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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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15:18 Terça feira, 8 de maio de 2012
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O topónimo "Antuérpia", apontando a um norte profundo, plano e brumoso, cessa a partir de hoje de convocar ao meu álbum de associações um pintor de génio, ou um cais movimentado, para trazer a noção da ilegível arbitrariedade dos percursos humanos. Cidade de bicicletas pedaladas na chuva, e de bordéis de luz acesa às quatro da tarde, dir-se-ia um burgo naturalmente pronto a servir de cenário a qualquer enredo, mais ou menos negro, da banda desenhada. E aí poderia encaixar-se também um desses romances históricos, a passar agora de moda, que abordam ao de leve, e em dessorada atmosfera, uma saga de judeus expatriados.
Subi uma única vez a Antuérpia, convidado no habitual seguimento à estadia em Bruxelas, para falar já não sei ao certo de o quê, aos estudantes de Literatura Portuguesa, da universidade local. E por isso efectuaria o ritual da praxe em tais enquadramentos, a refeição no restaurante de categoria modesta, mas capaz de oferecer um vislumbre da hipotética cozinha típica, e a visita à obra-prima de pintura, exibida como um tesouro, no caso o Tríptico dos Sete Sacramentos, de Rogier van der Weyden. De pouco mais me recordo, a não ser do diálogo com o responsável pelo leitorado, um homem que associava às suas queixas de solidão, tão recorrentes nos exilados em circunstâncias idênticas, umas quantas, e aterradoras, mágoas atinentes a infortúnios da sua existência privada.
Chamava-se o docente José Carlos Nobre da Silveira, e acabo de receber a notícia do seu inopinado, e precoce, falecimento na lógica, ou na ilógica, de uma crise diabética. O carácter fortuito do nosso encontro adequar-se-ia a que arquivasse eu o sucedido na gaveta dos obituários que nos deixam civilizadamente pesarosos, mas de facto algo indiferentes. Não fora a tal conversa que como é óbvio não reproduzirei aqui, e que me parecera postular, o que de longe a longe acontece, um conhecimento a amadurecer, e não a efémera troca de impressões, não demoraria muito a que por inteiro me esquecesse de José Silveira. Mas naquelas três horas e pico em que estivemos juntos descemos porventura ambos ao fundo mais fundo de nós, despedindo-nos embora logo depois com o aperto de mão que referenda a compra de um automóvel, ou a saída do gabinete do dentista.
Pergunto-me que mistério maior se esconderá nestes mistérios, surgidos in media vista, e sem que coisa alguma os anuncie. E procuro a razão por que tanto e tanto relacionamento se prolonga por anos e anos, mas sem que se transponha a fronteira da frivolidade quotidiana, ou da cordialidade à flor da pele.
É claro que neste instante, e ainda bem, o recentemente "desaparecido" José Carlos Nobre da Silveira se achará na posse da definitiva, e sobretudo da completa, chave para a decifração de semelhantes enigmas. Quanto a nós, os que por enquanto ficámos, que nos assista pelo menos a dúvida que assegura a tranquila continuidade do viver!
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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15:00 Quinta feira, 3 de maio de 2012
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Quando o relacionamento com aqueles a quem ensinamos extravasa da sala de aula, não é raro transformar-se, se não num afeto para a vida inteira, ao menos num diálogo com razoável duração. Os alunos chegam por isso a nossa casa, e afastam-se dela, quando não ao sabor do acaso, sempre que julgam ter aprendido tudo, ou deduzem que o mestre não constitui ao fim de contas uma agência editorial, ou um centro de colocações de emprego. E também nós, os docentes, com serenidade maior, ou menor, retiramos disto a consciência da precariedade dos laços humanos, e a descoberta das paisagens do mundo.
O Nuno frequenta as sessões que costumo organizar, dedicadas à criatividade na escrita, e à partilha, tantas vezes iluminante, de experiências de leitura. Ficcionista de talento, e bem mais interessante que muitos que por aí impantemente circulam, a glosar uma receita que promana dos mais óbvios lugares, e projetando a ânsia de se colocar à la page, o Nuno cultiva o seu inegável vanguardismo na maturidade da busca, e nessa resistência tenaz, sinal de seriedade no ofício, a toda a forma de repentina publicação. Posso jurar que não conheço na novelística portuguesa contemporânea exemplo de trabalho mais empolgante, mais consistente, ou mais original.
