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A física do Mundial: da vuvuzela à Jabulani

É comprida. É colorida. É barulhenta. E é capaz de provocar um ataque de nervos ao fã mais pacífico deste Mundial de Futebol.

Gonçalo Figueira
23:11 Quarta feira, 16 de junho de 2010
Física - A física do Mundial: da vuvuzela à Jabulani
Martin Meissner/AP

É o "instrumento musical" do Verão: a vuvuzela, espécie de corneta comprida, em forma de cone, originária da África do Sul. A sua presença tem sido (literalmente!) constante em todos os jogos, dentro e fora do estádio. Fãs de ambas as equipas apitam interminavelmente durante os noventa minutos, produzindo um zumbido de fundo permanente - supostamente para transmitir o apoio à equipa, se por apoio se entender um som parecido a uma manada de elefantes enfurecidos!

Uma simples vuvuzela de plástico é capaz de produzir sons com uma amplitude superior a 120 decibéis - comparável com um concerto ao vivo de rock pesado, e próximo do limite suportável pelo ouvido humano. Seria motivo suficiente para que a sua presença fosse proibida nos estádios, mas a FIFA tem entendido o contrário. Aparte a polémica, qual o segredo que faz com que um instrumento tão simples consiga atingir tamanho nível de ruído?

Como sucede com os instrumentos de sopro, tudo começa com a boca. Ao soprar com força numa vuvuzela, os lábios do tocador são postos a vibrar cerca de 235 vezes por segundo (isto é, a uma frequência de 235 Hertz), considerando um tubo de cerca de 70 cm de comprimento. Isto faz com que o ar saia em rajadas, que viajam pelo interior do tubo até atingirem a extremidade cónica. É aqui que o som é gerado, graças à ressonância com o ar que é posto em movimento.

Esta descrição também se aplica genericamente ao mecanismo que permitia a Charlie Parker tocar saxofone, mas não é preciso ser especialista em música para perceber que há uma diferença de qualidade entre os sons produzidos... De facto, o timbre característico de uma vuvuzela é provocado pela forma - semelhante a um sino alongado - da extremidade cónica. Esta faz com que o som original, a 235 Hz, dê origem a harmónicas , ou múltiplos da frequência: 470 Hz, 705 Hz, 940 Hz, etc. O efeito é semelhante a tocar uma guitarra eléctrica com distorção: um som "limpo" torna-se "barulhento". A presença das harmónicas é bastante notória numa vuvuzela, e a sua sobreposição faz com que tenhamos uma impressão de maior volume de som, uma vez que o ouvido humano atinge o máximo de sensibilidade na zona dos 3-4 kHz.

Além disso, o facto da vuvuzela produzir um som monocórdico, e do efeito ser amplificado por centenas ou milhares de tocadores em simultâneo, torna-a insuportável ao fim de alguns minutos de um ponto de vista psico-fisiológico. O que fará então à capacidade de concentração e de comunicação dos jogadores e treinadores em campo, bombardeados de vuvuzelas por todos os lados?

Se a maioria dos futebolistas é unânime a condenar a vuvuzela, as opiniões dividem-se quanto a outra protagonista deste Mundial, e que tem um papel muito mais importante: a bola Jabulani . Desenvolvido na Universidade de Loughborough (Reino Unido) para a marca Adidas, o novo esférico é o resultado de vários anos de aprimoramento tecnológico. A sua estrutura consiste em oito blocos tridimensionais unidos termicamente , sem juntas visíveis, o que a torna a bola de futebol mais próxima de uma esfera perfeita. A superfície está completamente coberta por vários padrões circulares de micro-saliências, que a Adidas baptizou de Grip'n'Groove, com o objectivo de a tornar mais estável aerodinamicamente. E, de facto, parece que é precisamente isso que faz, mantendo-se no ar durante mais tempo.

Mas a recepção dos jogadores - marcadores e guarda-redes - tem sido mista. De facto, o comportamento da Jabulani pode ser bastante diferente dos modelos anteriores, o que complica a vida tanto a quem quer planear o ângulo e a força para marcar um livre, como para quem tenta prever a sua trajectória para a conseguir agarrar. As críticas vão desde suaves, como a de Lionel Messi ("A bola é muito complicada") até às devastadoras, como a de Robinho ("De certeza que quem inventou esta bola nunca jogou futebol").

As notícias são particularmente más para aqueles jogadores a quem estamos habituados a ver marcar golos "impossíveis", como Cristiano Ronaldo. Segundo o físico Ken Bray, autor do livro "How to score: science and the beautiful game", se Ronaldo marcar os livres da mesma forma que faz com as bolas tradicionais, não vai conseguir o mesmo efeito , dado que a Jabulani atenua o efeito de imprevisibilidade na trajectória que o craque português gosta de utilizar.

Mas não há que perder a esperança. Quem sabe, a conjugação dos dois fenómenos pode produzir resultados positivos, e o zunir constante das vuvuzelas seja suficiente para desconcentrar o Ronaldo a tal ponto que acabe por, sem querer, acertar com a baliza...

Palavras-chave  Blogues, Ciência
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