Já muitos devem ter visto este terrível vídeo que corre na Net e que foi divulgado, aqui no Expresso. Num mercado da cidade Foshan, na China, uma menina de dois anos é atropelada por uma carrinha. E o condutor segue o seu caminho, passando de novo sobre ela, com as rodas traseiras. Depois passa outra. A mesma coisa. As pessoas caminham, evitam o corpo e ninguém ajuda. Algumas nem olham com atenção. Como se nada ali estivesse. Uma mulher acaba por arrastar o corpo para fora do caminho e vai-se embora. Será um homem encarregue da recolha do lixo que a socorre, sem a ajuda de ninguém. A repulsa ao ver aquelas imagens recolhidas por uma câmara de vigilância é tal, a náusea e a revolta são tão grandes, que só nos saem insultos de revolta. Podemos recordar que o valor que damos à vida humana e a proteção que garantimos às crianças são recentes. Não são, ao contrário do que pensamos, instintos. São cultura. Mas não chega dizer isto para explicar a redução de tanta gente à pura bestialidade.
Lendo os vários artigos que foram escritos por esse Mundo fora, com base nas reações que a cena provocou nas redes sociais chinesas, encontram-se várias explicações para o sucedido. Explicações não são atenuantes. São a única forma de não sermos soterrados pela nossa própria indignação: tentar perceber o que está por trás da barbárie. Uns explicam a estranha indiferença com um corpo de um bebé moribundo com episódios anteriores, em que quem ajudou acabou por pagar as despesas hospitalares. "Quem ajuda alguém assim se não tiver culpa pelo sucedido?" foi o argumento de um juiz para condenar, em 2006, um homem que socorreu uma mulher ferida. Outros pelas leis de trânsito que penalizam mais quem fere do que quem mata. Outros por uma cultura de falta de solidariedade e de coragem que a dantesca "revolução cultural" criou no País e da qual ele nunca se libertou. Outros pela brutal mudança na sociedade chinesa, resultado da sua industrialização repentina, sem que fosse acompanhada por mudanças políticas, o que terá destruturado toda a cultura de um povo. Os chineses são hoje máquinas de produção, tomadas pelo medo e pela luta pela sobrevivência num ambiente que lhes é estranho e hostil.
Não conheço a China. Nunca lá fui. Sei que nunca comprei - e não começarei a comprar agora - qualquer tese sobre a maldade inata de um povo. Nem faço de qualquer episódio o começo da caracterização de um povo com mais de mil milhões de pessoas e milénios de história. E sei que houve, neste episódio que chegou até nós, um único dado positivo: milhões de chineses viram estas imagens na Internet. E indignaram-se. E discutiram em que raio de sociedade vivem para que isto seja possível. Para nós é importante.
A China, dizendo-se comunista (e do comunismo herdou o regime autoritário e concentracionário), conhece o capitalismo na sua forma mais crua e brutal. Saber o que se passa na China, mas, acima de tudo, ouvir e ler o que os chineses dizem que se passa na China, é questionar o que queremos e o que não queremos que se passe no Mundo. E, de caminho, valorizarmos muitas das coisas que se diz serem insustentáveis na nossa organização social e política. Saber que os chineses o discutem é um sinal de esperança. Para eles, claro. Mas também para nós. Porque nunca poderemos "competir" com uma máquina de produção que não pára para salvar uma criança de dois anos. Não podemos nem queremos.
Desde que o Partido Comunista Chinês em Congresso decidiu meter o "socialismo" de Mao na gaveta, os objectivos passaram a ser outros e a conta bancária é o valor que conta.
A partir daí a corrida é de noite e de dia,as pessoas são números e os atropelamentos constantes.A questão que se coloca é a de saber onde terminará essa maratona: se de forma pacífica ou numa brutal convulsão social de ajuste histórico de contas de toda esta indigna preversão no desrespeito pelos mais elementares direitos humanos.
Ao começar a ler a crónica do Daniel Oliveira, fiquei na expectativa ao soletrar o que ele escrevia, na ânsia de vislumbrar alguma analogia com a caso que ocorre num vídeo passado na China e o actual Governo.
Mas, não! Nem uma alusão ao PSD e a Passos Coelho!
Felizmente DO insurge-se e bem, contra uma "forma de viver", que muitos dos nossos homens de esquerda sempre aplaudiram antes das portas da China se abrirem ao Mundo, ainda que a meio vão, mostrando esse país maravilhoso onde a igualdade e a fraternidade são palavras de ordem, mas cuja prática é a de sobrevivência sem o minimo respeito pela vida humana.
Sim, que esta coisa de "ver" crianças do sexo feminino a morrer nas bermas das estradas de alcatrão ou terra batida, vem do tempo do Sr. Mao!
Que este episódio será um problema cultural, não há dúvidas…a Cultura do medo que até os instintos controla.