Excêntrico por natureza, o que não significa isenção de uma certa pose, lançou-se ele há tempos, e ignoro se teimará em lançar-se, a colecionar cadeiras de vária forma e múltiplo feitio, se não virtualmente reunidas, fotografadas a telemóvel. E ao casar-se, vai para um ano, optou pela cerimónia esdrúxula, e suscetível de espavorir as velhas tias, azoratadas com os estéticos desmandos do menino descabelado. Hesitante entre a sensatez do jurista e o desvairo do escritor, o Nuno continua a navegar entre Cila e Caríbdis, conforme ao destino que as Parcas lhe fiam.
Na última ocasião em que veio visitar-me perguntei-lhe rotineiramente como lhe corriam os dias, família e prosa, saúde e profissão, e em especial como se encontrava o pimpolho entretanto trazido a este vale de lágrimas. Tendo escapado por obra e graça de Deus ao onomástico, Farnésio, que o extremoso progenitor pretendia aplicar-lhe, informou-me este de que anda o ganapinho pelos seus dez meses, de que dá mostras de querer iniciar-se na locomoção, e de que palra pelos cotovelos. E inquirindo-o eu sobre qual a primeira palavra que o mesmo conseguiu articular, e aguardando o consensual "papá", "mamã" ou "olá", fiquei estarrecido, e todos concordarão que com bons motivos, ao explicar-me o Nuno, "A única coisa que ele por enquanto diz é apenas, e estranhamente, "crise!""
Que nos ajude o Espírito de Deus, pairante sobre as águas, para que não se converta o bebé do Nuno num arquétipo da globalização, e para que se acostume ele em breve a reter um substantivo outro, o qual não se vislumbra melhor do que simplesmente "epopeia".
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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15:00 Quinta feira, 26 de abril de 2012
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Acabo de assistir a uma interessante mesa-redonda, organizada pela Faculdade de Letras de Lisboa, e dedicada ao Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, o que aparentemente não constituirá notícia digna de grande nota. A originalidade reside na circunstância de ocuparem o painel quatro jovens investigadores, limpos de qualquer bolor académico, e que provavelmente amanhã à noite, um sábado de abril, descerão a uma dessas discotecas ribeirinhas onde os que ultrapassaram os quarenta não se ouvem, e as luzes disparam contra os olhos dos não fumadores. Confesso que o "fenómeno", e não encontro melhor epíteto para o ocorrido, me encheu de esperança o coração.
A novelística portuguesa dos últimos anos, e não me refiro à corrente brotoeja da narrativa histórica, sem gramática, e sem cor, mas à que merece atenção, habituou-nos a uma prática de entrecho que se despoja de espaço e tempo. Tudo aí se passa numa espécie de território límbico, tão próximo de Lisboa como de Copenhague, de Denver no Colorado como de Alpedrinha na Beira Baixa. E por este sem-cenário deambulam personagens inventadas por uma como que fabriqueta de blue jeans novelísticos, tão incaracterísticos da época a que pertencem como do que haverá porventura correspondido às suas vidas anteriores.
O terrível efeito da globalização, sofrido pelo romance luso, e às vezes pelo que de maior qualidade entre nós se produz, e que se afasta dos tais enredos que vão buscar à História o que ela contém de sobremaneira superficial, parece assim manifestar indícios de esvaziamento. A geração realmente rasca que desconhecia se Bonaparte chegara antes, ou depois, de Ramsés II, e se Uppsala se situava na Indonésia, ou Ranchipur na Costa Basca, vai dando lugar agora, e admite-se que em consequência de alguma alteração nos programas didáticos, a uma outra que sabe quando, e onde está, e quando, e onde, não esteve. Acalentadoras perspetivas se descerram pois para a sensualidade do texto, e para o gosto que ele for capaz de nos oferecer, o que não deixará de nos proporcionar, e às gerações a vir, saudável quadro de fruição dos dias.
