19 de maio de 2013 às 20:41
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Músicas portuguesas que cantam a crise

A música é uma forma de intervenção e são vários os artistas portugueses que têm usado as canções como arma de denúncia da austeridade e do empobrecimento dos portugueses. Conheça mais de uma dezena dessas músicas e veja os vídeos.
Joana Madeira Pereira (www.expresso.pt)

Há músicos de renome a escrever sobre a crise e que sempre fizeram das suas canções uma forma de protesto. Sérgio Godinho e Jorge Palma voltam-no a fazer nos seus últimos discos. No Rap, que sempre fez da denúncia social o seu principal tema, chovem exemplos e não há quem não trauteie "É sexta-feira / Suei a semana inteira / No bolso não trago um tostão", de Boss AC. Na música tradicional portuguesa, há quem cante sobre os "paraísos fiscais" (Diabo a Sete)e os habituais "poleiros" (Gaiteiros de Lisboa). Num registo mais popular, como o de Saul, não faltam palavras amargas cantadas ao som de um acordeão. E há ainda o agente Brandão, da PSP do Porto, que canta a sina dos desempregados: o Rey Brandão (nome artístico)lançou no início deste ano o álbum "Ponto de Partida", que teve como single de apresentação o tema "Desempregado". O Expresso escolheu algumas músicas que cantam a crise.


1. "O acesso bloqueado", Sérgio Godinho ("Mútuo Consentimento", 2011)
Dar de barato o futuro é prematuro, é prematuro
mas foi tudo mal contado
deixaste o fruto no passado
ficar maduro, ficar maduro
e agora podre por não ser usado
mas entre fazer ou não fazer
entre fazer ou não fazer
sempre sobra algum trocado
crédito mal aparado
agora, advinhar o presente mesmo tão inteligente
isso... ficas todo baralhado





2. "Com todo o respeito", Jorge Palma ("Com todo o respeito", 2011)
Os impostos disparam, apertamos o cinto.
Isto é para toda a gente, salvo raras exceções
Até alguém dizer: chega
Com todo o respeito

Falta virem taxar-me pelo ar que respiro,
Pelo passo que dou, cada vez que espirro.
Hão-de arranjar maneira
Com todo o respeito




3. "Paraíso Fiscal", Diabo a Sete ("TarAra", 2011)
Sabe bem pagar tão pouco
O segredo é total
Tens na ilha uma morada
Virtual

No Paraíso Fiscal
O silêncio é d'ouro
As mobílias são de prata
E os jardins de couro

Anjos, deuses, capitais
Filhos de alguém especial
Somar zeros à direita
Não faz mal





4. "Exporto tristeza", Virgem Suta ("Doce lar", 2012)
Os pobrezinhos são bem bruto energia
Coitadinhos melhor que leite do dia
Alimentado sopa gode quando calha
Lá fazem vida que Deus lhes valha
Contra a pobreza exporto a minha tristeza
Contra a miséria ja nem faço cara séria
Se estou com fome canto o fado p'ra esquecer




5. "Sexta-feira (Emprego bom já)", Boss AC ("AC para os Amigos", 2012)
Tantos anos a estudar para acabar desempregado
Ou num emprego da treta, mal pago
E receber uma gorjeta que chamam salário
Eu não tirei o Curso Superior de Otário
...não é por falta de empenho
Querem que aperte o cinto mas nem calças tenho
Ainda o mês vai a meio já eu 'tou aflito
Oh mãe fazias-me era rico em vez de bonito
É sexta-feira
Suei a semana inteira
No bolso não trago um tostão
Alguém me arranje emprego
Bom bom bom bom
Já já já já





6. "Já não dá (Saímos para a rua), Chullage ("Rapressão", 2012)
Só vejo casas com placas
de leilão ou de venda
e a minha vai pelo mesmo andar
que eu já não aguento esta renda
e governo não dá as famlias
mas dá aos bancos bué pinlin
mais tarde ou mais cedo
dás com um broda a dormir
no banco dum jardim
e querem que um gajo mendigue
pela merda dum subsidio
parado na segurança social
onde o funcionário agride-o
e de repente
o povo ta perder o raciocínio
e admiram o aumento
de assaltos e assassínios
o pior é que nós e que sofremos
com os assaltos e assassínios
que esses filhos da puta estão protegidos
escondidos nos seus condomínios
os verdadeiros assaltantes
entram no banco na maior
e saem com as mãos no bolso do fato
e o dinheiro desviado pra um off-shore




