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10 perguntas a... por Inês Meneses

Ricardo Dias Felner: “Nada substitui o prazer da comida na boca”

Ricardo Dias Felner, jornalista e desde há uns anos, ‘O Homem Que Comia Tudo’. Foi diretor da “Time Out”, passou pela “Sábado” e pelo “Público”. Rendido à gastronomia com crítica regular e blogue, está para breve o curso em que ensina a comer e a escrever sobre isso: papasnalingua.com

TIAGO MIRANDA

Quando é que falta apetite ao O Homem que Comia Tudo?
Quando vê cenourinha ralada num prato. A cenourinha ralada é, simultaneamente, a maior praga e o maior desperdício da restauração portuguesa. Ninguém come aquilo mas ela está por todo o lado.

Já ultrapassámos o voyeurismo do ‘mais olhos que barriga’?
Ainda não. O Instagram está em grande e simboliza isso. Eu gosto de comer com os olhos, adoro food porn. Mas nada substitui o prazer da comida na boca.

É mais fácil escrever sobre bons fígados ou José Sócrates?
É difícil escrever bem sobre ambas as coisas. Os bons fígados, que para mim são de vitela, têm a vantagem de não te telefonarem à meia-noite aos gritos, por causa de uma notícia.

O jornalismo, tal como o conheceste (e alimentaste), já não se repete?
Talvez se venha a repetir, mas hoje em dia a comunicação social não está a conseguir cumprir uma das suas funções essenciais: informar, com independência, sobre o estado da democracia. Não há nem dinheiro nem autonomia nem tempo.

Passámos a olhar para os números em vez do talento?
Olhar só para os números é um erro e, sobretudo, um aborrecimento.

Ser foodie é diferente de ser um bom garfo?
Um bom garfo come muito e conhece todos os restaurantes, sobretudo de comida tradicional. O foodie está num estádio mais avançado da patologia. É aquele tipo capaz de discutir durante duas horas se o melhor macarrão do mundo é o do Pierre Hermé ou o da Ladurée.

O que falta à restauração portuguesa?
Bom serviço. Os restauradores modernos investem em decoradoras, em chefes, mas deixaram de apostar na pessoa que fala contigo e te serve a comida. Como se diz no meio, os restaurantes já não têm empregados de mesa, têm acartadores de pratos.

José Quitério fez escola num tempo em que não havia Instagram. Às vezes não é cansativo ter ‘a papinha toda feita’?
Acho que o José Quitério fez menos escola do que deveria, infelizmente. Contam-se uns dois ou três críticos e órgãos de comunicação social (o Expresso é um deles) que levam a crítica gastronómica a sério e fazem um esforço de isenção, pagam as refeições e passam como um cliente anónimo, como ele fazia.

Na crítica (gastronómica) que existe não há demasiada subserviência aos chefes?
Sim, acontece muito. Às vezes, pensa-se primeiro no que o chefe vai achar e no risco de as borlas acabarem, e só depois no compromisso de verdade para com o leitor.

Qual foi a melhor coisa que comeste esta semana?
Foi uma cavala com um creme de acelgas, no restaurante Prado, em Lisboa. Do catano!