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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Tiago Pereira: “As pessoas só gostam do que conhecem”

Tiago Pereira, realizador. O homem da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. Filho de Júlio Pereira, Tiago organiza dia 21, em Monforte da Beira, À Nossa Beira, um piquenique musical aberto a todos

João Lima

O país já começou a gostar dele próprio?
As pessoas só gostam do que conhecem. Portugal começa a conhecer-se mas ainda lhe falta muito autoestudo. É preciso olhar para dentro e perceber que ainda estamos mais perto dos blues do que da nossa avó que canta enquanto cava na horta.

Há gente que chama à sua terra “terrinha”, como se ainda se envergonhasse do sítio de onde vem. Há pazes para fazer?
Há muitos preconceitos ainda com o lugar onde se nasceu e com as raízes. As coisas vão mudando e eu em relação à música tento nivelar isso e quebrar hierarquias e preconceitos.

Os cantares foram (são) a terapia do povo?
O cantar alivia as penas e as mágoas do coração (cantava a Adélia Garcia e antes já cantava a mãe dela). O cantar sempre serviu para as pessoas se distraírem e para o tempo passar. É preciso recuperar isso de se cantar para si próprio.

Família também é aquela que se vai cruzando no nosso caminho?
É a que te toca, a que te faz pensar, a que te coloca perguntas e que te ajuda a perguntar.

Há no teu trabalho uma homenagem inconsciente ao teu pai?
Talvez não exatamente ao meu pai, mas a um tempo, a uma fase deste país, onde fervilhavam as ideias e o convívio, onde a arte popular se discutia e as pessoas falavam do trabalho da Rosa Ramalho e do Mistério e davam importância ao barro figurado e ao surrealismo popular e almoçavam das 4 da tarde às 4 da manhã. Acho que é uma homenagem a essa forma de vida.

Andas a fazer um arquivo que é na verdade um imenso ‘bilhete de identidade’ do país?
Ando a fazer um possível bilhete de identidade do país, com o que sou, com os meus afetos, com as pessoas com quem me cruzo, com o meu método. Ando a fazer a minha caderneta.

Quem eras antes de tudo isto ter começado?
Era alguém que tinha tudo lá dentro como tenho hoje, mas sem narrativa, com o tempo aprendi e aprendo todos os dias a construir a narrativa.

Às vezes esquecemo-nos dos tesouros que os mais velhos (nos) guardam?
Esquecemo-nos de ouvir, ficámos destreinados de ouvir e de decorar. Precisamos de novo de nos lembrar sem computadores, sem telefones, sem tecnologia de mediação.

Quem não é para comer não é para... cantar?
Sempre me contaram os velhos cantadores que o Cante Alentejano nasceu da fome. E hoje sempre que se passeia e se come canta-se. A mesa e o convívio são propícios a que se cante e a que se esteja com vagar, com vida.

Que quadra mais bonita te ficou do que tenhas ouvido?
“Ai quem me dera ser as contas desse teu lindo colar, para adormecer no teu peito e nunca mais acordar.”