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10 perguntas a... por Inês Meneses

Júlio Resende: “Muito antes do Jazz houve a música clássica”

Júlio Resende, o pianista de jazz que tocou Amália em 2013. Iniciou uma colaboração com Salvador Sobral, no projeto Alexander Search. Tem percorrido o país em concertos com o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz com quem gravou o disco “Poesia Homónima” (poemas de Eugénio de Andrade e Gonçalo M. Tavares). Concorreu este ano ao Festival da Canção com Catarina Miranda

josé caria

Às vezes com as teclas és um pugilista?
Não. É preciso deixar que seja a música a bater-nos. Não há música onde não corre sangue.

O que aprendemos com a música, quando a aprendemos a tocar muito cedo?
Que nenhuma vida chega perante o imenso, e que perante o imenso deves ser humilde, ousado, e que a tua maior alegria será faltar-te sempre algo por fazer.

Qual foi o dia em que percebeste que havia mais além do Jazz?
Muito antes do jazz houve a música clássica, o Elvis, o Duo Ouro Negro, o Bryan Adams, e o ‘Can't Buy me Love’ dos Beatles. E o espaço desta entrevista não chega para dizer o que houve durante e depois.

O palco pode dar-nos uma dimensão errada da vida?
Sim, bem dito, bem feito. Estou sempre a cair nesse erro de julgar a parte pelo todo e não querer sair de um lugar mágico qualquer onde tudo parece estar em harmonia, mesmo quando estamos todos juntos a tocar o acorde errado.

Numa parceria (como num casamento!) saber ceder é a base do entendimento?
Sem dúvida! Custa muito, dói-me, mas nas vezes que consigo sabe-me bem ver que aumentei a flexibilidade, como um bom ginasta. Mas a minha mulher é campeã olímpica. Eu ainda não passei dos mínimos.

Que encanto descobres de cada vez que te sentas ao piano para tocar com Salvador Sobral?
Que tenho uma grande sorte na vida. E que tenho um coração para lhe dar, de várias formas, desde o momento em que decidimos tocar juntos e sobretudo sermos amigos. E ele tem dois. (Risos)

O Festival (da Canção) deste ano foi moldado à imagem dele?
O Festival não. Talvez algumas canções tenham padecido dessa influência, mas é natural por agora. Será apenas mau se não soubermos que para vencer será preciso não querer ser o Salvador nem a Luísa. Será preciso apenas ser.

Descobriste o que quer o público?
Não. Quando o descobrir acabo finalmente o curso de Filosofia que só acabei na universidade.

Nenhuma técnica chega quando se põe o coração na entrega?
Nenhuma técnica substitui o instrumento sonoro mais importante do teu corpo.

A poesia seria ainda assim insuficiente para te ligar a um homem como Júlio Machado Vaz?
Sim. Foi preciso que ele tivesse coragem para enfrentar os desafios que lhe coloquei e que no fim o veja a divertir-se com isso.