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Delfins + João Pedro Pais = dois meses de prisão

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 16 de maio de 2012

Não vou, nem posso, cingir-me apenas ao gosto musical nesta análise. O título da crónica é por esse facto mera brincadeira. Se o ponto fosse apenas o gosto musical teria de ser honesto intelectualmente e dizer que para mim alguém que anda por aí a partilhar na internet músicas como Queda de um anjo, dos Delfins, Não há, de João Pedro Pais, e Right through you, de Alanis Morrisette deveria ser condenado não a dois meses de prisão (substituída por 280 dias de multa - com a atenuante da idade do arguido -17 anos à altura) e sim engavetado para todo o sempre. Partilhar Delfins ou João Pedro Pais, numa óptica estrita de gosto (ou falta dele), e num país com um regime menos democrático levaria certamente o prevaricador a ser condenado à morte. Ou a ouvir o CD dos Delfins em modo repeat para todo o sempre. O que em termos de resultado é precisamente o mesmo. Morte cerebral.

A minha estupefacção é como esta condenação surge no país dos processos Portucale (onde sai tudo absolvido - suicídio colectivo dos sobreiros?), Casa Pia, Freeport, das aventuras de Madeleine McCann. O Face Oculta. Sá Carneiro que já morreu assassinado e de acidente não sei quantas vezes. A Operação Furacão, a REN, o BPN e o BPP. Os submarinos e as offshore dos grandes bancos privados. Os robalos do Godinho, os Varas e figuras como a Procuradora Cândida Almeida e o senhor Procurador Geral da República (não ia ser afastado?). Este último mandou destruir as escutas do ex-primeiro ministro num dos processos que já citei, pessoa que passeia livremente pelos campos Elísios como se nada tivesse a ver com o lodo que nos rodeia. A Universidade Independente e os seus contornos mafiosos. O caso Moderna. Os casos de Fátima Felgueiras e de Isaltino Morais e de tantos outros autarcas. São centenas. Milhares de aberrações, tropeções, tropelias e fechares de olhos da in(justiça) portuguesa.

Mas calma. Temos boas noticias. O puto que andou a partilhar Delfins teve o que merecia. Foi condenado. Toma lá que é para aprenderes. Jugavas este rapaz que podia andar por aí a fazer pouco das leis e do senhor Miguel Ângelo? Malandro.

 

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14

Euro 2012: animais envenenados e queimados vivos na Ucrânia (vídeo)

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Quinta feira, 10 de maio de 2012

O Euro 2012 está a chegar e os amantes do futebol vão acorrer em massa à Polónia e Ucrânia - países organizadores do evento - que tudo ultimam para que estes sejam recebidos da melhor forma. Até aqui tudo bem, é uma oportunidade única para o país, não fosse dar-se o caso da Ucrânia estar a envenenar, abater e em alguns casos queimar vivos animais - cães e gatos - vadios de forma a encobrir a negligencia, o abandono e a falta de politicas profiláticas no que toca a esta matéria. Factos que seriam por demais evidentes aos olhos dos milhares de turistas que estão a chegar.

Segundo o site da PETA as autoridades de Lysychansk e Mariupol, entre outras cidades ucranianas, estão a usar "camiões crematórios" devidamente anunciados na televisão nacional e usados para o extermínio em massa. Os animais são abatidos ou anestesiados e atirados diretamente para o interior do veículo. Dantesco. Grotesco. O ser humano consegue ser uma verdadeira besta.

O vídeo choca. Não há muito mais a dizer.

 

 

 

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19

Soares é fixe, a troika que se lixe

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 9 de maio de 2012

Não costumo concordar em quase nada com o que o ex-Presidente da República Mário Soares diz, manda dizer, dá a entender ou sequer acena. Não gosto do estilo, detesto os epítetos disparatados de "Pai da Nação", de grande "senador", etc. Acho patético. Até porque se assim é, se o senhor é efetivamente o pai deste cemitério social e económico em que vivemos só tem de se envergonhar por não ter interrompido a gravidez a tempo. Convenhamos que a situação a que chegámos é um aborto vivo. E Mário Soares é tão ou mais responsável do que todos os outros que lhe seguiram as pisadas. Não governou ele com o FMI em Portugal?

Apesar disto, acho que li pela primeira vez uma declaração deste senhor com a qual concordo em absoluto: "Romper com a troika". Rasgar o acordo assinado e que mais não é do que a sentença de morte lenta de um país e de um povo. A execução do memorando assinado com a troika é provavelmente o pior ato de gestão política de que há memória neste país. Não está em causa a intenção, mas o que esta execução (literalmente) acarreta. É suicídio político e assassinato económico-social.