Na minha cultura (que não sei qual é…) não é normal deixar uma criança de dois anos sozinha na rua. Afinal quem era a pessoa, ou pessoas, responsáveis por olhar pela criança na altura em que foi atropelada?? Porque é que uma criança desta idade, está tanto tempo sem a supervisão de outra pessoa mais velha? Claro que as perguntas são apenas cínicas e não se aplicam à "cultura milenar" dos chineses.
Acabei de ler também a sua crónica de ontem…
"Praxe: na Universidade e na vida, integra-te na cobardia"
"O pior escravo é aquele que não se quer libertar. E que encontra na escravidão o conforto de ser como os outros. Os caloiros que aceitam a praxe não são ainda escravos. Apenas treinam para o ser."
Pelos vistos, na China, a praxe é mesmo a sério…como você mesmo o diria "tudo gente cobarde"!
Ia bem. Apesar das inverdades envergonhadas, e passo a citar: “Sei que nunca comprei - e não começarei a comprar agora - qualquer tese sobre a maldade inata de um povo”.
É que quando leio as coisinhas que escreve sobre os judeus… fico com a ideia que são todos metidos no mesmo saco. Ah, e também os americanos. Nunca é o senhor “A” ou “B”: são “eles”…
OBS. Estou à espera que escreva sobre os ataques indiscriminados dos turcos, aos acampamentos de curdos, no Curdistão iraniano. Nesses locais estão mulheres e crianças e, que se saiba, os curdos têm a preocupação de só atacar militares (algo que não sucede com um tal Hamas). Aproveite também para comentar as declarações a ameaçar vingança por parte do presidente Turco. Ai se algum responsável israelita dissesse algo semelhante…
Mas voltando aos chineses. E cito-o de novo: “Porque nunca poderemos "competir" com uma máquina de produção que não pára para salvar uma criança de dois anos. Não podemos nem queremos.”
Que tem a ver a produção com a indiferença social? Que tem a ver o trabalho, mesmo intensivo, com a desumanização?
Será que no tempo de Mao, não sucederia o mesmo? Ah pois, não tenho provas. Não havia câmara.
Já agora, você devia ter dito mal da câmara. Recorda-se da sua reacção relativamente a um projecto de vigilância electrónica? Mas é capaz de ter razão. Sempre se evita ver desgraças
Qualquer pessoa com o mínimo de educação percebe que a política não tem nada a ver com o que se assou nesse mercado chinês!
Não é uma questão de regime, mas tem mais a ver com a indiferença perante o outro, levada ao extremo, que podemos assistir numa qualquer Megalopolis ocidental.
A China, que como país fundado ainda Roma era uma pequena república na península itálica, foi sempre o pais mais populoso do mundo. Regularmente a população era regulada por surtos de fome (Aconteceu até aos anos 60 do século passado).
Vivendo há mais de 2000 anos com excesso de população fez com que, como seria de esperar em tudo que existe em excesso, a vida humana tem muito pouco valor, pois uma morte não é uma tragédia, pois é imediatamente compensada. Em caso de uma época de fome, uma morte representava um aumento de esperança na sobrevivência dos que permaneciam vivos, pois era menos uma boca a alimentar.
Com esta cultura enraizada, não é para admirar que a criança tenha morrido e que ninguém tenha ligado ao assunto. Ainda por cima a criança era menina, sexo que os chineses sempre desconsideram e que a politica repressiva de planeamento familiar e do filho único veio ainda aumentar a desvalorização que os chineses faziam do sexo feminino. Graças às ecografias, a maioria dos casais preferem fazer um aborto a ter uma filha como "filho único".
Este video é pavoroso e circula outro na net que mostra várias crianças de 3 ,4 anos acorrentadas pela cintura as grades de uma suposta Fabrica aguardando assim pelas Mães que estão a trabalhar e que ,a ser verdade, revolta a alma!
Há 3 anos estive em serviço em Beijing e Guangzhou. País estranho , que olha os ocidentais de soslaio, onde é dificil encontrar alguém que fale Inglês nos taxis ou nos restaurantes( onde a comida é completamente intragável e nada tem a ver com a que se come por cá nos restaurantes chineses). Percebe-se que há uma enorme falta de respeito pela vida humana. Uma pessoa pode cair na rua que todos viram costas. Uma das senhoras Chinesas que nos acompanhava na visita era simpatica e tinha outro tipo de tratamento connosco .Estivemos em Beijing 5 dias mas ela desapareceu no 2º perguntamos por ela mas ninguém sequer teve a amabilidade de nos dizer o que lhe tinha acontecido. Se não fosse o Hotel que fazia parte de uma cadeia internacional a estadia seria um tormento e só apetecia fugir de lá a 7 pés. Naquele país tudo é estranho, as pessoas sentam-se nos restaurantes e dormem nessa posição durante algum tempo ( para descansarem) e comem de forma estranha atirando com a comida para dentro da boca e de forma ruidosa. Há paisaigens bonitas mas para ir a China tem de ser tudo muito bem programado porque ninguém nos entende e fica-se com a sensação que se tivermos algum problema por lá ficamos entregues à nossa sorte.
