Este tipo de coisas só acontece na Europa à deriva, não por razões económicas, mas devido à inépcia convulsiva da sua política: estamos a falar do escândalo de um Tribunal Constitucional alemão determinar hoje a vida de todos os cidadãos da União, enquanto o Tribunal Constitucional português não tem qualquer peso. Referimo-nos a Jens Weidmann, o presidente do banco central alemão, que acusa Mario Draghi de exorbitar as suas funções - salvar o euro, com os meios à sua disposição - e declara descaradamente guerra a uma moeda a que chamamos única, precisamente porque não pertence apenas a Berlim.
Na verdade, o mandato do BCE é claro, embora Jens Weidmann conteste a sua constitucionalidade: manter a estabilidade dos preços (artigo 127º do Tratado de Lisboa), mas respeitando o artigo 3º, que determina o desenvolvimento sustentável da União, o pleno emprego, o melhoramento da qualidade do meio ambiente, a luta contra a exclusão social, a justiça e proteção sociais, a coesão económica, social e territorial e a solidariedade entre os Estados-membros. Algo não está a funcionar bem no percurso atual da União Europeia, em que o artigo 3º nem sequer aparece no site de Internet do BCE, talvez por temor que Berlim fique ressentida.
Mitko Dimitrov Iliev pediu o seu primeiro passaporte aos 50 anos. É um homem pequeno com dentes tortos e um ar tímido. A sua casa em Ivanski, uma aldeia no nordeste da Bulgária, está em mau estado, mas é espaçosa. A estante alberga pouco mais do que um acordeão. Utilizou-o no ano passado para tentar ganhar algum dinheiro, tocando na cidade holandesa de Groningen.
Foi aí abordado por um grupo de turcos, quando tocava na rua. Ofereceram-se para o ajudar a inscrever-se junto das autoridades municipais. "Um dos turcos fazia a tradução, por isso não percebia nada do que diziam entre eles." O turco em questão prometeu-lhe um novo telemóvel e disse: "Vamos lá dar início a um negócio." Fez Mitko, que é analfabeto, assinar uma resma de documentos. Mitko afasta o polegar do indicador uns 15 centímetros. Era a espessura da resma.
Com o crescimento de -0,2% em média no primeiro trimestre (contra -0,1% na União dos 27) e perspetivas nada melhores para a totalidade do ano (-0,7%), segundo o Eurostat, a tão temível "dupla recessão" tornou-se realidade. Um resultado que a imprensa atribui em grande parte às políticas de austeridade.
"A zona euro bate um novo recorde de duração da receção", resume o "Financial Times" na primeira página. O diário económico salienta que "este último recorde de decréscimo vem na sequência de um desemprego efetivo que atingiu 12,1% no conjunto dos países, o mais alto nível de sempre". Assim, estes dados "podem aumentar a pressão sobre o Banco Central Europeu para intervir de novo, depois de ter cortado as taxas de juro este mês e de ter revisto em baixa as suas previsões económicas, que anunciavam uma recuperação no final do ano".
A união bancária é, atualmente, um teste sobre o futuro da zona euro. Se avançar, é um sinal positivo; caso contrário, não será uma boa notícia. Mas a questão é que, apesar de a Europa ser certamente a solução, as coisas são mais complicadas porque as posições nacionais e institucionais divergem.
A questão fundamental é como se vai fazer frente à elevada dívida bancária, talvez desconhecida no futuro. A Alemanha coloca uma questão básica: quem se encarrega do balanço de um banco quando ele vai à falência (como o Bankia) e, por sua vez, quem deve garantir os depósitos de uma entidade com problemas.
Os jornalistas Ralf Georg Reuth e Günther Lachmann publicaram esta semana, na Alemanha, "Das erste Leben der Angela M." ("A primeira vida de Angela M.") (edições Piper), que revela novos elementos sobre as ligações da chanceler com a ditadura da antiga RDA. Refutando as afirmações de Angela Merkel, que declara que sempre desaprovou pessoalmente o regime do Partido Socialista Unificado (SED) na Alemanha de Leste, os autores pensam poder demonstrar que o seu papel na RDA e aquando da queda do regime foi mais complexo e menos lisonjeiro para a chanceler.
Segundo esta, Angela Merkel ter-se-á esquivado à doutrinação ideológica e terá sempre sonhado com uma democracia que unificasse a Alemanha, tendo ultrapassado os anos do comunismo graças a uma espécie de exílio interior. Esta lenda baseia-se sobretudo na ideia de que o seu meio familiar protestante - Angela Merkel é filha de um sacerdote - a terá poupado às tentações e às ilusões da doutrina do Estado socialista. No entanto, um exame mais aprofundado do contexto põe a claro uma imagem bem diferente do envolvimento de alguns teólogos protestantes, entre os quais o seu pai, no regime da Alemanha de Leste.
