17/05/2012 atualizado às 0:31
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A Contra-Voz

Mário Cláudio (www.expresso.pt)
17:16 Sexta feira, 6 de janeiro de 2012

Uma amiga, romancista da geração a que pertenço, telefona-me com votos de um ano novo feliz, e por entre as correntes lamúrias aconselha-me, "O importante será não ouvir demais o Medina Carreira." Faço-lhe ver que talvez não adiante tapar os ouvidos, e que até dou comigo frequentemente a concordar com o tom geral da mensagem do acidulado comentador, mas sugiro que o desejável seria que pudesse emergir entretanto a acalentadora contra-voz. Fico contudo a pensar, uma vez desligados os telemóveis, de que substância se alimentaria esta ao longo dos doze meses que temos pela frente, e doze meses serão, ou quase, mesmo que venha a cumprir-se a profecia maia.

É claro que nos resta a paisagem, ou a parte dela não devastada ainda pelos fogos sazonais, pela especulação imobiliária, ou pelo mau gosto à solta. E não deixa de nos amparar também a velha, austera e fecunda gastronomia pátria, se entretanto a não assassinarem o bacalhau assado na brasa com suas lâminas de foie-gras de ganso patola e redução de vodka Bolskaya, ou os pésinhos de coentrada em emulsão de fondue de queijo emmental e blinis de arenque. Desilude-me porém essa estranha vocação, representada pela bonomia dos descendentes de Viriato que, quando não se remetem à preguiça, o máximo dos máximos que conseguem oferecer ao mundo é o desfile de Pais Natal mais concorridos que as crónicas registam, ou os maiores chifres de bode de que há memória.

Morta toda aquela exaltação a que nos convidam os grandes visionários da lusa escatologia redentora, reservada à alma que nos habita, e que António Vieira pregava do alto dos púlpitos barrocos, ou Agostinho da Silva dos píncaros da sua cátedra desmontável, eis-nos circunscritos a contar por escassos dedos de uma só mão as doçuras que nos embalam, e as esperanças que nos assistem. Bastará isso ao sustento da contra-voz que se levante em face de Medina Carreira? Eu creio bem que sim porque nos vale o eterno faduncho, muito mais exportável hoje do que nunca, e com direito a uma cidadania que se deseja incapaz de o adulterar. Não nos abandonará por conseguinte a dor, a dor, a dor, dos que tão rapidamente regressaram do mar salgado para além do Bojador.

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