A guerrilha indecente na PT
Quem investe numa empresa quer ganhar dinheiro ou mandar nela? Numa empresa cotada nas bolsas de Lisboa e Nova Iorque esta é uma questão muito séria. Assim como é séria a questão de saber de que forma os donos de empresas de comunicação social olham para elas: um negócio ou um meio para potenciar outros negócios? Se juntarmos os dois lados menos nobres destas questões, temos como resultado o que se passou na PT nas duas últimas semanas, com o diretor do "Diário Económico" a escrever uma 'notícia' onde sustentava, com base em fontes não identificadas, que acionistas da PT estariam incomodados pelo facto do presidente da PT. Zeinal Bava, ter dado uma entrevista à revista "Veja" em que supostamente fazia recair sobre si todos os louros do negócio PT/Telefónica/Vivo/Oi, não relevando o papel de José Maria Ricciardi, presidente do BESI - coisa que, lendo a entrevista, em nenhum momento se descortina.
Tudo isto é lamentável e mesmo um pouco deprimente. Nem no momento em que se concretizou o maior negócio de sempre realizado por uma empresa portuguesa e a posterior compra de uma posição noutra grande operadora brasileira, os seus acionistas são capazes de comemorar. Antes desembainham as facas dos seus interesses pessoais e tentam ajustar contas com a dupla de indiscutível sucesso (Henrique Granadeiro/Zeinal Bava) que dirige a PT, por não ceder a esses interesses. Lamentável e mesmo um pouco deprimente é que seja o órgão de comunicação social controlado pela Ongoing a dar esta 'notícia'. Lamentável e mesmo um pouco deprimente é o argumento só passível de ser aceite por débeis mentais de que Granadeiro e Zeinal queriam logo vender por 5,7 mil milhões para receber os respetivos prémios. Lamentável e um pouco deprimente é que, mais uma vez, uma forte turbulência na PT seja provocada pela Ongoing, que já tinha estado no centro de uma polémica quando foram investidos alguns milhões de euros nos seus fundos por parte da PT sem que o comité de investimentos da operadora tivesse analisado a operação (o que levou inclusive à demissão do representante da Caixa, Jorge Tomé, dessa estrutura).
Três comunicados depois do apoio à administração e gestão da PT por parte dos acionistas levaria a pensar que o caso está sanado. Infelizmente, não está. E não está porque a Ongoing já mostrou que tem uma visão instrumental dos negócios: utiliza uns para alavancar outros. E retalia, insinua, intriga, quando alguém não cede.
Por isso, a PT vai ter obrigatoriamente de analisar o seu modelo de governação e estabelecer regras claras para quem viola atas do conselho de administração, ou assuntos debatidos nessa mesma estrutura, ou planta notícias falsas. Nesse quadro, é incontornável que tenha de ser debatido se Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing, tem perfil para se manter como presidente do comité de governação da PT - e se estes problemas se levantariam se a Económico TV integrasse o canal Meo ou outros negócios favoráveis à Ongoing e dependentes do 'sim' da PT tivessem ido em frente.
Uma coisa é reconhecidamente inequívoca: a PT conta com um grande chairman e com o melhor CEO europeu das empresas de telecomunicações, como os seus pares reconhecem. Infelizmente, também é seguro que não conta com os melhores acionistas.
O ultimato de passos
Pedro Passos Coelho fez um ultimato ao Governo: ou este deixa cair o corte nas deduções fiscais com educação e saúde ou então o PSD não aprovará o Orçamento do Estado (OE) para 2011 - e o Presidente da República deverá atuar antes de 9 de setembro, data-limite para dissolver o Parlamento e convocar eleições. De uma penada, Passos dá três tacadas. A primeira, é na sua antecessora, Manuela Ferreira Leite, que viabilizou o Programa de Estabilidade e Crescimento, onde tais deduções estavam contempladas. A segunda, é em Cavaco Silva, porque lhe passa para as mãos um enorme abacaxi para descascar. E a terceira, é em José Sócrates, minando a confiança para quaisquer entendimentos atuais ou futuros, confiança que já tinha sido abalada com a negociação falhada para a introdução de portagens nas SCUT. O problema para Passos Coelho é que o país não lhe perdoará se não viabilizar o OE-2011 na atual situação. E se subiu nas sondagens quando viabilizou o OE-2010, descerá certamente se agora fizer o contrário. Além de mais, o país não suporta viver até novembro do próximo ano sem Orçamento aprovado. É muito difícil perceber isto? Bastante menos do que prever que PS e PSD vão mesmo entender-se sobre esta matéria.