7. "Deus, Pátria e Família", B Fachada ("Deus, Pátria e Família", 2011)
Portugal está para acabar
É deixar o cabrão morrer
Sem a pátria para cantar
Sobra um mundo para viver
Chegam flores do estrangeiro
Já escolhemos o coveiro
Por mim é para queimar
Mas não quero exagerar





8. "Parva que sou", Deolinda (sem álbum, 2011)
Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.





9. "Hoje é um bom dia!", Anaquim ("Desnecessariamente complicado", 2012)
Chega-te ao ouvido que a coisa piora
Jogam-se carreiras p'la janela fora
Joga-se roleta a toda a hora
Rezam profecias que não há futuro
Viram-se p'ra Meca p'ra baixar o juro
Há lamentações e não há muro
Hoje é um bom dia p'ra mudarmos esta porra
Pegarmos o touro por pior que a coisa corra





10. "Malhão da crise", Saul ("Fábrica de chouriça", 2011)
Que será da nossa vida, já estamos tão entalados
Enquanto que há outros que, enfim, estão muito bem amanhados
Estão muito bem amanhados à conta do Zé Povinho,
Mamaram de uma só vez e não deixaram um bocadinho




11. "Avejão", Gaiteiros de Lisboa ("Avis Rara", 2012)
No império das aves raras quem tem penas é rei
Entre pegas e araras os patos bravos são lei
A terra dos patos bravos parece mais um vespeiro
Andam todos à bicada para chegar ao poleiro
(...)
Na terra dos papagaios quem não tem poleiro é pato
Andam todos à bicada só para ficar no retrato
No reino das trepadoras o papagaio é senhor
Mesmo sem saber ler qualquer papagaio é doutor




12. "Desempregado", Rey Brandão ("Ponto de Partida", 2012)
Tens uma vida desamparada
Sempre falida, sempre encalhada
Vês um anúncio para estagiário
Mas tens de ter carro e não és otário
Desempregado, vives com medo
És desprezado, não tens emprego




13. "Desemprego em Portugal", Kebra d' Tensão (sem álbum)
Abri o Expresso
Oito da manhã
Ainda mal abri os olhos, já estou a procurar
Sempre otimista sei que vou achar
Eu e mais 550 mil licenciados desempregados
Que não desistem de correr os anúncios
E de sonhar com a imagem de fato e BM [BMW]
De resistir com o empenho, a força e a criatividade
Que sempre elevaram e dignificaram o trabalho em Portugal
Amo o meu país




Comentários 13 Comentar
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Re: 10 músicas portuguesas que cantam a crise
Ainda bem q há quem proteste, quem denuncie, quem ridicularize o q existe de menos positivo... A música de intervenção / oposição / crítica serve precisamente para denunciar ("ridendo mores castigat") e para despertar o espírito crítico de reflexão, q anda muito em baixo, atendendo à sonolência do povo português, que cala as visitas inesperadas dos governantes, ao bolso de todos nós, com os cortes, as alterações de leis, a favor de despedimentos, o crescimento de desemprego, as portas a se fecharem para os mais jovens, enfim, um empobrecimento geral, que entristece e nos envergonha...
Opulência
A revolução começa com uma boa Canção ! Seria inédito em Portugal a tal democracia de partidos, acontecer o que é desejado, porque todos são cúmplices do sistema, até eu, porque votava . Dói só de ver a oposição discutir o acessório quando o básico fica às portas do Parlamento . Tudo o que queria dizer, está nas bonitas canções de pessoas sensiveis e conscientes do sistema aberrante da nossa Democracia .
Publiciade
Já mete asco esta doença da publicidade. Não se pode ver um video sem apanhar com lixo. Já não vejo mais um video neste site mercantilista, que de jornalístico tem cada vez menos...
Gentle tradition...
Gentle and
sweet sensibility,
I call your
attraction to give
an appearance
to that delicate
sound...