Ao quarteto de modernos investigadores, apaixonados pela obra de Camilo, e que nela andam a descobrir um destino onde respirar a sua própria mocidade, envio o abraço de um camiliófilo que jamais se envergonhará de o ser.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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16:00 Sexta feira, 20 de abril de 2012
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Todos os dias morrem cães, mas o meu deixou-me agora mesmo, e não há morte do ser que me console, nem filosofia da precariedade que me reensine a viver. Companheiro de vinte anos, era uma criatura meiga, mas assertiva, tão amiga da sua casa como do seu prato, e capaz de oferecer, se se achasse de feição, surpresas de comportamento que alteravam o nosso frágil quadro de valores, teimosamente aferrado a uma noção de animalidade que se vai revelando cada vez mais esquemática, e mais infantil. Mas a pérola maior da sua índole consistia numa como que fidelidade à própria presença, fixada a nossos pés, e ainda, e sobretudo, quando o lugar vagava a nosso lado. A corrente lamechice que por este tempo se despeja nos bichos domésticos, e em particular nos cães e gatos, denotando menos o afecto real do que a necessidade de o fingir, torna-se modalidade supletiva da subserviência que o mamífero que somos impõe às restantes populações do Planeta. Reconstruímos a biosfera em que nadamos como um teatro coquette e frenético, ilustrativo da nossa frivolidade, e da coisificação a que condenamos quantos se inserem num espaço que supomos pertencer-nos em exclusivo. Se se fala entretanto de racismo, de machismo, de chauvinismo, e de outras variantes, não raramente fóbicas, de segregacionismo, apenas a medo se repara em semelhante comportamento, destituído aliás de etiqueta, que nos marca como a mais cruel, e a mais consumada, besta da Criação.
Por linhas paralelas obstina-se em discorrer uma monolítica tradição teológica, recusando aos não-humanos o privilégio da alma, e despachando-os assim, ora vivos, ora defuntos, para uma dessas lixeiras onde se misturam as cinzas dos que amamos com o refugo do consumo que faz de nós o insaciável monstro em que consistimos. Sem alma, e por conseguinte sem corpo que verdadeiramente lhes caiba, abandonados no deserto de asfalto, ou aí trucidados, os nossos irmãos de pêlo desembocam no paraíso único que se lhes consente, os braços do sem-abrigo que nunca os expulsa, e que nunca por eles será traído, na primeira curva da estrada da vida.
A meus pés por isso, olhado sem o mínimo laivo de pieguice, o sítio onde Robin se deitava ficará a partir de hoje permanentemente sem coração.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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19:52 Sexta feira, 13 de abril de 2012
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O tempo que levo de adesão ao facebook, nem tão curto que me esconda o óbvio, nem tão longo que me cegue para as evidências, revela-me um continente dividido entre fascínio e desamparo. O processo de virtualização, sofrido pelos seus habitantes, obriga-os à constante despedida daquilo que os personaliza, e ao abraço de um futuro de realização problemática. Pelo caminho ficam os restos de um quotidiano de mágoas, os indícios de um sonho nunca atingido, e a comovente aposta na persistência da vida.
Em termos muito esquemáticos poderemos repartir esta espécie de pátria alternativa em duas grandes regiões, a do parque infantil, e a do perpétuo Carnaval. Agitam-se na primeira os mais transparentes, mas nem sempre os mais jovens, agarrados à sua partilha de brinquedos, e implicados em bulhas pela posse dos mesmos, beijando-se eletronicamente, ou envolvendo-se em cibernéticas perrices, por entre exclamativas e interjeições, "que lindo!", "que nojo!", "que fofo!", "ahhhhhhh!", "ohhhhhhh!", "ui!" e quejandos. Na segunda divertem-se a esquecer-se de si os afiveladores de máscaras de todos os tipos, compondo uma galeria de personagens que inclui o ignoranterantignoe metido a sábio, e o experiente armado em naïf, o velho que pretende passar por moço, e o novo que se esforça por parecer maduro, e até o feio que por momentos se convence de que é irresistível. Entre ambos os territórios ciranda um caixeiro-viajante, intentando determinar a extensão da sua geografia, e não tanto a que lhe permita constituir-se em gente como a que lhe confira o direito ao rosto que tem.