Vi esta 'estória' (o mundo ocidental e mediático de hoje não prouduz dramas para reflectir, mas antes estórias para consumir e deitar fora) aqui no Expresso, mas não consegui ver as imagens. Sou pai de uma criança mais nova que esta menina e receio estar a fracassar nos princípios e valores que estou (estamos todos) a deixar aos nossos filhos, no mundo carregado de crueldade, frieza (ao melhor estilo de Vítor Gaspar...) bestialidade, sem respeito nem, pior, compaixão.
Em todo o caso, a China não tem estes exclusivos, nem Pequim será nesta matéria pior que uma qualquer Costa da Caparica, como notícias recentes o atestam.
O Tea Party português que está no poder adoraria tornar-nos a todos autómatos de olhos em bico, transformar Portugal numa imensa China Town, mas ainda não somos chineses, nem me parece que o pretendamos ser...
não estranha acontecimentos deste tipo - a maioria não conseguiu libertar-se da canga histórica de séculos e séculos de miséria, fome, opressão. A regra básica da maioria dos chineses é a da sobrevivência: salve-se quem puder.
Sim, é um episódio que pode ter repugnado muitos chineses mas no dia seguinte a vida fá-los voltar à realidade: há que descubrir um meio de enriquecer.
Minas com condições de segurança reduzidas a zero, aonde não poucas vezes os trabalhadores são escravos infantis, por vezes com deficiências mentais elevadas, fabrico e venda de medicamentos falsos, etc, não deixam de ser apenas a faceta mais feroz do egoísmo de quem não espera que os outros saíam do elevador, ou dos que lutam para entrar no autocarro mesmo que haja espaço para todos.
Já vi em várias cidades portuguesas, pessoas caídas no chão no meio do passeio e em hora de ponta e ninguém se preocupa com elas. E não passam 12 pessoas, mas sim umas duzentas...
Cá em Portugal, foi relatado nos órgãos de informação e na semana passada que alguém mergulhou um cão em alcatrão, cão esse que veio a sobreviver milagrosamente. Não se tratando de uma criança, não é difícil antever que quem praticou essa crueldade num animal, também não hesitará em fazê-lo a uma criança.
A insensibilidade perante o sofrimento alheio atinge foros de insanidade nas sociedades contemporâneas, não sendo exclusiva de orientais, e muito menos de chineses.
eu vi o mesmo, ou quase idêntico em Lisboa, mas sim pessoas no chão e esvaír em sangue na baixa, ou a gangrenar, e ng fazia nada. Vi o homem do rossio, o qual nenhum nenhum cirurugião ou meidco que ali passava todos os dias, a se oferecer para o curar, nao entendo a diferença entre a China e Portugal ou os pseudo-seres humanos de qqer grande cidade europeia, nem bom dia ou boa tarde dizem na rua qdo passam uns pelos outros, por isso qual é mesmo a diferença entre estas imagens grotescas que nao consigo ve-las mais do que 5 segundos e todas as que assisti em Lisboa ou em qqer grande cidade europeia ou do mundo? Em cidade como a do Funchal, a do Porto, isso é impossível ocorrer, mas na China ou em Lisboa, Londres ou NY ou Madrid, ou Paris etc etc... não me admira que sejam assim
Não vi o filme do atropelamento, nem sei muito bem do que se trata, talvez por já não ver televisão portuguesa, ou talvez porque esteja tão cheio de trabalho que não tenho tempo sequer para ir à net ...
A VERDADE É QUE NÃO OUVI FALAREM DO TAL FILME NA EURONEWS, pelo que, depois do que aconteceu com o vergonhoso episódio das armas de destruição maciça no Iraque, ando sempre de pé atrás em relação a notícias desse calibre. Não que eu duvide da insensibilidade das pessoas perante a morte de uma criança, não, ainda para mais quando estamos falando da China OFICIALMENTE ATEIA, mas porque, sabendo que a China é o próximo Império que, neste momento, começa já a prejudicar muitos avatares do Novo Mundo, fico mesmo a pensar se estou a lidar com Realidade ou Ilusão ...
“Quem salva um homem salva humanidade inteira” – O quanto eu não teria dado, como todos nós estou certo, para estar presente naquele momento e fazer com os olhos desta criança vissem outra coisa, antes de morrer, que o olhar desinteressado dos que por ela passavam. Este vídeo subjugou-me de tristeza e de desespero.
Por cá milhares de animais são atropelados e deixados a agonizar sem que os condutores parem e assistam o animal (o que, de acordo com a nossa legislação é ilegal, além de imoral).
Felizmente já não estamos ao nível do vídeo e da sociedade Chinesa, e acho que nunca passaria pela cabeça de ninguém não socorrer uma pessoa vitima de um acidente.
Fazer o mesmo com os animais é o próximo passo no desenvolvimento social.