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10 perguntas a... por Inês Meneses

Mário Espiga de Macedo: “Pecar às vezes faz bem ao ‘ego’”

rui duarte silva

Mário Espiga de Macedo, cardiologista. Foi vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose. Autor do estudo: “A Hipertensão Arterial em Portugal 2013”

rui duarte silva

1. Ainda se faz pouco para combater 
a hipertensão arterial?
Principalmente na melhor divulgação desta doença na população. E também na educação de jovens e professores, já que os maus hábitos de vida começam na juventude.

2. Vivemos entre dois extremos: o do fast food e o da obsessão pela comida (vida) saudável. O meio termo é que é?
Claro, a dieta mediterrânica. Isto é abundância de fruta, legumes e leguminosas. Mais peixe do que carne. Mais azeite, menos hidratos de carbono e álcool.

3. Qual é o primeiro conselho que dá a um doente cardíaco?
Todo o doente deve ter um médico assistente que gere a sua saúde. Adote um estilo de vida saudável (pouco sal, poucas gorduras, muito exercício físico, pouco stresse, deixar de fumar e beber com moderação).

4. No seu caso, é hedonista suficiente para esquecer muitas vezes o ‘espartilho’ médico?
Nem sempre nem nunca, pecar às vezes faz bem ao “ego” e sou contra todos os tipos de “fundamentalismo”.

5. O futebol aumenta-lhe o ritmo cardíaco?
De modo algum, salvo quando se entra no “dragão” com o estádio cheio.

6. Como tem visto esta descoberta ’turística’ do Porto?
Tem sido fundamental na recuperação dos edifícios antigos da baixa. O Porto está mais bonito. E tem ajudado à descoberta da enorme beleza da bacia do Douro desde a Foz até Espanha.

7. Em que momento Lisboa ganha mais encanto?
Num fim de tarde solarengo e calmo a olhar o Tejo, e com boa companhia.

8. Também se pode morrer de coração partido?
Há paixões e paixões, mas quase já não existe o romantismo dos anos 60 e 70, deve estar em vias de extinção! Nos últimos anos, fala-se em cardiologia na “Doença de Takotsubo” que não é mais do que um coração em isquemia aguda com coronárias normais, e que parece ser o resultado de um grande stresse.

9. A relação médico/doente ganha muito, com tempo e proximidade. Quando é que essa relação começou a esmorecer?
Claro que ganha, é fundamental, na cumplicidade entre o médico e o seu doente onde está muito do êxito do tratamento (cuidar é mais do que tratar; olhar mais do que ver; observar e pensar o doente). Quando o aparecimento da informática e das novas tecnologias criaram a ilusão que iam substituir esta relação médico/doente e ser a solução para todos os problemas.

10. Porque decidiu ser médico?
Sem dúvida o exemplo de meu pai, que na prática da sua medicina tinha como lema o humanismo, a dedicação, o espírito de servir, a humildade. Mas a decisão final aconteceu quando fui colocado no chamado “serviço médico à periferia” em que íamos sozinhos dar consultas aos mais inóspitos sítios deste país, e cheguei à conclusão que era capaz de fazer boa medicina.