Situado a sudeste, o enclave do Chat, formado por campos de minas que alternam com ridentes paisagens, sustenta uma fauna humana que resiste a qualquer descrição. Assombram-na assíduas, mas solitaríssimas, presenças que lembram os mendigos eternamente postados a uma esquina, e que não aspiram à obtenção da esmola, mas à pura e simples satisfação do seu vício de pedir. Para além destas não existe categoria que aí falte, do desesperado ao sedutor, do carente ao trapaceiro, do predador ao alpinista, e ao que, consistindo em tudo isto, afinal se não articula em coisa alguma. Espaço de maquiavélicas estratégias que assentam no estar, ou no não estar, online em função de emoções transitórias, atravessa-o o salteador de quintas, o caçador furtivo, e o fantasma da ópera, sem que lhes assista a força moral para desistir de o frequentar.
Tudo considerado, afirmavam-se bem mais eficazes, e bem mais bonitos, os improvisados telefones de uma infância que, não recebendo de presente o inteiro stock do supermercado, se via constrangida ao fabrico dos seus gadgets de estimação. Furavam-se com um prego a tampa de uma caixa de graxa para sapatos, e a respetiva base, de modo a conseguir-se o bucal e o auscultador. Entre este e aquele, sentindo o empolgamento dos criadores de mundos, esticava-se um fio de barbante, previamente ensebado. E conversava-se de um canto para o outro da sala, conversava-se e conversava-se, verdadeiramente com o coração.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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20:21 Quinta feira, 12 de abril de 2012
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O apontamento a tinta negra, saído do punho de Leonardo Da Vinci, e visível como apoteose da exposição de desenhos da coleção da Escola Superior de Belas-Artes do Porto, patente no mesmo estabelecimento de ensino, justificará sem dúvida a deslocação, ainda que longa, que vise o simplesmente admirá-lo. E deverão empreendê-la todos quantos adiram ao aforismo anglo-saxónico, segundo o qual "small is beautiful", ou aceitem a célebre verificação, mais ou menos teologicamente referendada, que assenta na crença de que "Deus mora no pormenor". Trazido por um daqueles bolseiros de antanho que desciam a Roma, a fim de frequentar as academias, e que se serviam dos croquis dos grandes mestres, espalhados por vezes de modo desastradamente incauto, como de uma tabuada imprescindível à aprendizagem das formas, dos volumes, da perspetiva, ou do que quer que à expressão plástica respeite, o desenhinho atravessou o tempo, e exibe-se agora com algum temor reverencial.
Minúsculo de facto, e destituído do mínimo empenho no rigor, representa uma dessas maternidades de que Freud se enamoraria, e que haveriam de lhe valer como elemento da grelha psicanalítica, pouco antes descoberta, que o alienista de Viena compreensivelmente manejaria como ninguém. Uma mulher, irmã da Virgem dos Rochedos, ou prima de Santa Ana, mergulha a sua criança, ou a de seus amos, numa selha igualzinha àqueloutra em que se costuma dar o primeiro banho a Maria de Nazaré, acabada de nascer. E torna-se-nos possível que a tenha avistado o artista, absorvido na sua tarefa ao fundo de um corredor da taverna onde ele se encontrava, e que logo haja rabiscado a cena com tanto de ingénuo no desleixo dos contornos como de compulsivo na reposição da temática.
O que porém não consta de catálogo algum, nem de qualquer ficha, nem sequer da sempre redentora tradição oral, são as andanças a que a obrinha se sujeitaria, comprada ou surripiada, metida na mala de porão do navio, ou na bagageira da diligência, e exibida no regresso a uma roda de amigalhaços que reputariam de "muito interessante" a recordação das Hálias. Ao fundo do tal corredor da tal taverna, de Santa Maria Maggiore, ou do Trastevere, a extremosa mátria, ou a criada que funcionava como alternativa a ela, enxugou já, há muito, o pequeno que se ergueu das águas entretanto arrefecidas, transido de frio, e berrando em protestos que de pouco lhe aproveitariam. Deitando-o a seguir num berço de pau, e olhando de viés lá para trás, a certificar-se da ausência do hóspede escanzelado, e de compridas barbas lisas, correria ela a fechar com três ferrolhos a porta da entrada da locanda.
