22 de dezembro de 2014
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As Telenovelas

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A produção telenovelística com que nos brindam os magnos canais pátrios, desenhando um arco do consumo de massa que os estudos sociológicos têm negligenciado, sofre genericamente o anátema dos bem-pensantes, ou dos que se metem a intelectuais. Artigos de digestiva fruição, desfiam enredos verosímeis, interpretados por actores mais ou menos talentosos, e largando em suspenso, conforme mandam as boas regras do género, a continuação do folhetim. Mas não deixa de ser verdade que se revelam mais numerosas as vozes daqueles que presumem destacar-se de semelhante refugo cultural, classificando-o de inconveniente ao estatuto que se inventam, do que as de quantos na realidade concretizam a intenção de o fazer.

Um dia, já lá vão muitíssimos anos, surpreendi um vulto imenso da nossa intelligentsia, inimigo figadal de quejanda trastaria mediática, absorvido na intriga de um desses dramas brasileiros, acabados de surgir no nosso quotidiano, com empenhamento apenas equiparável ao que colocava na redacção dos seus escritos, os quais se acompanhavam frequentemente de não menos circunspectas intervenções em conferências, entrevistas e mesas-redondas. Estremeceu o homem como o pimpolho apanhado em flagrante delito de assalto ao boião da geleia, e justificou-se sem que eu lho pedisse com a necessidade de se colocar ao facto dos gostos da população do seu país, e dos motivos das respectivas opções, matérias de evidente importância científica. Procurei tranquilizá-lo com a confidência de que também eu, posto que de longe a longe, consentia em gastar diante do écran alguns minutos, a seguir as peripécias de uma ou outra das séries, mas sobretudo por imperativos do convívio familiar. Aquele paradigma da duplicidade fitou-me com espantada censura, e não se coibiu de me increpar com isto, "Como assim?, você pactua com horrores de tal quilate?, olhe que eu nunca o julgaria capaz!"

Veio a crise, décadas decorridas sobre este episódio da vida real, e dou comigo envolvido em iguais prevaricações, todavia isentas de qualquer complexo de culpa, susceptível de as ensombrar. Todas as noites, e a horas certas, enfardo as três novelas que o Brasil exporta para um dos canais generalistas, e sem cuidar de dolorosos remorsos, nem de disfarces inúteis. Nada como os achaques da idade, individuais e colectivos, para nos libertar da opinião alheia, e da observância da imagem com que desejaríamos que nos identificassem, cidadãos maduros, e no pleno gozo dos seus direitos cívicos, a recortar a figura imprescindível ao auto-respeito mínimo.

Estarei a baixar miseravelmente a fasquia da honra oficinal, equiparando-me aos escribas de romances histórico-policiais, e sobretudo às escribas de relatos obcecados com as turbulências do coração? Andarei a subtrair aos restos de cada jornada o precioso tempo que poderia aplicar à decifração das mais abstrusas composições do Pound, à reaudição atentíssima do Rituel, do Boulez, ou ao visionamento em DVD do último filme do Tarkovsky? Creio que não. Ofereço-me simplesmente o que me apetece na alienação global, e adopto o saudável princípio do "come e cala", ou do "toma lá que já jantaste", tentando digerir, deitadinho em frente do plasma do quarto, o eterno bife com batata frita e ovo a cavalo.

O Espólio de Eugénio de Andrade

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A notícia de que a Câmara Municipal do Porto adquirirá em breve o espólio de Eugénio de Andrade, caída nas cercanias do termo de um ano magro, e anunciante de um outro não muito mais refeito, só poderá suscitar acrescida apreensão. E a repugnância que o vocábulo "espólio" sempre desencadeia, associado como anda à noção dos resíduos de toda uma vida, e até à de um património sujeito ao saque dos mercenários, parece cobrar aqui completa justificação. As vicissitudes sofridas pelos bens materiais que Eugénio deixou configuram de facto uma história triste, e exemplarmente lusa, marcada por individuais agendas de auto-promoção, e pelas consequentes vaidades irritadas e irritantes, tudo isto a remeter para os confins da memória o respeito, o afecto, e a estima, que a obra do poeta deverá merecer de cada um de nós.

