A bandeira na varanda e o cocó no passeio
Eu adoro os patriotas de cadeirão que emergem durante funerais amalianos, choradeiras timorenses e epopeias futebolísticas. É gente que ama tanto Portugal que não tem tempo para respeitar os vizinhos, esses seres menores que habitam, à força, os sonhos molhados do patriotismo de cadeirão. E, neste campeonato, nunca irei esquecer um casal já entradote que morava no bairro na altura do Euro 2004. Casal Silva, de seu nome. À semelhança de milhões de outras famílias, o casal Silva colocou bandeirinhas de Portugal na varanda durante aquele mês de montanha russa emocional. Bom, eu não tinha nada contra as bandeiras. Só achava um pouco estranha a amplitude térmica entre a varanda e o passeio.
Sim, o casal Silva tinha a varanda num brinco pátrio, mas depois deixava que os seus cães inundassem a rua com cocós XXL. Às tantas, o passeio da rua de cima parecia um mar de caca canina, um literal mar negro. Mais um pouco e o escaravelho da Bulgária encontraria ali um habitat. Como sou o único ser do meu bairro que anda a pé, resolvi interpelar a Srª. Silva. Devia ter estado calado, porque a senhora era surda (a sorte não protege os audazes). Dias mais tarde, questionei o Senhor Silva. Quando percebi que não era surdo, senti um certo alívio e fiquei à espera de uma estarrecedora resposta, assim ao estilo de "não me apoquente, porque estou a contemplar a Pátria ali na minha varanda". Não tive semelhante sorte, pois do outro lado veio apenas um singelo "vá à merda".
Passou uma década, e nada mudou. O casal Silva já não anda por aqui, mas deixou descendência. Lisboa está cheia destes patriotas que se estão literalmente a cagar para os seus compatriotas. Se calhar, este ano tenho de recorrer não a interpelações, mas a singelos pontapés.

