A Europa anda a brincar com o fogo
Uma corrida aos bancos é uma espécie de dia do juízo final no sistema financeiro. É grave não apenas para a saúde financeira dos bancos, que podem simplesmente colapsar se não tiverem ajuda, mas também para a ordem pública. Um país sem dinheiro entra em parafuso. Em muitos casos, a solução passa por fechar os bancos - ao estilo do corralito argentino - o que enfurece ainda mais a população.
As pessoas correm a levantar o dinheiro porque acham que o banco vai falir ou, no caso da zona euro, porque temem que, de um momento para o outro, os seus depósitos sejam transformados novamente na moeda nacional (dracma no caso grego). É racional? Sim, infelizmente, é perfeitamente racional agir assim se se acreditar mesmo naquele desfecho. É fácil de compreender e antecipar.
Seja o rastilho da corrida aos bancos justificado ou não, a verdade é que isso interessa pouco. É como as guerras, sabe-se como começam mas não se sabe como acabam. Uma corrida destas pode, no final, ser uma espécie de profecia auto-alimentada que destrói bancos que, à partida, não tinham problemas.
É melhor que as autoridades europeias se preparem porque é o que pode acontecer se a Grécia sair mesmo do euro: uma fuga de capitais brusca das economias periféricas para o centro da zona euro (Alemanha, principalmente) ou até para o exterior. Se não houver intervenção, nomeadamente do BCE que tem os instrumentos, o caso torna-se mesmo muito sério. E não vale a pena falar em saída ordenada que ordem é coisa que normalmente não abunda nestes momentos.
A mera hipótese de saída da Grécia, mal desmentida pelos responsáveis políticos europeus e até pela diretora do FMI, estão já a dar um cheirinho do que pode acontecer. Na Grécia, há noticias a dar conta da fuga de depósitos na ordem de quase mil milhões de euros por dia e, em Espanha, foram reportadas saídas volumosas do Bankia, o banco resgatado pelo Estado espanhol, entretanto desmentidas.
A diferença entre verdade e mentira pode ser apenas uma questão de gestão de expetativas para evitar males maiores. Uma corrida aos bancos pode ser vista através de uma analogia com um incêndio. Imagine-se um restaurante à pinha, com uma única porta de saída minúscula, onde, por acaso, aparecem umas labaredas na cozinha. O caso não é grave mas, para quem olha da sala, parece um incêndio incontrolável. As pessoas assustam-se e, em pânico, correm para a porta.
O fogo é rapidamente apagado com um extintor mas já ninguém quer saber. Estão todos a atropelar-se para sair. Há feridos e mortos na confusão e, afinal, o problema na cozinha não era assim tão grave. Uma corrida aos bancos é mais ou menos o mesmo: no final, o que conta não são os estragos provocados pelo rastilho mas as consequências da corrida em si mesma. Por isso, o importante, em primeiro lugar, é evitar a corrida mas, caso seja impossível, é indispensável ter mecanismos preparados para lidar com ela.
O exemplo do restaurante serve bem para ilustrar o que pode acontecer com a saída da Grécia do euro. Independentemente dos efeitos diretos da sua saída, há o impacto psicológico que, num primeiro momento, pode ser devastador. Em particular para os bancos dos outros países que estão na lista dos potenciais seguidores da Grécia. Portugal e Irlanda, que já estão sob resgate, e logo depois Espanha e Itália.
Neste momento, verificam-se apenas fugas de depósitos na Grécia e na Irlanda. Os bancos gregos perderam cerca de um terço dos depósitos desde 2010. Portugal, Itália e Espanha, para já, não têm os mesmos problemas. Só que em situações de pânico as coisas mudam muito depressa. No restaurante, também havia quem, num primeiro momento, tivesse ficado sentado a comer calmamente confiante que o fogo seria controlado. Mas, depois, como o fumo continuou e a porta estava bloqueada por uma multidão, ficaram também em pânico e acabaram a empurrar.
É por isso que existem saídas de emergência em espaços públicos, bem sinalizadas e com abertura fácil do lado de dentro. Para dar segurança às pessoas e para as ajudar a sair facilmente se necessário. A Europa anda a brincar com o fogo com a Grécia. Se assim é, o melhor é também ter saídas de emergência devidamente sinalizadas. Quais são? Por exemplo, ter o BCE alerta, para dar a liquidez que for necessária aos bancos e agir como credor de último recurso, e ter também os fundos de resgate europeus a postos para qualquer eventualidade.
A União Europeia até pode não querer continuar a emprestar dinheiro à Grécia se Atenas não cumprir o programa. Mas deve preparar-se para as consequências. O restaurante está cheio e, à primeira vista, a porta de saída parece demasiado pequena.
P.S.: Vale a pena ler o artigo pioneiro na literatura económica sobre corridas aos bancos que tem sido citado na imprensa (por exemplo, Wolfgang Münchau no Financial Times de segunda-feira ou Gavyn Davies no seu blog também no jornal britânico). Foi escrito em 1983 por Douglas Diamond e Philip Dybvig e mostra, entre outras coisas, como um sistema de garantia de depósitos (ou um banco central credor de último recurso) pode ser importante nestas situações.