Poucos como Eugénio de Andrade se terão preocupado tanto com o destino post-mortem dos seus pertences, com o cumprimento das suas últimas vontades, e com a preservação do seu trabalho, e do seu nome, para além do tempo que biologicamente lhe coube. Recordo-me de o ver ainda longe do fim, receoso de não conseguir anotar, e antes que a velha da foice chegasse, a integral das numerosas variantes dos seus versos, inculcando assim uma lição de escrúpulo e paciência, proveitosa ao escritor em gérmen que o assinante destas linhas conformava. E a resistência que o autor de Obscuro Domínio opunha a qualquer forma da usura inseparável da condição humana, e das letras que a mesma segrega, denunciava na verdade o helenismo que ele não cessaria de reivindicar, adverso ao sic transit gloria mundi da mentalidade judaico-cristã.

Mas a compra pela autarquia portuense daquilo que constituiu o substrato físico da extinta Fundação Eugénio de Andrade aconselha séria reserva, e suspeita legítima. Ao município tem competido, e desde há muito, a guarda da herança de António Nobre, composta por livros e manuscritos, fotografias e objectos de uso pessoal, ou seja, uma colecção de relevância museológica, invisível para a população, arrecadada como se acha nos gavetões da Biblioteca Pública, e que tão-só duas ou três vezes emergiu para exposições pontuais. Nem sequer a subsistência da casa onde o criador do Só acabou os seus dias, e a cuja progressiva ruína o filistino executivo camarário actual vem assistindo de braços cruzados, se quis salvar para alojamento do precioso acervo.

É de prever agora que com a fanfarra da praxe se baptize de Eugénio de Andrade uma sala da biblioteca onde se encafuem heteróclitos itens, testemunhos do percurso terreno de um grande vulto da literatura portuguesa. Será isso porém render a homenagem de que o poeta se tornou credor? Esperemos para o descobrir, acalentados pelo horizonte que nos oferece o próximo arrumo das botas de uma governação local como a presente, mais do que insensível à cultura, jurada inimiga dela. Talvez escape então Eugénio, quem sabe?, a um terceiro beijo da morte, e mais gélido do que os restantes dois.

Os Sobreviventes

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Cumprida a nefanda profecia maia, a verdade é que ainda cá estamos todos, e o mundo acaba de recomeçar. O asteróide colidiu com a Terra, o planeta invisível também, o sismo devastou a "bola de lama", o tsunami que se lhe seguiu alagou os continentes, e a queda no buraco negro, prevista ao exacto minuto, consumou-se com britânica pontualidade. Os sete bilhões de seres humanos, e os representantes de quanta bicheza coube, ou não obteve direito de ingresso, na arca de Noé, evaporaram-se sem largar rasto, quedando-se apenas, a pairar como um brinquedo contra um crepúsculo vermelho, a eterna nave dos eleitos, essa que ninguém afinal avistará. Atingido o fim dos tempos, um ligeiro tremor luminoso manteve-se sem serventia, a comandar no deserto dos desertos o percurso do frágil marcador uniball, utilizado na redacção desta crónica.

Muito lentamente, e ao longo de milénios e milénios, consolidava-se aquela cintilação numa esfera perfeita, e já não azul como a que ocupara idêntico lugar no espaço, mas dourada, e a rodar no seu eixo de inefável harmonia que outros olhares, e outros ouvidos, iriam discernir. Prometidos ao equilíbrio infinito, formigariam por aí bípedes e bípedes que se supunham racionais, e entre eles dois milhões morreriam de fome todos os dias, e o número de guerras não cessaria de triplicar a cada contagem, fomentado por cidadãos prudentíssimos, e acima de qualquer suspeita, serenamente repoltreados sobre cinquenta mil engenhos nucleares. Extinguir-se-iam entretanto três espécies animais por hora, e quotidianamente cento e quarenta plantas, e a subida progressiva da temperatura desencadearia alterações dramáticas do clima, profundas agressões à biodiversidade, e hecatombes sem conta, sem pausa, e sem medida.

Um novo asteróide explodiria no embate com o tranquilo corpo resplandecente, girando em torno de si mesmo, e da estrela que lhe assegurava a persistência cósmica, um terramoto assolá-lo-ia de lés-a-lés, e as ondas galgar-lhe-iam o solo, até se esvair a sua massa no abismo dos abismos. Calendário nenhum lhe assinalara o termo, despovoado como se achava de civilizações piramidais, e de revisitantes alienígenas, atraídos pelo brilho irresistível que distinguiam, pelas superiores formas de existência que nele fantasiavam, e pela suspeita de que beneficiasse de paisagens mais amenas.