Quanto a nós, apostados em que não se desvaneçam os sinais da vida nos objetos que mais amamos, debrucemo-nos por instantes sobre o esboceto de Leonardo. Nele se distinguem os picos da humidade, o rasto da passagem de uma mosca, e até, se formos mais meridianamente atentos, a nódoa da sopa de couve e enchidos com que o pintor aconchegou o estômago.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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17:09 Quinta feira, 29 de março de 2012
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Estações do nosso percurso biográfico, as casas de que saímos, ou onde morámos, explicam-nos no mais íntimo da índole que nos habita, e inscrevem-nos numa constelação de companheiros de romagem. O convite a que recentemente acedemos para falar de tais lugares proporcionou-nos esse ensejo, cada vez mais frequente, e afinal mais gratificante, de olhar para trás, a estabelecer entre passado e presente aquele mecanismo relacional que nos confere a certeza de uma como que harmonia, modeladora dos dias que andamos a consumir. Ali estão elas, as casas, na sua efectiva existência de pedra e cal, ou na sua fantasmática evidência de sombra que se vai esbatendo, mas que nos confronta com as ameaças da transitoriedade. Observamos semelhantes nichos de inscrição da vida que cumprimos, e quer permaneçam eles ainda, quer tenham desaparecido já, como uma paisagem de ruínas, ou como um deserto onde se apagaram os indícios de uma presença qualquer. Salas e corredores, sótãos e caves, jardins e quintais, agredidos como foram pelo tempo, deixaram atrás de si uma memória de contornos que gradualmente se dissipam, e a reminiscência, porventura mais forte, e mais duradoura, de um aroma, o da água de Colónia no lenço de chiffon da Avó, ou de um som, o do terceiro degrau da escada que infalivelmente rangia no momento de o pisarmos, tudo peças de uma herança abstracta, guardadas na algibeira mais chegada ao coração.
Veio umas vezes o camartelo municipal, e outras a transferência para diversos moradores, e a história, ou o que a ela equivale, principiaria a sepultar-nos na sua marcha. Admite-se que odiassem os novos donos o papel de parede do quarto onde dormíamos, ou que porventura troçassem do nosso fraco por canteirinhos onde as rosas iam crescendo, mas não será de pôr de parte que se haja entretanto adiantado uma criança de gosto não formado ainda, e que se tenha deliciado ela a desentranhar da terra por debaixo do pinheiro manso o automóvel de folheta, aí inexplicavelmente enterrado por nós. Poderá também suceder que o proprietário que por lá se implantou, desconhecendo o propósito do ovo de madeira que servia para pontear as peúgas, e que ficou esquecido no peitoril de uma janela, o insira como adereço decorativo, julgando-o curiosamente minimalista, na taça que colocou sobre a mesa de café.
Mas a verdadeira casa, a que, configurando uma, corresponde a uma multiplicidade, a que ninguém demolirá, nem sequer em sonhos, a que não há quem veja, a não sermos nós, e a que enfim não se gasta nas décadas, essa situa-se longíssimo, e ao alcance da mão. Devorada pelas invisíveis heras da usura que nos autorizarmos, mas eterna como convém às residências celestes, ei-la que se levanta a horas mortas, e sem que nos apercebamos donde emerge, nos dentros mais dentro de nós.
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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12:00 Segunda feira, 26 de março de 2012
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As formas de tratamento dos vários grupos etários, praticadas na comunicação social, e sobretudo na área televisiva, denunciam mecanismos de mentalidade que simultaneamente preocupam, irritam e divertem. Numa fase em que à básica tripartição do percurso do homem em infância, maturidade e velhice, sucedeu um espectro de tons e subtons, os anos que cumprimos enviam-nos fatalmente a uma categoria precisa, mas nem sempre fácil de tolerar. Convivemos agora de facto com a primeira infância, e a segunda infância, com a pré-adolescência, e a adolescência, com a jovem adultícia, e a adultícia tout court, com a meia idade, e a terceira idade, e se se considerar o notório alargamento da expectativa de vida, em breve com a quarta, a quinta, e as mais que desembocarem aos pés de Matusalém.
