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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Raquel Soeiro: “A minha maior profissão é ser mãe”

Raquel Soeiro, uma das cinco protagonistas do livro “Filhos da Quimio”, do jornalista Nelson Marques, é a mulher que ilustra a capa. Descobriu durante a gravidez que tinha cancro da mama

foto António Pedro Ferreira

Como se finta o medo?
De frente com um sorriso. “Nunca sabes quanto és forte, até que ser forte é a única opção que tens.”

O cancro traz muitas perguntas sem resposta. Também andaste à procura delas?
A busca foi incessante, horas e horas em busca de uma luz, uma frase que dissesse: fui tratada enquanto estava grávida. Acabei por encontrar uma mãe no Brasil que foi tratada.

Consegues perceber o estigma em relação à doença?
Não, não consigo entender o estigma que cada doente oncológico impõe a si mesmo, a situação já é por si complicada e delicada, é preciso que se fale abertamente sobre isso, é preciso que os médicos facilitem o acesso à informação, é necessário que se interessem em ter pacientes informados.

Viver a alegria da maternidade e a angústia da doença. E no fim de cada dia, um saldo positivo?
Sempre, nunca houve tempo para pensar no pior, o foco e a fé eram demasiado grandes para que o saldo não fosse sempre positivo. Ter duas equipas em países diferentes a trabalhar e a colaborar juntas não podia nunca ter um mau significado.

Estavas no Dubai quando descobriste. Precisaste de voltar a ’casa’?
Apenas por uma questão de logística, e também para que a família pudesse ver que estávamos bem, focados no objetivo final (e senti-me mais à vontade com a equipa cirúrgica de cá).

A aproximação de um médico ao doente não garante a cura, mas ajuda muito?
Ajuda muitíssimo! Sem um não existe o outro, acredito profundamente que o prognóstico possa ser muito diferente sempre que existe confiança e abertura entre ambos.

A feminilidade fica abalada durante o processo?
Nunca, senti-me sempre muitíssimo feminina, mesmo de cabeça rapada, nunca deixei de me sentir feminina e sexy. É preciso que também a pessoa do outro lado nunca deixe de nos admirar, elogiar, e, não é a tarefa mais fácil, disse muitas vezes ao meu marido: deves amar-me mesmo muito, acordar ao lado de alguém, careca, grávida e com um ar absolutamente de cadáver, é preciso a sua dose de coragem.

Redefiniste prioridades?
Absolutamente! Prioridade máxima: viver e ser feliz, tudo o resto é secundário.

Mudar de profissão foi uma delas?
A minha maior profissão é ser mãe e disso não me arrependo nem um segundo.

Qual é a primeira imagem do nascimento da tua filha?
Foi tudo muito rápido, mas a primeira imagem foi dela no meu colo, muito quentinha, chorava imenso, teimava em não me deixar vê-la porque enterrava a cara no meu peito. É um momento que jamais esquecerei, as saudades são imensas e foi vivido de forma profunda. Jamais o cancro foi uma palavra negativa, como podia, se tinha comigo a melhor das palavras, uma filha.