Um caso real: um senhorio recebe 70€ mensais por um apartamento que aluga na zona de Benfica, em Lisboa, somando 840€ no final do ano. O prédio onde aluga o apartamento está degradado, e precisa de obras. Nessas obras, não só se renova o prédio como se troca de elevador, pois o existente estava ultrapassado e sempre a avariar. No final, esse senhorio teve de pagar um oitavo das obras, o equivalente da sua parte do prédio, o que atingiu os 1.400€. Assim, no final do ano, o balanço é um evidente prejuízo de 560€.
Este é apenas mais um dos muitos casos provocados pela nossa actual 'lei das rendas'. Como se pode exigir a um senhorio que pague obras e recupere os edifícios e apartamentos, se estes alugueres lhe trazem mais prejuízo que benefícios? Não se pode. Da mesma forma, como é que se pode exigir que jovens que querem emancipar-se tenham de pagar rendas inflacionadas em prédios prestes a ruir, e onde os seus vizinhos pagam rendas abaixo dos 100€? Não se pode.
Estamos a dois meses das eleições autárquicas, e os candidatos prometem o costume: tornar o centro habitável, trazer os jovens de volta à cidade, dar vida ao centro histórico. Muito bem, mas para que tudo isso aconteça, será necessário enfrentar a sagrada 'lei das rendas', que para os portugueses é legitimada por 'direito natural'. António Costa já mostrou que não é capaz. Se vencer, será Santana Lopes? Seria positivo mostrar que Lisboa não precisa de mais catástrofes para rejuvenescer, como a de 1755 ou como a do incêndio de 1989 na Rua do Carmo.