Francesco Sinibaldi
10 músicas portuguesas...
São boas canções, mas em termos de musicas de "intervenção", nada bate um Zeca Afonso ou um Adriano Correia de Oliveira. As letras são simplesmente geniais.
É MENTIRA. ELES NÃO CANTAM A CRISE, ELES CANTAM...
É mentira. Eles n cantam a crise, eles cantam a cura da crise. Como eles gostam de viver das aparências, preferiam continuar com a festa q as ministras da educação andaram a esbanjar. Ele só vêem a cura dos acidentados, n têm olhos para ver a festa e quem provocou os acidentes. Depois de serem CEGOS e n serem capazes de ver o que se passou, eles cantam o que lhes pode dar uns euros nas vendas daquelas BABOSEIRA a que chamam canções. Quando um dia souberem que depois das bebedeiras vêm as ressacas e q por vezes são dolorosas, chegam as FATURAS do ESBANJAMENTO das festas que a ESQUERDALHA tanto gosta.Aprendam a ver com olhos de ver e não com olhos de olhar. Há os que vêem com o olho traseiro.
Re: É MENTIRA. ELES NÃO CANTAM A CRISE, ELES CANTA Ver comentário
Re: É MENTIRA. ELES NÃO CANTAM A CRISE, ELES CANTA Ver comentário
As músicas não se cantam
tocam-se. Lá porque um pimba há uns anos se lembrou de chamar músicas às canções, não quer dizer que sejamos obrigados a copiar a parvoíce. Há dias um cantor inglês falava das songs e o jornalista traduzia por músicas. E o cantor songs e o jornalista músicas, que canseira.
"Malhão da Crise"?!
A lista até estava a correr bem, mas escusavam era de incluir o Saúl, ex Pequenito Saúl, e os seus trocadilhos reles de chouriças chichas e tal e tal limitada. Os pimbas não têm moral de se queixar de crise, eles vão atrás do regime que está em vigor, dizem amén a tudo e estupidificam o povo. Ele precisa assim tanto da publicidade? Deviam era ter colocado uma destas, dos comendadores do rock luso - quem não sabe, Xutos e Pontapés: "Dia de São Receber" ou "Sem Eira Nem Beira".
Alternativas ao Saulzinho pimba
Podiam ter posto esta:
www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=nDweMETfQyI

Ou esta:
www.youtube.com/watch?v=W41eiXGznz8
A palavra já em si não é uma arma?
Estas Músicas são ...Dos Jovens, menos jovens de Todos os que vivem para além do seu "umbigo"...
A letra em si não diz nada de novo, nem de forma diferente, mas de uma simples forma e segundo reside aí na simplicidade... Diz-nos que há uma geração que vai dos 22 aos 40 anos que não recebe um chavo, não recebe e não tem perspectiva de receber Pior ... há uma geração sem remuneração e simultaneamente sem trabalho, que procura uma oportunidade quando esta não existe... É trágico ...e real é andarem muitas vezes a trabalhar para "aquecer" e não conseguem emancipar-se nesta sociedade ... Sair de casa dos pais, casar, ter filhos ...
e ao longo da nossa história tivemos provas disso ...
Os desempregados de longa duração que acho-a com sentido de falta de estado, nomeadamente na actual conjuntura interna e externa, em que todos os mercados estão de olhos postos no nosso País...Os impostos sufocantes ...
Impacto da música na Sociedade e pôs o País a reflectir...
A Força da Música e a pronuncia do povo há muito que não se conseguia e acontecia...
Não é preciso artimanhas e Artifícios para conquistar o povo e mediatizar os problemas...
Mais uma vez a Música tem o dom de exprimir a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende ...

Mas ... porque só tocam a sexta-feira a mais fraca delas todas ... Já estou cansada de a ouvir! Yé!..
Re: A palavra já em si não é uma arma? Ver comentário
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