É impossível acusar Vladimir Linderman de falta de ideias ou de entusiasmo. É ele quem, há pouco, incendiou os ânimos com a sua ideia de referendo para a legalização da língua russa como segunda língua oficial da Letónia. O fracasso do referendo não surpreendeu ninguém. No centro das suas atuais preocupações encontram-se agora aqueles a quem se chama não cidadãos.
É de sua vontade que estes "aliens", maioritariamente pessoas de nacionalidade russa, sem cidadania letã, ou qualquer outra, pudessem obter automaticamente um passaporte letão. [A Letónia distingue cidadania e nacionalidade. A cidadania marca a pertença a um país e a nacionalidade é determinada segundo critérios étnicos].
No "Parlamentarium", o imponente centro de visitas do Parlamento Europeu em Bruxelas, estão expostos mensagens de vídeo e objetos entregues pelos principais deputados europeus. O presidente do Parlamento, Martin Schulz, escolheu um fragmento de alvenaria: um pedaço de um muro baixo que, em tempos, separava a Alemanha da Holanda. "O muro já não existe, graças à UE", declara Schulz. A União Europeia não pode reivindicar, como a NATO, ter deitado abaixo o Muro de Berlim, mas pode vangloriar-se de ter removido barreiras internas dentro da UE.
Para Schulz, os europeus são apropriadamente ciosos das suas identidades próprias, mas, para as preservarem devem estar mais unidos. E o local para debater o seu futuro é o Parlamento. Foi o líder do Partido da Independência do Reino Unido, Nigel Farage, quem abalou essa ilusão: "este é o único Parlamento do mundo que não pode lançar processos legislativos próprios", afirma na sua mensagem de vídeo. O Parlamento era a "menos importante" das três grandes instituições da UE. Numa cidade com muitos presidentes, chefiar o Parlamento conta menos do que chefiar a Comissão Europeia (a função pública da UE) ou o Conselho Europeu (que representa 27 governos).
Consideremos dois europeus do presente, mesmo que vivam em países distantes. Por exemplo um finlandês e um francês: existem fortes possibilidades de os dois terem muitos antepassados comuns, que viveram há cerca de um milénio. É isto que demonstra uma análise dos genes de 2257 pessoas oriundas de 40 populações de todo o continente: albaneses, ingleses, belgas, dinamarqueses, espanhóis, italianos, macedónios, russos, turcos, etc.
O estudo, que acaba de ser publicado pela [revista científica] "Plos Biology", foi realizado por dois geneticistas das populações, Peter Ralph e Graham Coop (Universidade da Califórnia em Davis). Este estudo mostra que, à escala dos últimos 3000 anos, existe um grau de parentesco elevado entre as populações das diferentes nações europeias, apesar de estas serem construções recentes que reuniram grupos humanos distintos.
A estupidez política é muitas vezes a fachada de uma complexidade profundamente enraizada; nomeadamente quando se trata de uma coligação. Esta semana, é provável que seja apresentada uma alteração para protestar contra o facto de o discurso proferido pela Rainha não ter feito qualquer referência ao referendo, dando assim origem a uma situação inédita.
Os deputados conservadores vão poder votar sobre a moção apresentada por dois dos seus membros, John Baron e Peter Bone, enquanto os membros do Governo deverão simplesmente abster-se. No entanto, alguns ministros liberais democratas tencionam complicar a situação ao votar contra, expressando assim as suas convicções pró-europeias. Continue a ler o artigo do Sunday Telegraph em Presseurop.eu.
"A Europa tem um défice democrático"
Não, mas tem um problema de legitimidade. Há anos que os céticos afirmam que a Europa tem um "défice democrático" porque a Comissão Europeia, que governa a UE, não está sujeita a qualquer eleição ou porque o Parlamento Europeu tem poucos poderes. Mas os membros da Comissão Europeia são diretamente nomeados pelos Governos nacionais eleitos e os membros do Parlamento Europeu são diretamente eleitos pelos eleitores. Em geral, as decisões europeias são tomadas pelos Governos nacionais eleitos democraticamente em conjunto com o Parlamento Europeu. Em comparação com outros Estados ou até mesmo uma democracia ideal, a UE tem mais contrapoder e requer uma grande maioria para que uma legislação seja adotada. A União Europeia é claramente democrática.
No entanto, a zona euro tem um maior problema de legitimidade fundamental devido à forma como foi elaborada. Apesar das decisões serem tomadas por líderes eleitos democraticamente, a UE é um projeto fundamentalmente tecnocrático baseado no "método Monnet", idealizado pelo diplomata francês Jean Monnet, um dos pais fundadores de uma Europa integrada. Esta estratégia progressiva - primeiro, uma Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, depois um mercado único e, por fim, uma moeda única - retirou ainda mais áreas da esfera política. Mas quanto maior era sucesso do projeto, mais os poderes dos Governos nacionais ficavam restringidos e mais a revolta dos populistas crescia. Leia mais em Presseurop.eu.