamos mais perto da sua solução e temos neste momento as melhores ferramentas para observar o cérebro humano e o seu comportamento, mas ainda com uma resolução muito pobre. Precisamos de instrumentos que possam observar o interior do cérebro com mais detalhe e com melhor resolução no tempo e também no espaço.
No seu livro 'Infinito em Todas as Direcções' (1988) não faz nenhuma distinção entre a mente humana e Deus. Isso quer dizer que os avanços da ciência na compreensão da mente nos irão conduzir à descoberta científica de Deus?
Não. Ao estudarmos a mente humana poderemos ter uma imagem mais realista de Deus mas não uma imagem científica. A ciência não trata da religião, para mim não há uma conexão entre as duas, gosto de as manter separadas. Quando falamos de Deus estamos certamente fora dos limites da ciência.
Um cenário futurista de fusão entre a ciência e a religião faz algum sentido?
Para mim não. Mas para muitos dos meus amigos cientistas faz.
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| "A ideia de que o aquecimento global é um desastre está errada" |
| Nuno Botelho |
Tem afirmado que o aquecimento global está a ser muito exagerado como problema. Porquê?
Porque não vejo nenhuma evidência que justifique o alarmismo actual em relação às alterações climáticas. Certamente que o aquecimento global existe, só que é mais sério no Árctico do que na Europa e mais visível no Inverno do que no Verão. Provavelmente as condições para a vida selvagem já estiveram melhor do que estão hoje. Mas a ideia de que o aquecimento global é um desastre está errada. Al Gore diz a toda a gente que estamos perante um desastre de tais dimensões que é necessário gastar muito dinheiro e recursos para o evitar, mas acho que não há razões para isso. Na maioria dos casos, gastar tanto dinheiro será simplesmente um desperdício.
Acha possível que o Mundo evolua num futuro próximo para uma civilização com baixo teor de carbono?
É pouco provável e não vejo nenhuma vantagem nisso.
"O CO2 não nos está a fazer mal"
Porquê?
Porque acho que o carbono não nos está a fazer mal. Se olharmos para o passado, na maior parte do tempo houve mais CO2 na atmosfera do que há hoje. E a vida adaptou-se muito bem a isso. Claro que é possível que caminhemos para uma sociedade com baixo teor de carbono porque estamos a esgotar as reservas de petróleo, gás e carvão e teremos que estar preparados para uma sociedade sem combustíveis fósseis, mas isso não vai acontecer tão cedo.
Qual é para si o maior problema que o Mundo hoje enfrenta?
Continuo a pensar que são as armas nucleares. Este sim, é um perigo que pode provocar um verdadeiro desastre e não estamos a prestar a devida atenção a ele.
O desarmamento nuclear, a cooperação internacional, o fim das guerras e a paz são assuntos que dizem respeito à ciência?
Não, são assuntos essencialmente políticos. A razão por que a ciência é útil nestes assuntos é que os cientistas dialogam melhor entre eles do que os políticos. Se me encontrar com um cientista do Irão não tenho qualquer problema em dialogar com ele de uma forma muito produtiva e em pé de igualdade. Um cientista é muito útil para unir o Mundo.
Falemos agora de viagens no espaço, um tema que tem investigado ao longo da sua carreira. O actual desenvolvimento do turismo espacial é o princípio de uma era de democratização do espaço, como aconteceu com as viagens de avião?
Não sei, é tudo uma questão de natureza económica. Para já, só os bilionários conseguem fazer essas viagens turísticas à Estação Espacial Internacional. Não me parece que este seja o melhor caminho. Para ser democrática, uma viagem tem de ser barata. E há outra questão: é possível ter um grande tráfego no espaço, tal como hoje acontece no transporte aéreo?
E iniciativas privadas como os prémios lançados por Richard Branson e por outros empresários para promoverem as viagens espaciais?
São iniciativas muito boas, que apontam na direcção certa, são prémios que encorajam as pessoas a desenvolverem naves e lançamentos baratos, fora dos programas dos governos. Mas ainda não é claro se estes projectos vão ser bem sucedidos.
A Ciência terá Limites?
Haverá sinais "de uma possível crise no até agora postulado axiomático do progresso sem limites?" E existirão "algumas pistas sérias de que a teoria e a praxis científicas se deparam com fronteiras de ordem fundamental e possivelmente insuperável?". Estas foram algumas das grandes interrogações colocadas por George Steiner no seu discurso de abertura da conferência internacional da Fundação Gulbenkian sobre o tema "A Ciência Terá Limites?", realizada em Lisboa, em Outubro de 2007.
A Gulbenkian e a Gradiva lançaram agora o livro com as 14 intervenções da conferência, onde Steiner liderou o grupo dos cépticos em relação ao futuro da ciência. Para estes, não se trata de constatar que a ciência já descobriu quase tudo, mas antes de defender que o essencial que falta descobrir está para além das capacidades humanas.
Como exemplifica Steiner, "a possibilidade de a Teoria das Cordas não poder ser verificada nem refutada implica uma crise ontológica no seio do próprio conceito de ciência"; o conhecimento da consciência "tem-se mostrado radicalmente esquivo"; e a incompletude e a indeterminação, "exemplificadas pelas obras de Godel e de Heisenberg, são muros nos quais a razão embate em vão".
E há sintomas preocupantes como a queda das inscrições de estudantes universitários nos cursos de ciências "duras" como a Física e a Matemática". Ou a emergência da irracionalidade, da superstição e do fundamentalismo, onde "o ataque não é tanto contra a ciência mas contra a própria razão".
John Horgan, jornalista americano que publicou em 1996 o "best-seller" O Fim da Ciência, falou também na conferência no mesmo tom que Steiner e disse na altura, em entrevista ao "Expresso", que a única área do conhecimento onde estava "um pouco mais optimista quanto à possibilidade de progressos significativos" era a das neurociências, isto é, "a tentativa de explicar a nossa consciência".
João Caraça, director do Serviço de Ciência da Fundação Gulbenkian deixa, no entanto, uma mensagem clara de optimismo: "A ciência é um elemento essencial do diálogo interminável entre o Homem e o seu mundo", e não se vê, "no nosso século nem nos seguintes, como se conseguirá manter uma sociedade baseada no conhecimento de modo razoável e sustentável sem a participação da ciência".
No fundo, os seus limites "estão ligados ao facto de a ciência ser uma actividade social". e não "uma actividade especial praticada por sábios encastrados nas suas torres de marfim".