O famigerado memorando tem funcionado não apenas como a subjugação pura e simples de um país aos desmandos de padrinhos alemães e franceses, mais do que expectável, mas como uma verdadeira carta branca para os Governos (PS e PSD-PP) poderem aplicar indiscriminadamente  todo o tipo de medidas de austeridade que visam tapar no imediato o buraco que os mesmo escavaram durante décadas. Execráveis na actuação, os nossos políticos pensam no presente (deles) hipotecando o futuro (nosso). O habitual - nada de novo.

A crise está a ser usada para esconder a incompetência com que este país tem sido e continua a ser gerido. À passagem alienam-se direitos, rouba-se quem trabalha, atiram-se milhares de pessoas para o desemprego e levam-se centenas de milhares à miséria. Sem vergonha ou decoro continuam estes senhores a governarem-se às nossas custas fingindo que nos governam. A crise e a conjuntura parecem servir que nem uma luva à total desresponsabilização.

Este país é uma bomba-relógio e Mário Soares sabe disso perfeitamente. E quando estoirar ele quer estar do lado certo, como sempre. O velho ancião - dirão alguns. Os políticos que temos - digo eu.

 

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29

Os 'Bartolomeus' do futebol português

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Quinta feira, 3 de maio de 2012

O tratamento infame a quem têm sido sujeitos os jogadores do União de Leiria está muito para além do futebol, do desporto e a muitos quilómetros de como deveriam ser tratados cidadãos trabalhadores numa sociedade dita moderna, supostamente livre e aparentemente civilizada.

Estas pessoas, esqueçamos o facto de se tratarem de jogadores, estão a ser sujeitas a uma humilhação que apenas acresce às dificuldades extremas que são a realidade diária com que têm de lidar e para a qual não contribuíram em absolutamente nada. Assinaram um contrato e cumpriram a sua parte. Apenas.

Mantiveram, apesar de tudo, uma postura correta e digna, de uma lealdade para com a entidade patronal difícil de compreender face à indignidade do processo. Num negócio de milhões aguentaram como e o que puderam. Como se sentirá em campo um grupo de jogadores 'de topo' que não recebe salário há meses a fio, defrontando equipas com planteis em que muitas vezes um só jogador ganha mais (num mês) do que estes auferem num ano? (se recebessem obviamente). É isto o futebol português? Esta palhaçada?

A entidade patronal, liderada por um senhor de nome João Bartolomeu - pessoa que não merece qualquer respeito - pese embora não pague aos jogadores desde o tempo em que se jogava sem joelheiras acha-se no direito de enxovalhar e ameaçar na praça pública trabalhadores chegando às raias do ridículo de afirmar que um deles "fugiu equipado com um saco cheio de dinheiro" (6 mil euros - dizia o senhor com ar indignado). Afirmação desmentida prontamente e em comunicado pela SAD do clube que preside (!?). Diz serem "casos de polícia" alguns dos comportamentos dos jogadores. Desculpe?

Ora bem, ou eu não faço a menor ideia do que seja um "caso de polícia" (estava convencido que sim) ou o senhor Bartolomeu (que considero, ele sim, ser um "caso de policia") deveria permanecer calado, virado para a frente envergonhado e provavelmente acusado pelas difamações que tem vindo a produzir em barda e com uma sobranceria aterradora sempre que alguém tem a infeliz ideia de lhe colocar um microfone à frente. E para ouvir porcaria (peço desculpa pelo termo) sabemos que muita comunicação social faz o que preciso for.

É inacreditável o comportamento deste Presidente de clube, da Liga de clubes e da Federação Portuguesa de Futebol em todo o processo. É uma vergonha algo do género acontecer - seja em que sector da sociedade for - mas muitíssimo mais grave num negócio que gera milhões e que sustenta tantos. Eles - os que suam a camisola - deveriam ser os últimos a não receber. Sem eles acaba-se num instante o reinado dos Bartolomeus da vida. Mas sem eles não há futebol.

 

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2

Pingo Amargo

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Quarta feira, 2 de maio de 2012

O episódio 'Pingo Doce' de ontem pode à primeira vista parecer coincidência entre a 'simples' promoção de uma grande superfície agendada para o feriado de 1 de Maio (aproveitando a disponibilidade das pessoas), pode ainda dar azo a brincadeiras/piadas pelo caricato da situação (mea culpa) ou até ser desvalorizado como um facto isolado que foi (até à data no país). Dá para quase tudo. Mas talvez valha a pena aprofundar o assunto.

