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10 perguntas a... por Inês Meneses

Filipe Alarcão: “Na natureza tudo parece estar no sítio certo”

Filipe Alarcão é designer e autor do projeto expositivo da nova Casa Ásia — Coleção Francisco Capelo, que abrirá portas no Palácio de São Roque, em Lisboa. Formou-se na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e na Domus Academy de Milão. É coautor do Museu de Arte Contemporânea de Elvas

FOTO ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

O que procuras quando entras num espaço?
O conforto. O conforto num espaço revela-se através de muitos pequenos pormenores, como a sua escala, a luz, a combinação de materiais e cores, a acústica ou a temperatura.

O menos continua a ser mais?
O menos será sempre mais. O projeto é um processo evolutivo de reflexão e de análise, onde se vão acrescentando ‘camadas’ sucessivas, até se chegar a uma solução final. Este processo implica um exercício contínuo de depuração, eliminando o supérfluo de cada camada e assim “abrindo caminho” para a próxima.

A indústria não está refém da ‘visibilidade da marca’?
Nem sempre a indústria depende de uma marca para existir, nem uma marca implica a produção de algo concreto, tangível, mas quando estas duas coisas se conjugam de uma forma desequilibrada, a indústria fica refém da marca, cristaliza-se, perde a capacidade de se transformar e de inovar.

O talento ainda triunfa sobre o mediatismo?
Vivemos numa época de (i)mediatismo. O talento precisa de tempo para, primeiro, se revelar, e para de seguida se consolidar. Contudo, nas contas finais, acaba justamente por triunfar.

Que imagem te vem à cabeça quando te dizem ‘elegância’?
Associo a elegância a uma ideia de harmonia, de coerência estética. Apesar de banal, a imagem que de repente me ocorre é uma paisagem. Na natureza tudo parece estar no sítio certo.

Ainda temos dificuldade em assumir a beleza como essencial na vida?
Pensamos em fatores quantitativos para definir a nossa qualidade de vida, esquecendo tudo aquilo que é dificilmente mensurável. Organizamo-nos dentro de um “planeta Excel”, esquecendo como a beleza é um valor civilizacional imprescindível.

De Milão que ensinamentos trouxeste?
As barreiras geográficas existem sobretudo na nossa cabeça e não temos de ficar agarrados a um sítio só porque foi aí que crescemos e estudámos.

Esteticamente o país ainda está muito disperso?
À partida, a dispersão pode não ser má. O problema é que ainda não existe uma verdadeira cultura da cultura, qualquer coisa assumida como um valor identitário e reconhecível por todos, uma exigência de qualidade e rigor estético que se revele em todos os atos, criativos e não só.

Trabalhamos para ser lembrados enquanto profissionais ou pessoas?
Acho que trabalhamos como respiramos. Se o fazemos de um modo honesto, não pensamos como vamos ser lembrados. Na verdade, nesse momento somos pessoas e somos profissionais.

O que é que o dinheiro não compra?
Recuperando algumas das tuas questões, penso que o dinheiro não pode comprar o verdadeiro conforto, a elegância e a beleza.