O outro Duarte Lima
Por estes dias, haverá muitos juízos de valor sobre Duarte Lima, advogado de Rosalina Ribeiro, portuguesa assassinada no Rio de Janeiro após um encontro com o ex-líder parlamentar do PSD e que durante 32 anos foi secretária e amante do milionário Lúcio Féteira. A imagem de Duarte Lima concita inimizades e ódios. Mas há outra sua faceta que convém recordar. Tem que ver com o notável trabalho que desenvolveu em favor da Associação Portuguesa Contra a Leucemia, após ter sido atingido pela doença. Em 2002, o registo português de dadores de medula óssea por milhão de habitantes estava na última posição europeia. Em 2009 era o segundo. A média de dadores passou de 120 para 15.642. O registo português teve o maior crescimento do mundo e já contribuiu para salvar várias vidas. E Duarte Lima foi o grande dinamizador deste movimento. Para que conste.
Estudar é fundamental
Há 56.400 licenciados em Portugal que se encontram desempregados. Isto justifica que haja quem diga que tirar um curso superior não serve para nada. Quem o diz, obviamente, é porque não tirou um curso superior. Ou porque não quis ou porque não conseguiu. Porque quem não pode tirar um curso superior por falta de recursos não diz o mesmo. Na verdade, quem tirou um curso universitário tem muito maior probabilidade de escapar à onda de desemprego que tem varrido o país. Além disso, uma pessoa que tem curso superior ganha no mínimo o dobro (€1.336) de quem só tem a formação básica. E, finalmente, se há 56.400 licenciados desempregados, existem 1.059.600 licenciados que têm emprego.
O verdadeiro problema de Portugal é precisamente este: é que menos de um quinto da sua população ativa dispõe de formação superior. E isto reflete-se negativamente a todos os níveis: somos menos empreendedores, sabemos fazer menos e o que fazemos não sabemos fazer tão bem como outros. E apesar dos críticos da aposta na educação, não se conhece nenhuma outra maneira de quebrar o ciclo de miséria em que muitas famílias estão mergulhadas sem aumentar a formação escolar e profissional das jovens gerações. Estudar é a aposta certa num futuro melhor.
Apostar na Reconversão de veículos
Já aqui se escreveu sobre a extraordinária oportunidade que se abre a Portugal em matéria de reconversão de veículos convencionais para veículos elétricos (VE). Seria importante, contudo, que empresas com grandes frotas de transporte fizessem a experiência e dessem o exemplo. É o que está a acontecer nos Estados Unidos, com o US Postal Service e a FedEx, e no Japão, onde os correios nipónicos apostam, através de utilizadores institucionais, em desenvolver a indústria dos VE de conversão, tendo adquirido 1030 viaturas nestas condições. Em Portugal, não é assim. EDP, Carris, CTT e câmaras municipais ignoram esta revolução, continuando a apostar na compra de veículos novos importados. Por isso, pergunta-se: a confirmar-se a compra de 2,655 viaturas para o Estado, não haveria lugar a um concurso para reabilitação através da conversão de uma mínima parcela do parque a ser substituído? Todos ganhávamos: o país importava menos, nascia uma nova indústria nacional e seriam criados novos empregos.
As mãos de alguém ao sol
O sal do sul ao sol
O sol em mãos de sul
E mãos de sal ao sol
O sal do sul em mãos de sol
E mãos de sul ao sol
Um sol de sal ao sul
O sol ao sul
O sal ao sol
O sal o sol
E mãos de sul
sem sol nem sal
P'ra quando enfim amor
Um sul ao sol
Uma mão cheia de sal?
O sol o sal o sul
O sol o sal o sul...
Ruy Duarte de Carvalho, O Sul
nsantos@expresso.impresa.pt
Texto publicado no caderno de economia na edição do Expresso de 21 de Agosto de 2010