O que aconteceu ontem está longe de ser uma coincidência e não tem absolutamente nada de simples. Nem na origem nem no resultado. O que aconteceu foi o espelho da complexa revolução social que se está a passar neste país desmembrado por uma profunda crise económica e sucessivos governos incompetentes. Um grande grupo recorreu a uma campanha completamente irresistível nos dias que correm. As pessoas, que (sobre)vivem num nível de vida cada vez mais degradado, desesperadas em algumas situações, acorreram às lojas de uma forma avassaladora.

Foi de tal forma avassaladora a corrida que o grupo económico em causa decidiu recuar e fechar as lojas algumas horas antes do previsto, quando incidentes lamentáveis começaram a ocorrer no interior das várias lojas espalhadas pelo país. Lamentável. Estúpido. Amargo.

O oportunismo imoral do grupo jerónimo Martins foi óbvio e roça a ilegalidade, mas sinceramente o que preocupa e dá verdadeiramente que pensar são os sinais sonoros - estridentes e evidentes - que toda esta situação emite e que assustam. Aflige-me a indignidade. A perda completa da racionalidade de tantos ao mesmo tempo e o recurso aos comportamentos mais primitivos na proteção de algo que tem a ver com a subsistência mais básica. É atroz. Fere. Magoa. Não deveria ter acontecido. Não deveriam as pessoas nunca em tempo algum ser colocadas nesta posição.

Se o governo mais uma vez fechar os olhos ao que se passou ontem faz mal. E faz mal porque este sinal de alarme social é mais do que claro em relação ao que ainda está para vir. Ontem, a luta dos indignados pelos direitos adquiridos entretanto perdidos não se fez nas ruas como seria de prever, nas diversas manifestações marcadas por esse país fora. Ontem, a luta foi feia e fez-se no Pingo Doce. E quem não vir isto é cego. 

 

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52

Passos Coelho e os Bicos

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 27 de abril de 2012

Quer-me parecer que está na altura do senhor primeiro-ministro e as tropas que instalou no governo descerem à terra de uma vez por todas.

Deixo-lhe por isso, se me permite, uma sugestão: vá à aldeia de Bicos. Vá e disfrute. Veja com os seus próprios olhos. Contemple o país real sem a calculadora na mão e o memorando da Troika no pensamento. Não o país de que o senhor, o seu ministro enervantemente monocórdico ou o economista de Vancouver insistem em falar e que eu, e estou certo que não estou sozinho nisto, não consigo vislumbrar. Não reconheço. Não sei que Portugal é esse. Começo a achar que em São Bento há um Portugal privado num dos jardins onde os ministros brincam felizes aos países. O seu Portugal não é o meu - claramente.

Na deslocação à aldeia de Bicos, por motivos de trabalho que nada tem que ver com este blogue, tive a oportunidade de conhecer o presidente da junta. Trata-se da junta de freguesia mais interior do concelho de Odemira. Este senhor (este sim um senhor) é presidente de uma das juntas que estou certo que o seu governo mais cedo ou mais tarde irá aniquilar. A bandeira preta lá estava pendurada -  na sede - demonstrando a solidariedade para com as juntas cujo destino está traçado.

Este senhor, a quem tiro o meu chapéu, conduz ele próprio na carrinha da junta os miúdos à escola e os idosos ao centro de dia. Todos os dias, com um sorriso na cara, faz muito mais do que aquilo que aqueles que o elegeram alguma vez ousavam exigir-lhe. É um político. É o político. É um exemplo. Ele, com as suas próprias mãos ajuda a enterrar os que falecem na aldeia porque não há dinheiro para pagar a um coveiro. O anterior reformou-se e não há verba que permita contratar alguém que o substitua.

Agora pergunto-lhe: quem vai fazer este serviço meritório que é muito, muitíssimo mais do que público, é verdadeiramente humano. É altruísta. Verdadeiramente incrível. Vai ser o Dr. Miguel Relvas? Esse poço de sensibilidade. Por isso, e porque acho que lhe fazia bem esta conversa de "coveiro para coveiro", passe pelos Bicos e pode ser que se faça luz nessa cabeça sem que a EDP se apresse a vendê-la aos chineses. Este é que é o país real. O país que os senhores não conhecem de parte alguma. Isto é Portugal. 