O grão de poeira viaja agora pelo mapa do universo, cego no rumo que lhe impõem, e ignorante do destino a alcançar.

Elegia ao Cartão de Natal

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Também os cartões de Natal, encantadoras vias de manifestação da afectividade cívica, acabam de sofrer o castigo da chamada "obsolência", substantivo que o dicionário aqui ao alcance descreve como "qualidade do que é obsoleto", e "obsoleto" como "o que está fora de uso, antiquado, fora de moda". E o emprego do mesmo vocábulo, infrequente até há pouco, generalizou-se a um ponto tal que não existe hoje analfabeto de humanísticas que não o esgrima, a rebentar pelas costuras da sua empáfia tecnológica. Estar contra o "obsoleto" significará assim situar-se cada vez mais ao dispor da "obsolência" imediata, o que redundará em perder a todo o tempo o gozo do presente em prol de um futuro que se nos escoa por entre os dedos da mão.

Os adoráveis cartões de Natal desapareceram pois de um momento para o outro, resultado do decurso de século e meio de queixas pelos rios de dinheiro que os urbanos do mundo cristão, e não só, gastavam na sua compra. E substituem-se agora por dois ou três cliques, bem mais económicos, debitando um recado tão jocoso quanto possível, e que rapidamente se lê num écran iluminado, a fim de se transitar ao recado seguinte. A verdade porém é que, se os simpáticos cromos da era vitoriana, igualmente inventados de olho arregalado para o lucro, acrescentaram muito de calor às nossas celebrações natalícias, a actual erradicação deles parece saldar-se em prejuízo de um certo quadro de valores, o dos inerentes ao coração da espécie a que pertencemos. A redução ao plano quase exclusivo da visualidade, de resto em harmonia com determinado "progresso tecnológico", daquilo que se nos impõe que sintamos, e de quanto se julga característico do nosso comportamento, ilustra-se esplendidamente com a rasura dos cartões de Natal. Passa-se de súbito da imagem discursiva ao texto taquigrafado, do papel impresso à neutralidade do relâmpago sem cheiro, do toque da mensagem à sua inapreensibilidade, e enfim do paladar que nos deixava na língua a cola do sobrescrito, pensem o que pensarem os maníacos da higiene, a um deserto de sabores que vai dando lugar ao espectáculo do capricho gourmet, ou ao cúmulo de fotos de delícias gastronómicas que os mais simples não cessam de postar no facebook, e que se comentam com animalescos "hummmmmmms!".

O festival pagão que se aproxima, precedido desta feita de um novo apocalipse, o que o calendário maia assinalava, desfilará portanto diante de nós como uma procissão de exaustos de obrigações, e de desamparados dos meios para as cumprir, não já a escassos milénios, mas a anos-luz, de distância dos pastores que se apressavam na oferta dos seus artigos sem marca, e isentos da vigilância da A.S.A.E., dos nutricionistas encartados, e dos definidores da estética do corpo que nos cabe. Não constituirá tudo isto razão de sobra para atirarmos às malvas quanto for "caixinha que transforma o mundo", e optarmos por acender uma vela, uma só, pela persistência da nossa dignidade?

O Desaparecido

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Um dos grandes mistérios da democracia consiste no instantâneo desaparecimento, logo que apeadas do poder, das figuras que desempenharam funções governativas, e que, punidas pelo voto, ou dispensadas de obrigações, iniciam um percurso indetectável. Quando não devoradas por novos cargos, ou devorando estes, o roteiro que empreendem abre-se à mais descabelada das imaginações. É possível por isso concebê-las no cumprimento de um destino de clandestinidade, ou de uma estratégia de evasão, ora em consequência do receio de que as penalizem pela forma como geriram os negócios públicos, ora por terem enveredado pelo caminho de busca espiritual que as depure do remorso que as aflige.

