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10 perguntas a... por Inês Meneses

Anabela Baldaque: “O que se sente vai além dos olhos”

Lucília Monteiro

Anabela Baldaque trabalha há mais de 30 anos em moda. Romântica e sonhadora no vestuário que desenha, foi um dos nomes da ModaLisboa, que agora alinha pelo Portugal Fashion

Tudo o que já nos pareceu frívolo é hoje muitas vezes alicerce da nossa autoestima. Aconteceu com a roupa?
Claro que sim. A roupa tem muito poder. A autoestima também se serve da roupa.

O que mudou no mercado 30 anos depois?
Mudou imenso em 30 anos. Temos uma Europa aberta e comunitária .Temos divulgação para o mundo inteiro. Fazemos chegar o nosso produto em poucos dias a qualquer local do mundo. E a moda de autor tornou-se para muitos um prazer de vestir.

O país não é pequeno para que os criadores se dividam entre o Portugal Fashion e a ModaLisboa?
O país é pequeno em área, mas grande na diferenciação. É bom que a capital de um país possa ter na sua agenda cultural um excelente certame de moda. Por outro lado, o Porto não pode deixar de ter um evento ligado à moda: temos uma tradição têxtil fortíssima e sabemos fazer, somos criativos. Os dois são mais-valias para o mundo.

O estilo somos nós que o fazemos?
O estilo é algo como o ADN de cada um — temos o nosso, e ele deve ser natural, deve estar no sangue.

A atitude precisava de ser mais cultivada mas tememos o olhar do outro. Será isso?
Concordo. Tememos o olhar do outro: temos de ser todos iguais. Estou à espera que este conceito mude. Trabalho para isso.

Qual é o segredo da intemporalidade?
A qualidade. A qualidade do desenho, do equilíbrio, da proporção, da harmonia...

Há muita beleza naquilo que não se vê?
Claro que sim. O que se sente vai além dos olhos.

Continua a haver lugar para o sonho em cada peça que desenha?
Sim, as minhas peças dão muito espaço ao sonho. São por vezes quase naïfs, porque têm inocência... parecem viver no país das maravilhas, como a Alice. Isto acontece porque gosto de criar histórias leves e delicadas. As coleções de inverno (até pela matéria-prima) incorporam menos sonhos, são mais afirmativas e normalmente são mais divertidas.

Quando é que a vaidade passa a ser um defeito?
Quando há muitos espelhos em casa.

Os homens ainda são pouco arrojados com o que vestem. É uma questão cultural ou de preguiça?
Julgo que é apenas medo.