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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

John Romão: “Crio porque não estou satisfeito”

FOTO antónio pedro ferreira

1. A arte deve refletir o tempo que vivemos?
Mais do que refletir as evidências, a arte desvela as sombras do nosso tempo.

2. É questionando que a nossa capacidade de criar não se esgota?
Acho que passa, antes de mais, pelo olhar. O olhar coloca questões. O olhar estimula a curiosidade. Sem olhar e sem curiosidade, não encontramos ferramentas para criar.

3. Encontras saciedade na criação?
Todo o gesto criativo está relacionado com o conceito de falta. Crio porque não estou satisfeito, porque acredito que posso inscrever algo novo com o meu olhar sobre as coisas. Seja a criação de um espetáculo ou de uma bienal de artes.

4. Um homem como Pasolini teria o seu lugar hoje?
Certamente. Seria importante ver mais pirilampos a cintilar na escuridão.

5. A BoCA foi passando de boca em boca?
É uma das coisas de que mais me orgulho: perceber que a programação artística e educativa da BoCA conseguiu construir um novo público, jovem, curioso e global, para as artes contemporâneas. Os artistas e as instituições parceiras receberam uma nova movimentação de públicos. De boca em boca, criou-se um público sedento de novas manifestações artísticas que assentam na experimentação e transversalidade.

6. Em que momento a Bienal fez a diferença?
Eu diria que o propósito da BoCA assenta já na diferença. Ao propor uma sinergia entre diferentes instituições e estruturas culturais de Lisboa e do Porto (e agora Braga, Castelo Branco, Viseu e Évora), um diálogo aceso entre territórios artísticos e entre públicos, a diferença operava-se diariamente, era a nossa linguagem.

7. Estamos obcecados em tornar o mundo melhor e vamos ficando piores individualmente?
Estamos habituados a viver dentro de contrariedades. Até na contrariedade dos sentidos das palavras. “Melhor” e “pior”, por exemplo. Melhor para quem? Pior para quem? Desconfio cada vez mais das emoções que habitam as palavras.

8. Vivemos mais desligados do amor?
Vivemos uma expansão do conceito tradicional de amor (nas relações humanas) e uma proliferação do amor tátil e tecnológico. Mais autocentrados, num culto do amor próprio e da fetichização do objeto de consumo, ama-se um iPhone, tiram-se selfies, colecionam-se “gosto” e “amor”...

9. Foi o novo século que tornou o amor uma app (aplicação)?
Abrimos e fechamos o amor. O amor fica a 10% quando à bateria lhe resta 10%. O novo século quer-nos ligados, em rede, seres globais. Mais do que dar início a relações — insatisfatórias — precisamos agora de uma app que diga como manter o amor e prolongar as relações humanas.

10. As comédias românticas são um engano aceitável?
É sempre preferível ser enganado pela mentira, ou seja, pela ficção.