Se tais personagens se apresentaram às massas como agentes da Providência, o que por norma acontece, mais se estranha a sua repentina queda no anonimato, ou o eclipse imprevisível em que se precipitam. José Sócrates ilustra de modo cabal este fenómeno, consagrado entre nós pela história recente. Fica ele na verdade como exemplo de semelhante fatalismo, concluída a fase em que se nos propunha como um faz-tudo exaltado pela sua missão, e mais tarde como um trânsfuga acossado pelo pânico de que lhe pedissem contas.

Sabendo como sabemos que terá emigrado Sócrates para Paris, teoricamente com vista a frequentar na Sorbonne um serôdio curso de filosofia, torna-se natural que o fantasiem os cínicos como um nababo, a empanturrar-se no Ritz, ou no George V, de quanto primor gastronómico sai da cozinha dos discípulos de Vatel. E quanto aos puros, incapazes de encontrar maldade no mundo, não surpreenderá que o vislumbrem nos andrajos de um clochard triste, dormindo à la belle étoile, ou sob uma ponte do Sena.

Talvez exausto da própria imagem, de resto logo substituída por outra que prosseguirá idêntica sina, José Sócrates volatilizou-se perante o olhar português. A implacabilidade de qualquer sistema político, isto por muito que aspire à perfeição, dita tragédias assim, escassamente diversas das que Shakespeare congeminou. Não representará Lear de facto condição equiparável à do nosso ex-primeiro ministro? E não poderá declamar este como o velho rei, hoje que o iluminam as especulativas luzes da Universidade egrégia, "E tu, trovão que tudo abalas, aplaina a espessa rotundidade do mundo, e quebra e destrói de uma vez para sempre todos os moldes e germes da ingrata raça do homem"?

Saramago: 90 anos

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As comemorações dos noventa anos que José Saramago cumpriria, há dias, se a morte entretanto o não tivesse levado, forneceu pretexto a aquilatar da natureza da marca que o romancista deixou, e não apenas na história da literatura portuguesa como na nossa mentalidade de ontem, de hoje e amanhã. A singularidade de ter sido Saramago galardoado com o Prémio Nobel, e objecto da controvérsia que por regra se estabelece em torno da atribuição, deve, concorreria para uma análise do homem, e da obra, empreendida a uma luz que até então nos não fora proporcionada. E o que sobreleva de tal reflexão nem sempre se mostrará lisonjeiro para o retrato da nossa cidadania, e para o carácter da nossa república das letras.

Conceitos ou termos como "estilo", "intervenção" e "polémica" não se separam da leitura de José Saramago, e abundam no estudo que sobre ele se vem efectuando. Por outro lado a estatura do romancista, internacionalmente reconhecido e presenteado, estimularia inúmeros sujeitos, até à altura indiferentes à criação romanesca, a quererem averiguar o que se passava com tamanha notoriedade. E logo estranhariam os desprevenidos um módulo narrativo que no plano formal não surgia do nada, conformando ao invés uma estética a que tão-só os grandes leitores, familiarizados com uma modernidade que não pactua com os códigos escolares, detinham real acesso. Daí que assistíssemos ao pacóvio escândalo das virgens prudentes, as quais, confundindo por exemplo o uso de pontuação convencional com a boa gramática, se precipitariam de imediato a tocar a rebate, acusando o autor de Ensaio sobre a Cegueira de não saber escrever.

Mas não se esgotaria nisto a pedrada no charco, vibrada por Saramago, e resultante do desassombro de quem estatui as suas convicções contra o sectarismo dos tontos, dos beatos, e dos hipócritas. Em época anterior e de menos alta febre aquisitiva, ocorrera já idêntico fenómeno, se bem que mais discretamente, mas em termos que denunciavam já a nossa pequenez. O sucesso de Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, ficaria a dever-se também a um choque imprevisível, mas sem que no autor se manifestasse semelhante sobressalto dos da ignorância, isto porque quem então arrecadava livros não se limitava a encaixá-los na estante. Na era do consumo desenfreado, essa que caberia à emergência do escritor de Levantado do Chão, e na qual todo bicho-careta se arrogava a dignidade de leitor por poder comprar livralhada, a verdadeira dimensão da iliteracia patentear-se-ia assustadora, e sem remédio à vista.

