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A curva da felicidade

Preparem-se, jovens angustiados: dos 50 anos para cima, a curva sobe.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 12 de janeiro de 2011

Irresistível, o tema de capa da última edição de 2010 da "The Economist": anunciava "a alegria do envelhecimento (ou porque é que a vida começa aos 46 anos)". A primeira coisa que os espíritos cépticos (como tendemos a ser todos com medo de parecermos burros) pensarão é que o desespero financeiro já chegou a este bastião do jornalismo, que terá entrado pelo terreno dos títulos atiçadores e falsos, disparando ao coração da média dos seus leitores. Ainda assim, deixei-me balear - no bombardeamento de juventude mediática em vigor, agradeço qualquer fogo amigo em prol da meia-idade. Nas duas últimas décadas cresceram as sondagens e os estudos que procuram medir o grau de felicidade. Inicialmente centrados sobretudo em variantes económicas, dedicam-se agora a esmiuçar factores biológicos (como a idade) psicológicos e ambientais. Concluiu-se que a riqueza e a segurança, por si só, não apresentam relação directa com os níveis de felicidade (a não ser em países miseravelmente pobres e sujeitos a guerras). A geografia da felicidade diz-nos, e cito, que "os europeus ocidentais e os norte-americanos se aproximam muito, embora existam algumas anomalias, como os surpreendentemente tristonhos portugueses (the surprinsingly gloomy portuguese)." Surpreendente, a tristeza portuguesa? Woody Allen, quando cá esteve, também achou que sim. Desafio da semana: elencar as razões da tristeza nacional - largando o cotão do nosso umbigo e comparando o país com o resto do mundo, por favor. Pode ser um exercício interessante de início de década.

As respostas à pergunta: "Pensando na sua vida como um todo, como se sente?", são diferentes das que se obtêm quando se especifica "ontem, sentiu-se feliz/ satisfeito/triste/ansioso?" A primeira questão mede o bem-estar global; a segunda, o quotidiano emocional. Verifica-se, por exemplo, que ter filhos dá uma sensação de bem-estar geral, mas também aumenta as hipóteses de que as pessoas se tenham sentido ontem descontentes ou ansiosas. Os filhos são, aliás, uma das razões que explicam que as pessoas comecem a ser mais felizes a partir dos 45 ou 50 anos: está cientificamente provado que o convívio diário com adolescentes (que tende a escassear a partir dessa idade) não contribui para a alegria de viver. Outro factor de felicidade é, segundo os estudos, o casamento - e os segundos ou terceiros casamentos tendem a satisfazer mais do que os primeiros. Interessante é também a relação entre o género e a felicidade: as mulheres confessam-se, de um modo geral, mais felizes do que os homens - mas também se mostram mais vulneráveis à depressão. Menos surpreendente será descobrirmos que os extrovertidos são mais felizes do que os introvertidos, e que as personalidades neuróticas, dotadas de baixos níveis de inteligência emocional (as duas coisas são indissociáveis o que estoira com a ideia feita segundo a qual a personalidade neurótica resulta de um alto grau de inteligência), manifestem um particular talento para a infelicidade.

A boa notícia é que a felicidade desenha uma curva em U: alguns economistas já o tinham descoberto nos anos 90, e a confirmação torna-se agora consistente, cruzando variados trabalhos de investigação. A curva começa a descer aos 18 anos e atinge o seu ponto mais baixo entre os 45 e os 50 anos: aparentemente, dir-se-ia que é o auge das preocupações com a família, a carreira, as finanças. Mas controlando estas variáveis, a curva em U mantém-se - o que significa que o sentimento de infelicidade da meia-idade resulta de mudanças internas e não de circunstâncias exteriores. Os mais velhos discutem menos e encontram melhores soluções para os conflitos. Aceitam melhor as contrariedades, estão mais atentos aos seus sentimentos e esforçam-se por ser felizes no presente, ignorando o médio e o longo prazo - a proximidade da morte tem, afinal, os seus encantos. Por outro lado, a felicidade tem efeitos comprovados na saúde e na produtividade ( ah, os portugueses tristonhos, pois é...). Assim, conclui a "The Economist", é urgente revermos a ideia de que o envelhecimento é um fardo para os países ricos. Os mais velhos são mesmo, como a cultura tribal defendia, os mais sábios. São também, descobrimo-lo agora, os mais activamente habilitados para a felicidade. Sempre gostei do brilho das rugas. O ouro do tempo sobre o azul dos dias é afinal uma evidência estatística. Resta-nos esperar.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 8 de janeiro de 2011

 
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