Algumas reacções emotivas manifestam-se no entanto perante a imposição do carimbo de "idoso", tão generalizada hoje em dia como a de "menino", ou a de "jovem", mas que começa a suscitar o afastamento dos que se vêem embrulhados no rol. Menos frequentemente rotulados de "sexagenários", de "septuagenários", ou de "octogenários", os visados levantam agora a cabeça, insurgindo-se contra a humilhante adjectivação. Ao fim de contas a clássica palavrinha "velho", antipática para os comuns, mas dignificante na sua recusa de eufemismos, marca ainda um estatuto que ameaça perder-se com o manhoso certificado de inimputabilidade, atribuído aos que teimam em não se envergonhar de ascender nos degraus da existência. Bem mais civilizadamente, e de modo exemplar, os nossos vizinhos peninsulares opõem a presumível sabedoria dos "maiores" à ignorância provável dos "menores" que os precedem na carreira. E entre a "lusa gente" o "velho" apresenta-se por tradição "de aspeito venerando", a exortar à prudência, e afirmando-se por isso inimigo de um alegre "progresso", atitude que, não sendo em princípio louvável, não deixará de conter uma certa pitada de pragmatismo.
"Idoso" como vocábulo identificante da senectude, esse sim, deverá expurgar-se do léxico "jornalístico", uma vez que "idosos" e "idosas", posto que mais ou menos, se revelam todas as criaturas. "Velho" por outro lado regista a seu favor uma espécie de consenso, muito ao invés aliás de "ancião", substantivo corrente nos romances baratos, e com o qual amiúde se designam, em nosso foro íntimo, os eternos pais da pátria, a cair da tripeça, que não desistem de meter o bedelho na res publica. Sentindo-se irremediavelmente empurrados para os múltiplos desconfortos, implícitos numa tal nomenclatura, os meus amigos da casa dos quarenta, aquela em que as pessoas são o que são, despojadas de qualificativo que as minimize, aguardam uma saudável alvorada. Romperá ela mais tarde, ou mais cedo, não se duvide, quando se reconhecer o inalienável direito à passagem do tempo sobre nós, e na isenção de qualquer castigo verbal, que por isso se deva sofrer. Despachada a etiqueta para o arquivo dos insultos reaccionários, e a agregar-se aos de "escarumba", de "maricas", de "ceguinho", de "gentinha", e de congéneres, admite-se que venham assim a escapar os velhos de morrer epidemicamente sós.
Mário Cláudio
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Mário Cláudio (www.expresso.pt)
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15:45 Segunda feira, 19 de março de 2012
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O numeroso grupo que irrompeu pelo restaurante do litoral atlântico, procurado pela sua oferta de peixe de excelente qualidade, não correspondia ao modelo habitual. Não o formava a família que vem celebrar o septuagésimo aniversário do avozinho, e que se envolve em longas conversas sobre doença e gastronomia, nem as raparigas que festejam a despedida de solteira da amiga, e que excitadamente falam na antecipação da noitada de strip-tease masculino, nem mesmo os técnicos da unidade industrial que confraternizam, e que debatem os desaires da respectiva carreira, ou a dinâmica da vida politico-partidária nacional. Os recém-chegados eram homens de áspero semblante, acusando inclusive boa dose de grosseria, mas dotados da autenticidade nas atitudes que exclui a alegria nervosa de certos colectivos.
Se lhes aplicássemos o rótulo genérico de embarcadiços, provavelmente acertaríamos no desenho do perfil existencial que lhes competia, integrado que se mostrava o seu ajuntamento por pescadores de alto mar, pilotos da lancha da barra, e tripulantes de cargueiros vadios. Alternando o diálogo com um silêncio de circunstância, mas sem exteriorizarem qualquer sinal de intimidação, protegidos como se sentiam pelo companheirismo que entre eles fluía, ocuparam os seus lugares na mesa enorme, principiando logo a comer o pão que lhes haviam posto à frente. E absorvidos como estavam nas suas trocas de informes e impressões, pareciam inconscientes da eventual hostilidade do meio, e limpos desse exibicionismo que atira à cara dos circunstantes um à-vontade excessivo.
