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Expresso

10 perguntas a... por Inês Meneses

Salomé Lamas: “A ausência é mais violenta do que a presença”

luís barra

1. Fazemos daquilo que se nos afigura difícil, um desafio?
Certamente.

2. Como é que a Transnístria surge no teu mapa?
Não tenho uma relação fácil com as fronteiras. Estas assustam-me e enervam-me, já fui revistada, incitada, atrasada, uma e outra vez, por ter a insensatez de cruzar apenas uns metros de terra. As fronteiras são linhas laterais burocráticas, autoritárias e inimigas. A sua existência é criticada de forma rotineira por geógrafos académicos que as retratam como atos hostis de exclusão; e ainda assim, num mundo sem fronteiras, para onde poderíamos escapar? Onde é que interessaria ir?

3. Qual foi a grande descoberta com os mineiros de La Rinconada?
Terra maldita. Terra abençoada. O humano e os seus limites.

4. O documentário também é uma encenação da verdade?
Num panorama em que a ficção é documentada e o documentário adquire propriedades ficcionais, i.e. onde o tráfego entre ficção e o documentário são de uma forma inédita, ambos no audiovisual contemporâneo e no quotidiano, atravessados por todos os tipos de imagens, displays e tecnologias, o crescimento do documentário responde ao espetáculo generalizado, onde o que é disputado é a performance mais autêntica, a confissão mais extraordinária, a capacidade de empatia e a espontaneidade das personagens (anónimos ou celebridades). Crescentemente reflexivo, aliciante e distante, combinando a ocorrência com o teatral, o documentário contemporâneo faz-nos considerar: o que vejo no ecrã? Será que observo realidade, verdade, manipulação, ficção ou tudo ao mesmo tempo?

5. Perante que filme quiseste seguir cinema?
Fui para cinema como poderia ter escolhido outro caminho. “Goodbye Dragon Inn” (2003) uma reflexão sobre a morte do cinema.

6. A arte não tem necessariamente de questionar?
A arte tem necessariamente que questionar.

7. Distingues uma obra portuguesa num contexto internacional ou a identidade não tem nacionalidade?
Não, à exceção de obras que utilizam o país como 
porta-estandarte, em geral pouco estimulantes.

8. Na guerra entre cabeça e corpo 
(no teu caso) qual dos dois ganha?
Não sei se essa distinção é assim tão clara.

9. Ficas a ressacar quando não vais 
ao Boxe?
Não. O boxe é uma prática. É o Clube Desportivo de Arroios e aqueles que o compõem. Local de evasão.

10. Alguma palavra vale mais que mil imagens?
A ausência é mais violenta do que a presença. O mistério do fora de campo (enunciado no filme) é mais estimulante do que a impressão. A imagem latente (impressa nos sais de prata antes de ser revelada no laboratório) é mais eficaz.