I. Uma matriz começa a desenhar-se: as presidenciais são o festival Sundance da política portuguesa. Nestas eleições, os chamados independentes conseguem fazer mossa nas produções do sistema. Foi assim em 2005 (Manuel Alegre), foi assim em 2011 (Fernando Nobre). E, para percebermos o espaço que existe para este tipo de candidatura, convém olhar para além dos números destes candidatos. Convém olhar, por exemplo, para os números da abstenção e, sobretudo, para os números dos votos brancos/nulos (um partido muito do meu agrado): 280 mil na eleição de ontem. Este partido branco/nulo é mais importante do que a nebulosa vaga e indefinível da abstenção. Estamos a falar de gente que vai lá dizer "olhem, arranjem-me um candidato em condições"
. Fala-se muito na crise da democracia portuguesa e não sei quê. Desculpem, mas tenho de interromper esse choradinho do costume: estas 280 mil pessoas revelam uma enorme responsabilidade cívica e política de um eleitorado em plena maturidade. Aliás, esta gente consciente e descontente pode ser a base de alguma coisa com a capacidade para abrir uma janela de ar fresco dentro do regime.
II. Não apoiei nenhuma das duas candidaturas independentes. Manuel Alegre não é passível de apoio. Fernando Nobre apresentou-se com o habitual populismo antipolítico. Uma coisa é criticar este regime, uma coisa é criticar estes partidos. Outra coisa, bem diferente, é adotar uma retórica antipolítica, antipartidos.
Mas é evidente que existe aqui um espaço por explorar. E um bom candidato independente pode ir muito mais longe do que Fernando Nobre e Manuel Alegre. Um independente com um discurso político sério (por ex.: um discurso sobre a reforma da Justiça, que não é o mesmo que pedir "prisão para esses bandidos")
pode vencer as eleições presidenciais.
III. Olhando à nossa volta, António Barreto é esse ás de trunfo que nos falta. António Barreto é o senador da política portuguesa. António Barreto pode ganhar a eleição de 2016. Pode, pelo menos, ir à segunda volta com um dos candidatos do regime (Marcelo? Durão? Guterres?). António Barreto é independente, sim senhora, mas não é antipolítico. E isso faz toda a diferença. Em tudo o que diz e escreve, António Barreto apresenta um discurso político irrepreensível. Mais: António Barreto é uma das poucas pessoas que pensa a reforma deste regime, desde as leis eleitorais até à Justiça. Mesmo que não vencesse, uma campanha com António Barreto seria um ato político de grandeza ímpar. Uma janela de ar realmente fresco.