A avaliar pela área da costa portuguesa onde nos achávamos, bem poderiam os componentes daquela chusma agreste resultar de antigas marinhagens que ali tivessem escalado, desembarcando das suas fustas fenícias, das suas gregas galeras, das suas barcas de Cartago, ou das suas naves vikings. Há relativamente pouco tempo, viam-se de facto por essas paragens, e a atestar a presença dos nórdicos, meninos de cabelo branco, de tão loiro que era, mas que o sol do sul acabaria por escurecer. E malta assim, de pés na terra, apenas no painel de Nuno Gonçalves, ou no de quem quer que o tenha pintado, se conseguirá hoje em dia admirar.
A determinada altura da noite, aquecidos os estômagos, e desatreladas as línguas, o banquete dos embarcadiços fervilhava crescentemente de animada coloquialidade. Empenhado na sua obrigação de zelar pelo conforto dos clientes, e pela acústica calma a que têm direito, o empregado acercou-se de nós, e inquiriu com solicitude, "Fazem muito barulho, não é verdade?" Tranquilizámo-lo de imediato, afiançando-lhe que em nada nos incomodava a vozearia dos embarcadiços. E como se partilhássemos com o pessoal do oceano, ali ao lado entregue à sua faina nutritiva, a comemoração das horas que transcorrem, demos connosco a interrogarmo-nos sobre a estranha razão de tanto nos irritarem os tímpanos uns quantos ruídos, e de tanto nos acalentarem a alma uns quantos outros.
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Mário Cláudio (www.expresso,pt)
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16:42 Terça feira, 13 de março de 2012
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Não imagino quantos portugueses terão tido notícia, e ela continua afinal ao dispor de todos nós, da existência de uma extraordinária, se bem que não encartada, decifradora dos enigmas pátrios, e desses de que só relutantemente se aproximam os pensadores aferidos por Paris, ou pelo que remanesce do Império Austro-Húngaro. Dalila Lello Pereira da Costa, ancorada em verdades de vocação eterna, e dotada da sabedoria que não se mede por índices, ou por notas de rodapé, acaba de sair da cena comum, a fim de abraçar estrelas que os telescópios não conseguem alcançar. E eu peço aos meus concidadãos, sobretudo aos que quotidianamente se ensarilham nas tessituras electrónicas, que procurem aperceber-se, e ao menos online, da dimensão intelectual, e criativa, da mulher que, há meia dúzia de dias, nos deixou.
Discretíssima no convívio, e fora dele, Dalila oferecia a quem ia ouvi-la, ou pretendia ser ouvido, a generosa atenção, inacessível aos papagaios que compulsivamente demandam a ressonância da própria voz. E se nos falava da Filocália, de Pessoa, de Jung, de Yeats, ou das religiões populares, sempre aquilo que nos dizia acabava por integrar insuspeitadas lacunas do nosso conhecimento, por corrigir impressões aparentemente adequadas, ou por alargar as vistas que nos assistiam. Herdeira daquele vasto património, irritantemente nebuloso para os auto-suficientes, que uma certa reflexão a norte, a de Sampaio Bruno, de Teixeira de Pascoaes, e de Leonardo Coimbra, tocara já, precisamente através das sombras é que Dalila exerceria a sua missão de desvendamento da luz. E fazia-o, importa sublinhar aqui, olhando os que blasonavam de racionalistas com a estima que os mesmos se recusavam a retribuir-lhe.
Inseparável do casarão prodigioso, povoado por memórias de vário tempo e lugar, por invulgares testemunhos da criatividade lusa, por livros e revistas, e por casinhas de bonecas que albergavam a suma ciência da infância, não há homenagem que lhe não rendam os objectos teoricamente inanimados com que partilhava as horas. E nesta despedida, afinal a que sucede ao ilusório desaparecimento de uma nobre e simplissíssima presença, florescem as magnólias e japoneiras do jardim que a autora de A Força do Mundo tão serenamente amou.
Não bastará isso para que se lhe abram os caminhos, e para que lhe decorra feliz como nunca a viagem?
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