Não faltaram a José Saramago os burocratas pátrios, e se não bufos de novas polícias secretas, agentes fidelíssimos da estupidez. E valerá a pena assinalar aqui que não se eximiria o ensino oficial a emprestar a sua mãozinha à boçalidade campeante, obrigando legiões e legiões de adolescentes a desbravar aquilo que a ampla maioria dos professores dificilmente entendia. Penalizados por um contexto assim, e na mobilidade das filas de volumes que ocupam as prateleiras das bibliotecas privadas, a obra brilhantíssima de Saramago aguardará por certo uma terceira, ou uma quarta, geração de bisnetos e trinetos portugueses capazes de o homenagear com a inteligência normal que um artista a sério sem dúvida merece.

Corrupções

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Não há que duvidar, ao longo das décadas tem sido o autor desta crónica com assiduidade, e conscientemente, sujeito activo, e de forma mais rara, e mais ingénua, sujeito passivo, do crime de corrupção. Vem isto a propósito da esclarecedora entrevista, concedida pelo ex-ministro João Cravinho ao Boletim da Ordem dos Advogados, da qual constam afirmações oportunas e certeiras, a explicar alguma da miséria a que chegámos. Declara ele porém com boa dose de optimismo que "nos últimos anos, com a reabilitação dos serviços públicos e, sobretudo, com a informatização, a pequena corrupção diminuiu acentuadamente." E acrescenta, "Toda a gente se lembra de que nas repartições nada se fazia sem uma pequena lembrança e os processos estavam organizados segundo o critério e a ordem de cada um."

Que haja desaparecido a "pequena corrupção", indiscutivelmente mais palpável, e por isso mesmo mais indefesa, e ficado a grande, só de longe a longe detectada, provida como se encontra de uma parafernália de válvulas de segurança, eis o que dá que pensar, e proporciona não pouco desconforto aos ínfimos de nós. A verdade é que, ao passar em silêncio as mais subtis, e as mais insidiosas, técnicas de corromper, e de ser corrompido, João Cravinho consegue transformar-nos na revoada de anjos e arcanjos que gostaríamos de constituir. No sul de uma Europa onde as relações de parentesco, e de vizinhança, se mostram quase de coabitação, e a emotividade anda à flor da pele, não existe quem não incorra na prática activa, ou passiva, do nefando delito.

Quantas e quantas vezes, e mentindo descaradamente, não invocou o assinante destas linhas os quilómetros e quilómetros percorridos, a fim de obter acesso a um monumento encerrado por falta de pessoal, ou por razões de horário, contemplando depois o cicerone taralhouco com a magra espórtula, equivalente a uma peita! E quão frequentemente não terá sorrido em termos radiosos a minha amiga São, mulher muito bonita, mas péssima condutora, no intuito de que não a multasse por desrespeito aos semáforos o agente sensível aos encantos femininis! Será de recordar aqui, mas entre parênteses, que apenas com suma cautela deverá o automobilista macho comportar-se de igual maneira perante a senhora guarda, isto sob pena de se defrontar com um cúmulo jurídico, o dos crimes diabolicamente engatados, e já sem se referir a contravenção prevista e punida pelo Código da Estrada.

O vil metal, pedra de toque dos ilícitos económicos como a corrupção, o tráfico de influências, o abuso de confiança, a burla, ou o completamento à custa alheia, acabará pois por não configurar necessariamente a moeda de troca. Sabemos o que executou, ou o que consentiu em que lhe executassem, e impunemente, o Presidente Clinton sobre a secretária da Sala Oval, ou encostado a ela, mas desconhecemos a agenda de Monica Lewinsky. E prosseguiremos na ignorância do que, de tão grave, e de tão instante, terá determinado a saída de David Petraeus, director da CIA, o qual, não desempenhando funções de Chefe de Estado, mereceria porventura contar com mais franca tolerância da parte de quem manda, uma elite impoluta, e casta até mais não.

Aquelas "moscas douradas", descritas pelo poeta Shelley, "que tostam num terraço ao calor do sol, e se alimentam da própria corrupção", irão continuar a remexer por aí. Quanto às restantes, as vulgaríssimas, que os pobres de nós humildemente representam, essas sim, acham-se em vias de irreversível extinção.

