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A banalização de Salazar

O antigo Presidente do Conselho de Ministros continua a ser um valor seguro.

Vasco M. Barreto
16:21 Quarta feira, 30 de dezembro de 2009

Logo quando chegou ao poder, pelo seu autoritarismo natural Sócrates foi comparado a Salazar. A comparação valia pouco. Quatro anos volvidos, Sócrates é comparado a Salazar, já não pelos traços de personalidade, mas pelo que tem feito ou deixou por fazer. Paradoxalmente, esta comparação vale ainda menos do que a anterior. Primeiro foi António Barreto, quando afirmou que tínhamos "melhor justiça durante o regime anterior do que no regime democrático ". Em rigor, Barreto exclui o delito de opinião, o crime político, os tribunais plenários, a PIDE e censura. Ou seja, com uma resssalva particularmente inclusiva, Barreto concentra-se na justiça civil, comercial e criminal. Talvez não se lembrasse que, à época, uns tabefes moderados do homem na mulher não eram "violência" mas antes "correcção" doméstica. Enfim, será um detalhe para o sociólogo. Barreto sabia (basta ouvir o vídeo) que iria ser citado abundantemente e que nesse processo as suas ressalvas seriam esquecidas, introduzindo-se assim ruído na discussão, mas também grande espectacularidade. A comparação com o Estado Novo rende sempre em atenção, mesmo quando é pouco esclarecedora, por confrontar realidades sociais completamente diferentes e por ser tão afectada por estados de alma. O que importa é saber jogar no circo mediático.

Agora foi Pedro Lomba, que não resistiu a estragar um artigo sensato sobre o semipresidencialismo com um parágrafo a fazer-se à citação. Escreve Lomba que, em 2009, em "inúmeros sentidos" Sócrates tem mais poder do que Salazar, em 1960. A afirmação é extraordinária, porque sendo os sentidos "inúmeros", isto é, havendo um leque de opções infinito, Lomba resolve escolher três exemplos e engana-se pelo menos duas vezes. Reparemos. "[Sócrates] não prende, mas tem muitas formas de silenciar". Creio que prender ainda é mais aborrecido do que as "muitas formas de silenciar", a menos que Pedro Lomba pensasse em línguas cortadas e na imposição de um voto de silêncio perpétuo. "Não mata, mas se quiser persegue". Ora, na perspectiva da vítima, ser morto também é mais desagradável do que ser perseguido. Só mesmo à terceira pode não ter errado: "O que tem para distribuir arbitrariamente pelos seus "amigos políticos" são recursos que o paroquial Salazar desconhecia". Talvez isto seja verdade, mas nem sequer aqui arrisco um veredicto (é formalmente possível que o facto de 10 famílias portuguesas possuírem 50% da riqueza nacional em 1970 se tivesse devido a uma lotaria genética que as terá provido de um empreendedorismo muito acima da média).

Obviamente, estas interpretações literais do que diz Barreto e escreve Lomba são uma caricatura minha, pois ambos têm sempre presente o paradoxo que é a persistência em democracia de características que são mais próprias de estados autoritários. Mas se um precisa de uma ressalva que retira o Estado Novo da Justiça no Estado Novo e o outro consegue ser vago e contraditório ao mesmo tempo, estas comparações forçadas com o regime de Salazar não são hoje mais do que vácua retórica. Interessaria muito mais fazer uma comparação dos governos de Sócrates (2005-) com os de Cavaco Silva (1985-1995). Por ambos serem, hoje, os actores principais do grande conflito institucional. Porque se trata de comparar o que é comparável. Porque seria importante saber se a evolução destes dois governos foi semelhante, apesar dos 20 anos de distância, e obedeceu a uma simples lógica de instrumentalização do poder pelo uso continuado ou se há diferenças. E havendo diferenças, quais são? O que as determinou? A conjuntura externa? O reforço/relaxamento de mecanismos de regulação do poder? A perda de maioria absoluta de Sócrates? Não sei se alguém se deu ao trabalho de fazer esta análise, mas não deve faltar documentação e há já algum recuo (pelo menos para trabalhar a primeira maioria de Cavaco Silva e a maioria de Sócrates). No entretanto, Salazar continuará a ser um recurso de primeira necessidade para o cronista elaborar a sua boutade. Afinal, apesar da "diabolização" de Sócrates, não se topa no Bloco Central (Jotas incluídas, claro) uma figura capaz de vir a destronar o maior português de sempre.

Palavras-chave  Blogues, Política, Portugal 2009
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