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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Sebastian Filgueiras: “O rio é uma autoestrada líquida”

Sebastian Filgueiras é argentino e abriu em Lisboa os restaurantes 
Buenos Aires e, mais recentemente, Companhia Portugueza do Chá

Sebastian Filgueiras é argentino e abriu em Lisboa os restaurantes 
Buenos Aires e, mais recentemente, Companhia Portugueza do Chá

JOSÉ CARIA

O que te fez ficar em Lisboa?
Uma beleza impossível de definir. Uma beleza impossível de acreditar. Uma beleza impossível de suportar.

Também são os estrangeiros que estão a fazer deste país melhor?
O país é que está a fazer melhor aos estrangeiros (também).

O que há em comum entre o Tango e o Fado?
Nem o fado nem o tango existem. É isso que têm em comum. Não há cidade que não tenha os seus próprios fantasmas. Os bairros operários, as boas famílias, o rufia, o poeta, o clube associativo, as quermesses, a sensação de falha, de perda. Quando o fado diz ‘xaile’ sentimos ‘abraço’.

Há quem diga que Buenos Aires e Lisboa têm uma ‘essência’ idêntica. Concordas?
Eu muitas vezes digo que são parecidas, que somos parecidos, mas é só por educação. Quando encontramos as pessoas, não temos tempo para falar, que é das coisas mais demoradas de fazer. A minha casa é um perfeito exemplo de como não somos parecidos sequer. A paisagem citadina sim: a luz, o azul, o rio que tudo leva mas que também traz. O rio é uma autoestrada líquida.

Já conhecias antes a palavra ‘Saudade’?
Não, não conhecia, é uma palavra extraordinária. Como não sou português, nem sei bem o que é. As palavras são como espelhos, reflexos, cintilações, sangue do poeta. Sentirei eu a saudade?

Falta ‘chá’ aos portugueses?
Eu quero que sim! Que vos falte sempre e que o reencontrem. É um velho amor. Chá e portugueses é como portugueses e chá: levam-no com a mesma distância e sobriedade com que levam quase tudo, como uma joia esquecida. Uso e pertença.

Quem atrai a Companhia Portugueza do Chá?
Os portugueses são os nossos clientes, sem dúvida. Compram em quantidades, muitas vezes esgotam um produto, há quem faça reserva antes de chegar. Muitos vêm todas as semanas, contam-me histórias incríveis das suas casas... Fenomenal.

Tornaste-te uma espécie de escanção de chá?
Fiz uma formação em tea sommelier. O chá tem uma educação sensorial, um modo de ser selecionado, apresentado. Há um lado muito profissional neste métier que é fundamental, depois a sensibilidade e a experiência têm de fazer o resto. É um trabalho de muitos anos.

Que memória queres passar à tua filha da Argentina?
Inês! Que pergunta! A mais importante e difícil de todas, e não tenho resposta! Todos os dias, no silêncio da manhã, pergunto-me como vou fazer. Formulo mil fórmulas que jamais empregarei, contemplo o fumo que foge da chávena: o que é que ela descobrirá?

Os chás não são para todas as horas?
Ah, não! Não queres inscrever-te num workshop nosso?