Idade e Leitura

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O adolescente da longínqua década de cinquenta que tiver lido A 25ª Hora, de Virgil Gheorghiu, obra que na época suscitava enorme êxito internacional, e que não se haja sentido vacinado contra outras experiências ficcionais, constituirá um cidadão de escassa humanidade, ou uma pessoa capaz de superar os seus temores. Primeiro romance do mundo que me chegou às mãos, amaciado já pelos bucólicos afagos de Júlio Dinis, iria transformar-me no leitor incessante que teima em cumprir aquilo que, revelando-se irreprimível pulsão, não deixa de igualmente conformar, e talvez por isso mesmo, encargo a que apenas se subtrai com um vago peso de culpa. Naquelas páginas narrava-se-me o horror dos campos de extermínio nazi, e pintava-se-me o retrato do ser criado à imagem e semelhança de Deus, o qual, quando não pactua ciclicamente com o diabo, o conhece todavia de ginjeira.

A persistência das minhas leituras, atravessando sucessivas estações etárias, oferecer-me-ia uma perspectiva que julgo valiosa, quer do conteúdo das centenas e centenas de volumes que fui desbaratando, quer também, e sobretudo, da simples natureza do acto de ler. E verifico que, se na infância percorria laboriosamente com o indicador as linhas dos contos de Andersen, ou das histórias tradicionais portuguesas, na adolescência derrubava espécie bibliográfica atrás de espécie bibliográfica com velocidade que se me afigura hoje quase miraculosa. E a idade adulta, honrada pelo convívio com Tolstoi e Dostoiewsky, Proust e Musil, Joyce e Virginia Woolf, espraiar-se-me-ia por dilatados momentos de detença num capítulo, num parágrafo, ou numa frase, em busca do efeito, da estrutura, ou da dinâmica, que pudesse aproveitar ao escritor que ia crescendo em mim.

Que matérias ando a frequentar na fase presente, que revisitas promovo, e como me saio de tais empresas? Para além do que me cai em cima, expedido pelos respectivos autores em original, ou em letra de forma, e que procuro acompanhar com a ânsia da nova descoberta, ou com a exaustão da paciência beneditina, gestos que os velhos sempre devem aos jovens, os últimos tempos testemunham em mim o apego crescente ao que galgou o prazo de validade que penaliza os artigos vulgares. Sem contar jornais e revistas, e pequenos achados de circunstância, preencho por exemplo as lacunas na imensa produção de Dickens, de Zola, ou de Melville, enveredo por um Thackeray de que me distraí, e abraço quanta biografia me entra pela casa adentro, isto porque, aí sim, é que percebe um novelista o quanto custa viver.

Mas as releituras a que me abalanço, e em passo mais ou menos de anjo, ou de lesma, bem diverso do que me assistia na juventude, saldam-se amiudadas vezes pelo sabor a decepção. Só os académicos com carta profissional, para quem o prazer da leitura claudica não raro perante a obrigação da autópsia, se manterão imunes a quejando desgosto. E adio entretanto o regresso a Emílio Salgari, receoso de que se me destrua a infância em tão arriscada aventura, e termino cristalizado na Cartilha Maternal, de João de Deus, por onde meu Pai aprendeu a ler, que me parece um livrinho bonito, e muito particularmente na página de abertura, a do A-E-I-O-U.

O estranho caso de Isabel Jonet

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O escândalo suscitado, há dias, por uma intervenção de Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, a exortar-nos à tomada de medidas de poupança como estratégia de combate à crise, desvenda pelo menos um clima de paixão colectiva, prejudicial à serena leitura dos factos. Não ouvi a responsável pelo Banco Alimentar defender o excesso de austeridade a que nos submete um Governo que deu já provas sobejas de incompetência perante a situação a enfrentar, nem sequer deduzi que, alinhada com um cardeal instalado na hierarquia, procurasse ela dissuadir-nos do exercício do direito de nos indignarmos, e da consequente manifestação pública da nossa discordância das desastrosas soluções, propugnadas pelos timoneiros dos destinos pátrios. Assisti porém, isso sim, à reacção destemperada de muita gente, denunciando essa espécie de atávica indolência, sempre pronta a derivar tudo lá de cima, desmobilizando-se de alterar comportamentos cá de baixo. E constatei a persistência da vontade de incorrer em certos vícios, justamente inspirados pelo mesmo consumismo, e pela mesma globalização, que nos castigam agora.

