17/05/2012 atualizado às 0:47

A história do Solnado

Aos 72 anos, conta em palco as histórias do teatro português. É para rir, chorar e rir mais uma vez. Visite o especial dossiê Raul Solnado (1929-2009).

Bernardo Mendonça
19:36 Sábado, 8 de agosto de 2009

Raul Solnado está desde há muito reservado um lugar especial na história do humor em Portugal. De estatura pequena, olhar de reguila e gaguez controlada, atravessou décadas a fio com o seu jeito próprio de fazer rir.

Clique para aceder ao índice do DOSSIÊ RAUL SOLNADO (1929-2009)

Hoje, com 72 anos, enche plateias só para contar alguns episódios da sua vida e dos seus 50 anos de carreira. E tudo isto em "Histórias da História do Teatro Português", um formato sem grandes ensaios, com "slides" à mistura, que vive do improviso de Solnado e da curiosidade do público. O resultado é surpreendente. Façamos um "flash-back". A primeira ligação do actor com o teatro foi como simples e fiel espectador. Habituado a assistir com o pai às matinés dos principais espectáculos de Lisboa, ganhou desde logo um fascínio.

Vasco Santana, Laura Alves ou António Silva eram alguns dos seus maiores ídolos. No final de cada sessão, batiam-se palmas, o pano fechava, mas a curiosidade de Raul ficava do outro lado. Na zona dos bastidores: "Imaginava o que aqueles grandes actores fariam a seguir ao espectáculo. Achava que faziam sempre uma festa. E eu, claro, queria fazer parte dela".

Não demorou muito para que Raul integrasse o elenco do grupo amador da Sociedade Guilherme Cossul, estrategicamente situada em frente à loja de escovas do seu pai. Aí fez muitas peças experimentais, ao lado de jovens talentos que mais tarde vingariam consigo na profissão, como Jacinto Ramos, Varela Silva, Manuel Cavaco, entre outros: "Aquilo era chamado por muitos como o 'conservatório da esperança'".

A primeira oportunidade surge em 1953, no palco do Maxime, um luxuoso cabaré de Lisboa. Ao lado de José Viana agita a plateia com uma sucessão de "gags": "Foi uma pedrada no charco para o público". Deve ter sido. O empresário Vasco Morgado gostou do que viu e contratou imediatamente o jovem Raul para integrar o elenco da revista "Viva o Luxo" no extinto Monumental.

Aí o seu papel era quase entrar mudo e sair calado. Mas o mestre António Silva percebeu o potencial do jovem actor e em cada espectáculo que fazia alongava-lhe mais a cena para provocar o improviso.

Solnado ficou conhecido pela sua capacidade mimética e interpretativa de várias rábulas de humor, mas houve uma em particular que marcou a memória dos portugueses. Em 1962, vestido de soldado raso em "histórias de guerra de 1908", criou uma paródia absurda sobre a guerra, semelhante à situação dramática que Portugal vivia na altura. Com este trabalho conquistou a unanimidade da crítica e do público.

Por todo o lugar onde passava, era acarinhado, abraçado e venerado: "Numa das vezes que fui a África, levei tantos abraços que fiquei com o corpo cheio de nódoas negras. Outra vez, quase me arrancaram a roupa. Os portugueses entusiasmavam-se muito, porque eu levava um cheirinho da pátria mãe". Eram os "ossos partidos do ofício".

Na televisão empresta o seu talento a alguns programas que foram marco na história do pequeno ecrã. No fenómeno "Zip Zip" junta-se a Fialho de Gouveia e Carlos Cruz para lançar o primeiro "talk show" em Portugal, em plena Primavera marcelista: "Pusemos o povo a falar na TV", lembra com orgulho.

Pouco depois, vem o êxito esmagador do concurso "A Visita da Cornélia". Um novo formato, com uma vaca malhada como mascote: "Foi nesse programa que se lançaram alguns talentos como José Fanha ou Tozé Martinho".

Artigo publicado na edição do Expresso de 12 de Março de 2002.

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