17 de abril de 2014 às 22:20
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A caminho de uma grande depressão

Maria Luísa Vasconcelos, Professora da Universidade Fernando Pessoa

No melhor dos cenários, sem rutura de paradigma, agora sim, estamos a caminho de uma grande depressão. Tudo indica que o referendo grego, caso venha de facto a ser realizado, rejeitará o plano europeu de redução da dívida pública grega para 120% do produto interno bruto lá para 2020. Com efeito, ao que parece, vários planos de austeridade passados, esforçados e castigadores, o povo grego (há quem diga que parte das forças armadas) não está mais disponível para programas que medem o êxito em dívida ao invés de crescimento e emprego e esperança.

Mas estranho mais que os portugueses não entendam o povo grego, do que o povo grego não entenda as responsabilidades (e por isso os sacrifícios) lhe são imputados. Afinal, após décadas de um endividamento irresponsável que interessou a todos, beneficiando de uma desregulação interessada (e interesseira) dos mercados financeiros, coloca-se agora a defesa desses mercados à frente de políticas de crescimento. Há um argumento deveras de peso na defesa desta opção: os mercados financeiros são o suporte de financiamento das atividades produtivas nas economias de mercado; defaults e insolvências encadeadas implodiriam o sistema tal como o conhecemos, com prejuízo severo para as economias e, por isso, para os cidadãos.

Há contudo, um outro argumento que sustenta a revolta das populações. De forma a garantir retornos substanciais e crescentes, os mercados financeiros desenvolveram de tal forma os seus produtos, complexificaram de tal forma os seus derivados, disfarçaram de tal forma os riscos encadeados, que o seu impacto na economia vai bem além do tradicional financiamento das atividades.

Os mercados financeiros têm uma vida própria, bem distante do propósito de alavancar o crescimento dos sistemas económicos. "Investidores" privados, institucionais e públicos progressivamente cederam à tentação de retornos elevados associados a níveis de endividamento que não deveriam ter sido autorizados. Disseram: Pagam "amanhã". E se há risco de poderem vir a não pagar, empresta-se na mesma a um juro cada vez mais e mais elevado.

E chegados à vertigem do incumprimento, ainda assim não pararam de emprestar. Antes passaram o risco a terceiros, através de um mecanismo de seguros, também eles muito caros, e por isso também muito interessantes. Disseram-nos: a responsabilidade é das finanças públicas, do incumprimento do pacto de estabilidade. Como se fossem os défices, mais do que justificáveis em significativas baixas de ciclo (o próprio Pacto o reconhece!), os culpáveis pela irresponsabilidade, pela ganância, ou pela disfunção dos mercados. Como se em Portugal ou na Grécia uma política keynesiana moderada e anticíclica tenha sido, salvo em raros momentos, corretamente utilizada. E com tudo o que nos disseram, e ainda dizem, os mercados regozijaram.

Assim, não encontro diferença substancial entre o subprime e a crise das dívidas soberanas, sobretudo depois dos resultados da última cimeira europeia. Repetem-se os mesmos mecanismos, os mesmos erros: endividamento excessivo suportado por uma espécie de linhas seguradoras, estas últimas garantidas pela base da zona euro, assim transformada em gigante doente e com pés de barro.

Hoje, a opção continua a ser pela defesa dos mercados financeiros, com o argumento vicioso de que sem eles, as economias irão colapsar. Sem uma rutura de paradigma, é verdade que sim.



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Nota
Este texto é da inteira responsabilidade do autor e da entidade representada.

Comentários 11 Comentar
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Está enganada...
COM ELES, as economias vão colapsar!!! Não digo isto por sectarismo ideológico, mas simplesmente pelo facto de que a relação que existe hoje em dia entre o volume monetário real e virtual atingiu o limite!!!

Esta crise não é FINANCEIRA em sentido estrito. É, sim, CONTABILÍSTICA e CONTRATUAL!!!

