O Banco de Portugal
decidiu abrir um inquérito preliminar a Armando Vara
, vice-presidente do BCP
, para determinar se há matéria que leve ao cancelamento da autorização para exercer funções na administração de instituições financeiras, soube o Expresso junto do banco central.
A decisão foi tomada durante a tarde de ontem e, para já, o Banco de Portugal (BdP) está "dependente da colaboração que o Ministério Público nos quiser prestar", pois face às notícias divulgadas na comunicação social, a situação que envolve Armando Vara não implica operações do banco.
O inquérito preliminar agora aberto pode, se houver matéria de facto, levar à abertura de um processo que venha a cancelar o registo de que Armando Vara necessita para integrar os corpos sociais de uma instituição financeira. O BdP avalia a idoneidade dos candidatos a estas funções antes de as exercerem. Mas sempre que exista algum facto relevante é feita uma nova avaliação que pode levar ao seu cancelamento.
Não faltam escândalos
Tavares Moreira ainda cumpre uma suspensão de sete anos de exercer estas funções devido a irregularidades alegadamente cometidas à frente do Central Banco de Investimento. Outros gestores do CBI estão suspensos e a medida pode vir a atingir vários administradores do BCP, que integraram o banco liderado por Jardim Gonçalves.
Escândalos é o que não tem faltado no BCP desde 2007, mas até que ponto o facto de o seu vice-presidente ter sido constituído arguido pode fragilizar ainda mais o banco e agravar as fracturas que resultaram de meses de guerra intensa entre facções?
Joe Berardo, um dos principais accionistas do banco, com 6,22%, diz não ter "informação suficiente para comentar". "Acho invulgar o que está a acontecer. Não dá para acreditar que pessoas tão bem remuneradas se sujeitem a isto por causa de 10 mil euros. Quando se fala de milhões ainda pode haver a tentação. O montante é ridículo. Parece um caso de ficção. Mas nestas coisas da politiquice nunca se sabe...".
Berardo vai investigar
Berardo diz que está desapontado mas que se "Armando Vara diz que está inocente, não tenho razões para desconfiar. Vou fazer investigações para pôr isto a limpo. Até prova em contrário acredito na pessoa. Não gosto de atirar culpas para cima de ninguém sem ter provas".
E não tem dúvidas de que "esta situação afecta a imagem de todas as instituições envolvidas".
Já a Teixeira Duarte, que tem cerca de 7%, refere que "confia nas estruturas do banco e no seu funcionamento em quaisquer situações, incluindo esta". E acrescenta que após a posição oficial tomada pelo banco, "se considera informada e reitera a confiança nos órgãos sociais do banco".
"Neste momento há apenas indícios, nada está provado, tenho muita consideração por Armando Vara", disse, por seu lado, Faria de Oliveira, presidente da CGD, que tem 2,5% do BCP.
Mal-estar interno no banco
O Expresso sabe que dentro do banco o facto de não ter havido consequências provocou algum mal-estar. No entanto, ninguém o assume publicamente. Da comissão de trabalhadores do banco, a resposta é que não foi tomada qualquer posição sobre o assunto e nem sequer está agendada qualquer reunião para analisar os factos.
Nem mesmo os ex-administradores, que se sentiram 'condenados' antes de terem sido declarados arguidos em processos que envolveram a utilização de offshores, querem falar do assunto. Mas lembram o que aconteceu no final de 2007, quando o governador do BdP, Vítor Constâncio, reuniu com alguns accionistas do banco, recomendando que não apoiassem ex-administradores do banco que se candidatavam à administração do grupo. Entre eles estavam Filipe Pinhal e Christopher de Beck. Na altura, nem sequer havia qualquer processo aberto pelo BdP.
Oficialmente, o BCP declara-se unido. Em comunicado, Luís Champalimaud, presidente do Conselho Geral e de Supervisão (CGS) - órgão a quem compete supervisionar a actuação da administração - diz ter reunido com o conselho de administração executivo (CAE), "o qual lhe assegurou estar salvaguardado o regular funcionamento, não existindo qualquer quebra de confiança entre os seus membros". Champalimaud disse também que, "considerando estar defendido o interesse da sociedade, aguarda serenamente o apuramento dos factos pelas instâncias competentes".
Vara diz-se inocente
Esta reacção surgiu quando ainda pouco se sabia sobre o que estava em causa no processo. E é justificada também pelo facto de a matéria em causa nada ter que ver nem com o sector financeiro nem com o BCP especificamente. Para já, está marcada uma reunião do CGS no dia 11 de Novembro, que já estava agendada desde Abril.
Armando Vara, numa "nota pessoal" enviada na quinta-feira à hora do almoço aos colaboradores do banco, declarou-se inocente. "Aguardo com o maior interesse as provas que as autoridades venham a exibir relativas ao meu envolvimento no processo, o que por certo será efectuado em sede própria e não através da comunicação social".
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009