Quem se desejar atento à publicidade que diariamente se pratica, e que não desiste de instigar à aquisição dos artigos mais voluptuários, sugerindo falsíssimas necessidades a que só se resiste com a frustração dos humanos anseios, não deixará de coincidir com Isabel Jonet na preconização de uma disciplina que, não sendo salvífica, logrará revelar-se coadjuvante. Os livros que se vendem por exemplo continuam a ser impressos em excelente papel, ostentando a magnificência gráfica que enche os olhos dos incautos com o respectivo conteúdo, e nunca a embalagem do que quer que seja se mostrou tão luxuosa de fitas e brilhos do que a que nos cai hoje nas nãos, a envolver produtos na aparência sumptuosos, e depressa perecíveis. Qualquer sumária pesquisa do lixo dos portugueses, desaconselhada embora pelas regras da higiene, mas porventura reclamada pela consciência cívica, detectará o que esbanjamos num regabofe de pobres que eternizam a pobreza, e que assim doentiamente pactuam com a cínica indiferença dos ricos.

A pedagogia da poupança, exigida pelos contextos de crise, não substitui, e antes sustenta, a absoluta urgência do protesto nas ruas, capaz de demonstrar que não se circunscreve aos gabinetes o poder de impor, de determinar, e de punir. Bem escutadas, e bem entendidas, as propostas de Isabel Jonet deverão fazer-nos parar por um instante, a fim de prosseguirmos na marcha logo depois.

A Lolita de Garrett

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Quando na noite de 29 de Setembro de 1821, e no Teatro do Bairro Alto onde se estreia a sua peça Catão, o jovem dramaturgo Almeida Garrett avista a adolescente Luísa Midosi, de catorze anos, um exemplo se produz, a acrescer aos já existentes, no rol das celebérrimas paixões entre escritores e ninfetas. Se a idade da que o põe atordoado, e que viria a converter-se em sua esposa, saudavelmente se distancia da que contava Beatriz, oito aninhos apenas, quando Dante cruza com ela nas cercanias da Ponte Vecchio em Florença, nem por isso deixa o incidente de nos proporcionar plena prova, e sem dúvida pedagógica, das oscilações da moda em matéria de ética sexual. A mulher-boneca, cunhando um tipo humano em que à presunção de encantadora inocência se agrega a suspeita da perversidade infantil, andou ocupando na galeria das personagens literárias, e até há pouco, um lugar mais ou menos aceitável, mas que hoje em dia se mira de sobrolho carregado.

Sabemos que o futuro matrimonial daqueles dois, cingidos por um laço de olhares aparentemente indesatável, acabaria por se manifestar convulso ao ponto de se saldar pela ruptura. E desconfiamos de que forma larvar adivinharia o autor de Folhas Caídas semelhante desfecho, isto porém sem conseguir sobrepor-se à ânsia de morder um fruto assim, ainda não completamente sazonado. A pequena Midosi, surgida em toda a frescura da imagem que a indumentária, e os correspondentes ademanes, sobremaneira realçavam, atrairia de imediato o nosso autor a um país das maravilhas onde se dispensava o Coelho Branco, a guiá-lo para a caverna, e a Rainha de Copas, a diverti-lo com as suas malfeitorias. Ali estava ela, vestida de alvas subtilezas, e com um chapéu de cetim cor-de-rosa, diante do adulto embasbacado, e numa época em que por força da lei a mulher se tornava núbil justamente aos catorze anos, e em que à hora do chazinho que antecedia a deita nenhum dos seroantes carreava para a cavaqueira o tema impensável da pedofilia. Muito pode de facto a evolução dos costumes, teoricamente apoiada nos dados das Ciências da Natureza, e nas presunções da Psicologia, mas a verdade é que, uma vez esgotada a empolgante ausência de mácula da Lolita de Lisboa, o que castigaria a criança que lhe exigiam que eternizasse, e perdulária como qualquer petiz estragado de mimos, ficar-nos-ia a memória dela para longa e funda meditação. Seja o que for que entretanto pensarmos acerca da sensatez, ou da crueldade, dos velhos romanos, os quais nesta matéria do comportamento da espécie se limitavam a destrinçar entre púberes e impúberes, mostrar-se-á aconselhável determo-nos aqui.

Já não no coro dos anjos, nem sequer no das virgens, eis que nos contemplará de cima das nuvens a incauta Luísa Medosi, vertendo uma lágrima amarga, ou porque não? uma violenta gargalhada.

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Edição Diária 17.Abr.2014

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