25 de maio de 2013 às 2:33
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900 anos

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Amigos, se tivermos sorte, se o altíssimo assim quiser, se o belzebu cancerígena for pregar para outra freguesia, nós vamos comemorar o 900.º aniversário de Portugal. Em 2043, Portugal vai fazer 900 anos. Este meia-leca à beira-mar plantado vai assim cumprir nove séculos de impertinente soberania. Na ONU, se os países fossem ordenados pela antiguidade, Portugal só seria suplantado pela China e Inglaterra. E se o critério fosse a imutabilidade das fronteiras, então, até os chineses teriam de se curvar perante o ancião tuga. Isto, meus amigos, conta. A idade é um posto. E, reparem, eu não estou a invocar a ladainha manuel-alegrista da 'missão universal'. Nada disso. Estou apenas a falar desta calma serena, desta paz que nasce da simples constatação: estamos aqui há 900 anos. Quando lhe resta um mísero século para atingir um milénio de existência, um país deixa de ser um país e passa a ser uma civilização, essa coisa que funde a história com o mito. E Portugal é uma civilização. Confusa, caótica e suicidária, mas uma civilização.

Esta idade milenar devia encher de orgulho os portugueses. Afinal, não é todos os dias que uma nação atinge esta idade profética, chinesa, bíblica. Ora, se bem repararam, eu escrevi "devia encher de orgulho", e não 'enche de orgulho'. Por que razão fiz isso? Porque os portugueses, na verdade, estão desligados da fundação do seu próprio país. Portugal foi fundado em 5 de outubro de 1143. Sim, não me enganei no dia. Portugal foi fundado num mui medieval 5 de outubro, o mesmo 5 de outubro do golpe de Estado que implementou um regime antidemocrático e violento vulgarmente conhecido pelo eufemismo de 'I República'. Como já perceberam, estas contas querem dizer uma coisa: na terça-feira, Portugal fez 867 anos, mas a nossa elite comemorou os 100 anos de um golpe de Estado.

Ao comemorar o 5 de outubro de uma certa esquerda e não o 5 de outubro de todos os portugueses, a III República está a privilegiar um regime em detrimento do país. E é um absurdo esta coisa de comemorarmos uma ideologia enquanto desprezamos a fundação de Portugal. O país é anterior às ideologias. O país precede os regimes. Os regimes e as ideologias existem para servirem o país, e não o contrário. Ao celebrar 1910 em vez de 1143, a III República está a dizer que Portugal existe para servir a ideologia da esquerda jacobina. Para a nossa classe dirigente, a ideologia da Lisboa carbonária é mais importante do que o país. E isto, meus amigos, é imperdoável. É imperdoável que 16 anos de caos e violência (1910-1926) sejam mais importantes do que 900 anos de história. Imperdoável. Mas, calma, amigos: em 2043, fazemos contas com esta amnésia jacobina.

PS: não, não sou monárquico. Mas também não sou parvo.

"O Poder e o Povo"


Qualquer discussão séria sobre a I República tem de partir de um livro: "O Poder e o Povo" (Alethêia), de Vasco Pulido Valente. Entre outras coisas, esta obra mostra que o 5 de outubro não é o irmão mais velho do 25 de abril, até porque a monarquia não era um salazarismo com rei. Meus amigos, a I República devia ser apenas um objeto histórico, e não uma fonte de inspiração para o atual regime.

Henrique Raposo 

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de outubro de 2010

Comentários 3 Comentar
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900 +- anos
Não é monárquico (será?) e, claro, não é parvo, mas não deveria desconhecer o facto histórico que a fundação de Portugal antecede (e muito) o 5 de Outubro de 1143 que, na realidade, foi a data do RECONHECIMENTO pelo Rei de Leão e Castela, de uma soberania de facto (conseguida anos antes, na prática, pela vitória na Batalha de S.Mamede), e só mais tarde reconhecida internacionalmente, digamos assim, pela autoridade do Papa em 1179.

Curiosamente, já não é a primeira vez que vejo usarem, de forma demagógica, a coincidência da data do dia 5 que, enfatizo, comemora a República, o regime vigente, e não, especificamente o período da 1ª República. (Embora nada contra, a uma possível comemoração dupla nesse dia, mas não vem ao caso no meu comentário)

Ou seja, o seu artigo de opinião não é mais que uma salgalhada de datas e comparações descabidas. E se eu comemoro o 5 de Outubro, não significa que eu (e outros, quem sabe) esteja desligado da história do meu país. Pelo menos, não olho a história com obsessões "jacobinas-socratianas", pois é disso que só se consegue extrair em quase todas as intervenções deste articulista/blogger.
A data da independência
A independência de Portugal, tendo sido evidentemente precedida por vários episódios de carácter político-militar, está fixada em 1143.
Feriado
Não pense mais nisso.
O 5 de Outubro é apenas mais um feriado para a malta e a única preocupação da turba é que não calhe ao sábado ou domingo.
Quanto a mim a elite que celebra o 10 de Outubro não tem importância nenhuma.
Como o 1 de Dezembro ou 25 de Abril, à medida que desaparecem os prejudicados pelo Estado Novo, vai acontecer o mesmo.
Mas esta republica carece de legitimação democrática pois nunca ninguém perguntou ao povo se queria rei ou presidente. Quem acredita na democracia continua à espera do referendo.
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