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12

Manuel Moura dos Santos avalia júri dos ídolos (não foi mas podia ter sido)

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Terça feira, 24 de abril de 2012

Gostava de ouvir Manuel Moura dos Santos, membro residente do júri no programa ídolos, a avaliar a performance dos restantes membros do júri e dele próprio. A julgar pelo que tenho assistido, e atrevendo-me ao exercício obviamente exagerado, a coisa devia ser mais ou menos assim:

Pedro Abrunhosa: "Olha Pedro tu não cantas nem muito nem pouco, tu não cantas nadinha. Aliás tu nem tentas sequer cantas pá! Tu falas e pensas que cantas. Até podes compor muito bem mas a cantar és um zero. Já tive um gato que cantava melhor que tu e passava a vida com um daqueles funis na cabeça. Tem juízo e não largues a escola. És um zero à esquerda. E essa cena dos óculos é para quê? És ceguinho? Surdo deves ser. Para o estilo? Só se for das barracas pá! És pouco azeiteiro és ... Vá, sai lá daqui que eu só de estar a olhar para ti já me estou a sentir cheio de gases. Baza."

Tony Carreira: "Olha Tony não sei se percebeste mas isto é um concurso Pop. E tu tens tanto de Pop como eu tenho de Tina Turner. O teu sonho é encher o pavilhão Atlântico? "Epá ca granda cromo que tu me saíste". Lamento desiludir-te mas nem o pavilhão dos bombeiros da tua terra conseguias encher a cantar desta forma. A não ser que tenhas uma família grande e que eles não tenham amor ao dinheiro.  Por falar em família, não sei se tens filhos ou pensas ter mas faz-nos um favor e afasta-os da música. É que uma desgraça nunca vem só. E tira essa camisa pá. Pareces uma alface. Estou aqui a morder-me todo para não ir aí com meia dúzia de tomates chucha, pendurar-tos no pescoço, regar-te com vinagre balsâmico e morder-te todo. Estou há horas a ouvir desgraças e nem uma sandes de atum me trazem. Por acaso não trazes aí uma morcela de carne no bolso?"

Bárbara Guimarães : "Olha Bárbara tu és muita fraquinha pá. Tens boa presença, um bom cabedal, mas uma voz pequenina e não é por rires muito, fazeres esse espalhafato todo e estares sempre a fazer boquinhas que te safas. Pelo menos comigo. Olha a música não se pega por osmose. Até podias ter apresentado um programa sobre música, casado com um melómano e ter andado a passear pelas capitais da música clássica com um maestro em carne e osso que não fazia de ti expert na matéria. Até porque se o Mozart aparecesse aqui eu mandava-o pastar em dois minutos. Ele é tudo menos Pop Star. É um badameco armado em músico com uma cabeleira branca e caracóis. Sempre o achei um bluff."

Manuel Moura dos Santos: "Olha Manel entraste ali naquela porta com esse arzinho arrogante e topei-te logo. Já vi muitos tipos como tu. Armados em campeões, sabem tudo e não têm nada a aprender e depois nunca passam da cepa torta. Este programa não é para ti. Esquece. Dedica-te à pesca e faz dieta que bem precisas. Dizes que conheces muito bem o mundo da música e mais não sei o quê mas uma coisa te garanto: já ando aqui há muitos anos e tu não percebes patavina disto pá. Nada. Pevide. Zero. Nicles."

 

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8

Na mais profunda solidão

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 20 de abril de 2012

100 reféns - Na mais profunda solidão

Ana e o Quintal da Solidão


Apoiada em quatro braços enfadados
Percorre o linóleo frio dos corredores.
Cabeça baixa, vergada pela vergonha
Peito ferido que sangra mil dores.

A agilidade de uma cadeira tosca
Um corpo frágil num quarto de cave escura
Olhos arregalados, congelados no vazio
Desaprendeu uma alegria tão pura

Uma vida sem horas
Mil horas sem vida.
Ana existe a odiar-se
Presa numa identidade perdida.

Amou as flores como poucos
No seu quintal de ilusões.
Falava como a filhos entre acordes de viola
Longe das impuras multidões.

Ana perdeu a Ana
O quintal perdeu a sua mais bela flor.
Que triste solidão
Que labirinto de dor.

Tiago Mesquita - 2012 - Entre o Sono e o Sonho - Vol. III - Antologia de Poesia - Chiado Editora 

(Este poema nasceu de um texto publicado aqui no Blogue 100 Reféns no dia 6 de Janeiro de 2011 - fica o link: http://expresso.sapo.pt/ana-e-o-quintal-da-solidao=f624314 )

 

Reclamações, considerações e recomendações, aqui: 100refens@gmail.com

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4

Sinto muito: enganei-me na rotunda e acabei o dia a matar elefantes

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Quinta feira, 19 de abril de 2012

Se o assunto não fosse sério teria achado graça à forma sui generis como o Rei Juan Carlos, meio apardalado, se saiu ontem ainda no hospital, com um "sinto muito, enganei-me e não voltará a acontecer" ( a sério?Ninguém diria...) para tentar de alguma forma amenizar a revolta que se gerou em torno deste infeliz "episódio".

