24 de maio de 2013 às 17:23
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A Europa anda a brincar com o fogo

João Silvestre (www.expresso.pt)

Uma corrida aos bancos é uma espécie de dia do juízo final no sistema financeiro. É grave não apenas para a saúde financeira dos bancos, que podem simplesmente colapsar se não tiverem ajuda, mas também para a ordem pública. Um país sem dinheiro entra em parafuso. Em muitos casos, a solução passa por fechar os bancos - ao estilo do corralito argentino - o que enfurece ainda mais a população.

As pessoas correm a levantar o dinheiro porque acham que o banco vai falir ou, no caso da zona euro, porque temem que, de um momento para o outro, os seus depósitos sejam transformados novamente na moeda nacional (dracma no caso grego). É racional? Sim, infelizmente, é perfeitamente racional agir assim se se acreditar mesmo naquele desfecho. É fácil de compreender e antecipar.  

Seja o rastilho da corrida aos bancos justificado ou não, a verdade é que isso interessa pouco. É como as guerras, sabe-se como começam mas não se sabe como acabam. Uma corrida destas pode, no final, ser uma espécie de profecia auto-alimentada que destrói bancos que, à partida, não tinham problemas.  

É melhor que as autoridades europeias se preparem porque é o que pode acontecer se a Grécia sair mesmo do euro: uma fuga de capitais brusca das economias periféricas para o centro da zona euro (Alemanha, principalmente) ou até para o exterior.  Se não houver intervenção, nomeadamente do BCE que tem os instrumentos, o caso torna-se mesmo muito sério. E não vale a pena falar em saída ordenada que ordem é coisa que normalmente não abunda nestes momentos.  

A mera hipótese de saída da Grécia, mal desmentida pelos responsáveis políticos europeus e até pela diretora do FMI, estão já a dar um cheirinho do que pode acontecer. Na Grécia, há noticias a dar conta da fuga de depósitos na ordem de quase mil milhões de euros por dia  e, em Espanha, foram reportadas saídas volumosas do Bankia, o banco resgatado pelo Estado espanhol, entretanto desmentidas.

A diferença entre verdade e mentira pode ser apenas uma questão de gestão de expetativas para evitar males maiores. Uma corrida aos bancos pode ser vista através de uma analogia com um incêndio. Imagine-se um restaurante à pinha, com uma única porta de saída minúscula, onde, por acaso, aparecem umas labaredas na cozinha. O caso não é grave mas, para quem olha da sala, parece um incêndio incontrolável. As pessoas assustam-se e, em pânico, correm para a porta.

O fogo é rapidamente apagado com um extintor mas já ninguém quer saber. Estão todos a atropelar-se para sair. Há feridos e mortos na confusão e, afinal, o problema na cozinha não era assim tão grave. Uma corrida aos bancos é mais ou menos o mesmo: no final, o que conta não são os estragos provocados pelo rastilho mas as consequências da corrida em si mesma.  Por isso, o importante, em primeiro lugar, é evitar a corrida mas, caso seja impossível, é indispensável ter mecanismos preparados para lidar com ela.

O exemplo do restaurante serve bem para ilustrar o que pode acontecer com a saída da Grécia do euro. Independentemente dos efeitos diretos da sua saída, há o impacto psicológico que, num primeiro momento, pode ser devastador. Em particular para os bancos dos outros países que estão na lista dos potenciais seguidores da Grécia. Portugal e Irlanda, que já estão sob resgate, e logo depois Espanha e Itália.

Neste momento, verificam-se apenas fugas de depósitos na Grécia e na Irlanda. Os bancos gregos perderam cerca de um terço dos depósitos desde 2010. Portugal, Itália e Espanha, para já, não têm os mesmos problemas. Só que em situações de pânico as coisas mudam muito depressa. No restaurante, também havia quem, num primeiro momento, tivesse ficado sentado a comer calmamente confiante que o fogo seria controlado. Mas, depois, como o fumo continuou e a porta estava bloqueada por uma multidão, ficaram também em pânico e acabaram a empurrar.

É por isso que existem saídas de emergência em espaços públicos, bem sinalizadas e com abertura fácil do lado de dentro. Para dar segurança às pessoas e para as ajudar a sair facilmente se necessário. A Europa anda a brincar com o fogo com a Grécia. Se assim é, o melhor é também ter saídas de emergência devidamente sinalizadas. Quais são? Por exemplo, ter o BCE alerta, para dar a liquidez que for necessária aos bancos e agir como credor de último recurso, e ter também os fundos de resgate europeus a postos para qualquer eventualidade.  

A União Europeia até pode não querer continuar a emprestar dinheiro à Grécia se Atenas não cumprir o programa. Mas deve preparar-se para as consequências. O restaurante está cheio e, à primeira vista, a porta de saída parece demasiado pequena.

P.S.: Vale a pena ler o artigo pioneiro na literatura económica sobre corridas aos bancos que tem sido citado na imprensa (por exemplo, Wolfgang Münchau no Financial Times de segunda-feira  ou Gavyn Davies no seu blog  também no jornal britânico). Foi escrito em 1983 por Douglas Diamond e Philip Dybvig e mostra, entre outras coisas, como um sistema de garantia de depósitos (ou um banco central credor de último recurso) pode ser importante nestas situações.   
Comentários 8 Comentar
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Nem Dante teria imaginado um
inferno como o concebido pelo articulista. Rio Grande
Excelente Artigo
Só não percebe quem não quer ver.

oreivaivestido.blogspot.pt
'A Europa anda a brincar com o fogo
Faltou neste artigo, aquilo que me parece a sua conclusão óbvia e pergunto-me se não era a sua intenção final: que o sistema bancário Europeu devia ser supervisionado e garantido por uma entidade Europeia supra-nacional. De momento isto acontece com intermediação dos bancos centrais nacionais e as garantias são dadas pelos próprios governos. Mas isso torna os bancos apenas tão fortes como estes.

Os trabalhadores
Os trabalhadores no sistema capitalista pouco ou nada perdem com a bancarrota!
Quem vive exclusivamente do salário está sempre no sistema de carteira rota...e os que estão desempregados e na exclusão social, estão permanentemente em colapso financeiro!
Quanto mais depressa este sistema, onde a larga maioria dos que trabalham pouco têm para além do sofrimento e do horizonte da miséria e aqueles que são detentores do capital a vivem em permanente fausto, estoirar, melhor será para aqueles que só têm a capacidade para trabalhar
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Depende de várias circunstâncias
Depende de várias circunstâncias, mas fundamentalmente do nível de consciência social de todos os que vivem exclusivamente dum salário.
Não basta expropriar os capitalistas para acabar com o sistema capitalista, é preciso algo mais.
A transformação economica e social é uma acção dirigida pela consciencia dos seres humanos, consciência essa que também é produto da sociedade.
A actual situação a nível mundial não é ainda o fim do sistema capitalista, mas é uma fase importante para elevar na cabeça de milhões de seres humanos a compreensão da necessidade de algo diferente para a humanidade.
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