A questão é que as grandezas são avaliadas pelas reacções, interpretações, etc., e não é possível fazer CONTAS REAIS. E por outro lado, os Estados, os Bancos, as Empresas etc. estão REFÉNS de CONTRATOS que obrigam a pagamentos, e a malha tornou-se tão apertada que está a estrangular a economia.

Era necessário fazer AUDITORIAS a todas as contas e todos os contratos. Porque os detentores de títulos de dívida não os compraram sequer com DINHEIRO REAL, mas sim com "garantias" virtuais.

A única parte REAL do problema são os JUROS. Estamos é perante um ESQUEMA DE EXTORSÃO que foi tão longe, que o "cliente" deixou de ter dinheiro para pagar e só lhe resta fechar a loja...
Muito bem observado! Ver comentário
Não podia estar mais de acordo
Infelizmente, da reunia do G20 não saíu muito melhor do que da cimeira europeia. O receio é tão grande, tão grande pela mudança de paradigma e pela liquidação dos mercados financeiros tal como os conhecemos hoje, que os líderes políticos preferem continuar no caminho do abismo, sabendo que um dia (mais cedo do que muitos pensam) vai mesmo estourar. A situação é insustentável mas ainda ha quem acredite em milagres.
Economia mascarada
Infelizmente, a economia é um assunto frequentemente visto com confusão e tédio. Sequências infinitas de termos financeiros aliada a intimidadores calculos matemáticos, fazem rapidamente as pessoas desistirem de tentarem ententer a economia.
No entanto, o facto é: a complexidade associada ao sistema financeiro é somente uma mascara, criada para ocultar uma das estruturas mais socialmente estagnantes que a humanidade já tolerou.
Á medida que o homem constroi o seu mundo, com a força do seu trabalho alienado, o mundo converte-se na prisão onde terá de viver. Um mundo sem sabor, nem odor e sordido onde domina a miséria do modo de produção dominante.
Um cenário em constante construção.
Nada nele é estavel.
A transformação permanente do espaço que nos envolve, justifica-se pela amnésia generalizada e pela insegurança na qual deve viver a humanidade.
" ninguem é mais escravo do que aquele que falsamente acredita ser livre"
Sempre o alvo ao lado...
Porque e' que se continua a culpar os "mercados desregulados" sem culpabilizar o verdadeiro vilao, o Estado. Ha que reconhecer que o poder politicos esta casado com o poder financeiro e e' ai que esta o problema. Se os mercados financeiros nao tem armas, nem policia, nem tribunais, nem juizes, nem exercito. Os "mercados desregulados" nao podem obrigar ninguem a pedir dinheiro emprestado. Porque ninguem reconhece que os Estados tem de viver dentro dos orcamentos que obtem dos impostos dos cidadaos? Sao os POLITICOS que endividam as populacoes, nao sao os mercados. Querem mais regulacoes? Se se criarem mais regulacoes para os ESTADOS, os mercados ficam limitados tambem. Criem regulacoes para que os ESTADOS tenham ZERO de deficit, limitem o poder dos politicos e responsabilizem-nos criminalmente. Os Estados tornaram-se "toxicodependentes" de dinheiro, cpazes de tudo para obter a sua "fix" e quem e' que as pessoas responsabilizam? Os dealers? Sem a interferencia do poder politico, os "mercados" tem a sua propria regulacao, que e' o risco de emprestar e PERDER. Quando o poder politico "garante" depositos e diz aos "mercados": "Podes emprestar a Grecia que nao ha problema. Se eles nao pagarem, os nossos contribuintes pagarao", e diz que aos "mercados" que eles serao sempre bailed out, estao a destruir a unica regulacao que trava a ganancia do lucro, o risco de falir. E' esta interferencia que tem de acabar.
Re: Sempre o alvo ao lado... Ver comentário
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A Sra. Professora tem uma ideologia...
... e tem direito a tê-la. Mas este Blog era suposto ser de Análise Económica, e não de propaganda política.
Não refere um único facto, número, rácio, tendência que explique ou sustente a sua opinião, que claramente é turvada ideologicamente.
O texto é interessante como artigo de opinião, mas não neste Blog.
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