A pergunta que se impõe é esta: pediu perdão pelo quê, efetivamente? Este pedido (tão genérico) é dirigido ao povo espanhol por (supostamente) ter gasto dinheiro do erário público para divertimentos sádico-privados (em plena crise económica), aos elefantes em geral por ter participado no seu abate cobarde promovendo a estupidez que envolve este género de atividades, ao comum dos mortais (independentemente do país, raça, credo ou orientação política) que se mostraram (e foram tantos) profundamente indignados ou ainda, e finalmente, um perdão por ter sido apanhado e, inevitavelmente, não poder continuar a fazer aquilo que tanto parecia apreciar - dar uns tiros na bicharada selvagem de vez em quando?

Desculpem, perdi-me ali nas Puertas del Sol depois de comprar umas pantufas de pelinho e enfardar dois montaditos e acabei no Botswana de arma na mão com um elefante morto nas costas. Assustei-me, dei um tombo e parti-me todo. É isto? Vou comprar um GPS e nunca mais volta a acontecer. Palavra de King!

Seja o pedido de que formato for, eu, como ser humano, não o aceito. E se alguém conseguir, em consciência, fazê-lo, dou-lhe os parabéns pela humanidade (ou falta dela). Não sei bem definir isto. Estamos a falar de uma pessoa de 74 anos que, goste-se ou não do estilo, continua a ser o chefe de uma casa real europeia. Pessoa que deveria ser um exemplo para quem o admira, respeita e sustenta e não comportar-se como um garoto de cinco anos que fez um disparate no recreio da escola e que envergonhado por ter sido apanhado ( e só por isso) , se sai com um sintético e inóspito "sinto muito, enganei-me e não voltará a acontecer."

Mais um tiro, agora em cheio no pé - como o neto.  

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12

Uma pena o Rei de Espanha não ter partido a tromba

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)
8:00 Terça feira, 17 de abril de 2012

Depois de ver a fotografia infeliz do rei Juan Carlos ( aparentemente feliz em 2006), de caçadeira em riste, com um elefante morto atrás de si com a tromba dobrada  e colocada propositadamente - em jeito de troféu - de encontro a uma árvore, o mínimo em termos de sofrimento que desejo a este senhor são as múltiplas fracturas na anca a que teve direito ao cair de rabiosque no chão, há poucos dias, em pleno acampamento de caça grossa. Por mim podia ter partido a real tromba, ser atropelado por uma manada de elefantes em fuga ou servir de entrada à ceia de meia dúzia de leopardos. Dormia (eu, e não o rei) bem mais descansado.

A proprietária do acampamento onde Juan Carlos deu o tombo - a empresa Rann Safaris - cobra milhares para que este tipo de pessoas goze com a vida, neste caso regozije com a morte, imputada de forma facínora e cruel a diferentes animais selvagens que têm oportunidade nula de se defenderem. É caso para perguntar: quem é o selvagem, o elefante ou o rei? Cobarde. Um verdadeiro nojo.

A mesma empresa oferece pacotes de diversão/massacres selvagens que vão de safaris de 14 dias para caçar elefantes no Botswana ao preço de 59.500 dólares, 14 dias de safari para caçar leopardos por 46.900 dólares ou ainda 14 dias para caçar búfalos a 29.120 dólares. O rei nuestro hermano parece adorar este tipo de pacotes pois figura numa outra foto divulgada de espingarda na mão junto ao corpo já sem vida de dois búfalos. Haja dinheiro (crise? o que é isso?), falta de humanidade e sobretudo excesso de estupidez. Curiosamente, ou não, poucos minutos após a publicação desta informação a página principal da Rann Safaris foi bloqueada : 'This Account Has Been Suspended'.

Até há algum tempo achava que as famílias reais europeias mantinham a função (paga e bem pelos contribuintes dos países que ainda sustentam esta pândega)  de animar os súbditos com historietas de faca e alguidar, imbecilidades, debilidades, escândalos e disparates. Mudei de opinião: esta gente não serve para rigorosamente nada.

Brigitte Bardot, em carta aberta ao rei de Espanha, foi clara: "É indecente, repugnante e indigno de uma pessoa com a sua responsabilidade. Você é a vergonha de Espanha". Nada a acrescentar.

 

 

 

 

 

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