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10 perguntas a... por Inês Meneses

Margarida Marinho: “O mundo é outro todos os dias”

Margarida Marinho, atriz, mãe de dois filhos, editou recentemente “Tattoo — De Noite, Um Cavalo Branco”, um regresso à infância num livro para os mais novos em que os adultos também podem sonhar

António Marinho

A idade ideal para ser mãe é aquela que escolhemos?
Sim, preparei-me para o rebentamento das águas e das emoções, mas não para o mistério de ser ‘mãe de’, independentemente da hora astrológica.

Escreveste uma história que quiseste contar à tua filha?
Escrevi um romance que roubei à minha biografia e à biografia dos adultos em volta para o reenviar às crianças (provavelmente fui amiga do Robin dos Bosques numa vida passada).

A capacidade do sonho nunca desaparece?
Esta coisa que nos ‘anima’ (que não é somente um chip que se aloja na cabeça, atrás dos olhos, e a que chamamos eu), voa sem dono além do espaço e do tempo que julgamos controlar.

A vida encarrega-se de nos surpreender quando estamos disponíveis para a surpresa?
Quando julgo estar preparada para o novo, tropeço nas palavras, saio magoada de uma conversa a dois, fraquejo com uma contrariedade, etc. e tal. Moral da minha história: a insatisfação é que já não é uma enorme surpresa.

Já se ouvem mais e melhor as vozes das mulheres?
Raramente as solistas se fazem ouvir fora da orquestra. Mas a nossa casa é o nosso primeiro palco. E é aí que se aprende a falar sem perder a razão.

Em relação ao assédio, corremos o risco de policiamento excessivo ou nunca é demasiado?
Se é assédio então falamos em abuso de poder e perda de direitos para alguém, logo, todo e qualquer ato deve ser repudiado e denunciado (no feminino ou masculino). Ainda é preciso recordar os limites das liberdades e dos direitos individuais? Pelos vistos sim. Mas atenção, ‘sedução’ e ‘flirt’ não podem, nem devem, entrar na discussão pública quando se fala de assédio sexual. Entre nós e as palavras tem de haver clareza.

As histórias de encantar eram tão formatadas e moralistas. Nem sabíamos que as podíamos questionar. O mundo é outro?
O mundo é outro todos os dias. Que o digam os nossos filhos. Mas as histórias infantis também nos ensinam a sonhar. Que nos digam os nossos filhos.

Como dás a volta a uma deceção?
Viver uma deceção e não aprender nada é tão inútil como ignorar certas palavras só porque as utilizamos raramente. Acredito que uma deceção encerra uma lição. Isto de ‘ir à escola’ é para todo o sempre.

Há amores à primeira vista ou eles requerem longa escuta?
Sim, é a única ilusão que é real para mim. Mas, até para esta coisa, temos de estar atentos à música para reconhecer a mesma vibração.

Em cada papel que agarras encontras um novo fôlego?
Procuro sempre ressonância, por um lado, e o oculto, por outro. É maravilhoso nadarmos para fora de pé sem atacadores.