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Quem tiver a tentação de chumbar alunos que podem manchar a fotografia sai-se mal

Marcos Borga

Ranking de 2016: Ministério da Educação disponibilizou um novo indicador que mostra as escolas que mais promoveram o sucesso. De acordo com este critério, a escola número 1 do país não é privada, mas pública; não fica em Lisboa, Porto ou Coimbra, mas em Barcelos. Os seus alunos não são ricos e os seus pais não têm grandes habilitações

Isabel Leiria

Isabel Leiria

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Jornalista

Rita Isabel Pardal

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Qual é a melhor escola? A que consegue apresentar as médias mais altas nos exames nacionais? Ou aquela onde, independentemente da classificação final, os alunos mais progrediram ao longo do ciclo de ensino, comparando com os colegas que anos antes apresentavam nível semelhante? O Ministério da Educação acredita, e não está só nesta opinião, que o trabalho feito pela segunda escola merece bastante mais destaque. E o facto é que se os estabelecimentos de ensino fossem ordenados por este indicador, calculado este ano pela primeira vez pela tutela para o secundário, as habituais listas absolutamente dominadas pelos privados mudavam de figura.

Não de forma radical, já que são vários os colégios que se repetem numa e noutra, numa confirmação do seu mérito próprio, como é o caso do Nossa Senhora do Rosário (Porto), o campeão indiscutível dos últimos anos. Mas outros estabelecimentos de ensino condenados ao ‘anonimato’ do meio da tabela brilham também nesta nova ordenação.

O Ministério de Tiago Brandão Rodrigues não se tornou um súbito adepto dos rankings, mas decidiu este ano dar uma ajuda para os melhorar e facultou este novo indicador “mais justo”. De acordo com este critério, a escola número 1 do país não é privada, mas pública; não fica em Lisboa, Porto ou Coimbra, mas em Barcelos. Os seus alunos não são ricos e os seus pais não têm grandes habilitações.

A média nos exames fica-se pelos 11,8 valores. Então o que tem a Escola Básica e Secundária de Vila Cova de especial? Foi aquela que, no conjunto dos últimos três anos, mais ajudou os alunos a ter sucesso quando comparados com os colegas de nível semelhante nas restantes escolas do país.

As secundárias de Arga e Lima (Viana do Castelo), Arganil, Porto de Mós, Sobral de Monte Agraço, Henrique Medina (Esposende) ou de Póvoa de Lanhoso são outras que se destacam. E que não tinham qualquer hipótese de aparecer nos lugares cimeiros num ranking que apenas usasse as médias nos exames.

O caso de Póvoa do Lanhoso é o exemplo máximo: ordenada apenas pelas notas surge em 408º lugar no ranking do Expresso (escolas onde se realizou um mínimo de 100 provas). Ordenado pela promoção do sucesso salta para um honroso 21º. Apesar de apenas 39% dos seus alunos terem percursos limpos no secundário, a média nacional para estudantes que partiram com o mesmo nível é de 27%.

Comparar o comparável

O Ministério chama-lhe indicador de “percursos de sucesso” e considera-o o “mais robusto” de que dispõe para “analisar o sucesso escolar dos alunos nas escolas públicas e privadas”. Isto porque combina avaliação interna e externa: quantos alunos fizeram o secundário limpo, sem chumbar no 10º e no 11º, e tiveram positiva nos dois exames do 12º e porque “compara o comparável”. Ou seja, a percentagem de sucesso numa escola não é comparada com a média nacional de todos os alunos, mas com o que aconteceu com os colegas do país que, três anos antes, no final do 9º, tinham um nível escolar semelhante.

Por outras palavras: o valor de sucesso obtido numa escola que só receba alunos com notas altas vai ser comparado com o valor registado nas que receberam uma população semelhante em termos de notas. Quem tiver a tentação de chumbar os jovens que podem manchar a fotografia nos anos de exames passa a sair-se mal nestas listas. E os últimos podem ser os primeiros desde que os seus alunos melhorem.

Identificar primeiro e perceber depois o que é que estas escolas fazem para promover mais percursos de sucesso do que seria de esperar – olhando para as suas semelhantes – é uma das várias análises possíveis e que permitem ir além da visão mais redutora que sempre foi apontada aos rankings. Este indicador também está disponível para o 3º ciclo do básico. Mas há mais.

A partir dos dados que têm sido disponibilizados em cada vez maior número pela 5 de Outubro, é possível saber que escolas, ano após ano, têm melhores resultados do que aquilo que o contexto em que se inserem permitiria esperar. Ou quais as que levam os alunos a melhorar nos exames do secundário face ao que tinham conseguido nos do 9º ano.

Uma das escolas que se sai muito bem em todos estes indicadores é a Secundária de Arganil, no distrito de Coimbra. Nem sempre foi assim, recorda Fernando Antunes, subdiretor do agrupamento. “Há uns três, quatro anos começámos a entrar no top 100. Mas foi um trabalho que começámos a fazer há 10 anos”, revela.

Nessa altura, a tendência era para aceitar o que se considerava incontornável, o “peso da interioridade”, das baixas habilitações dos pais, do nível socioeconómico. Mas Fernando Antunes não aceitava baixar os braços. “Olhava para os concelhos à volta e via que Tábua, por exemplo, tinha melhores notas que nós. E não há outra forma de dizer isto: começámos a trabalhar para os exames. Formámos equipas com o que considerávamos ser os melhores professores e passaram a dar sempre as disciplinas sujeitas a exame, nos cursos gerais. Reforçámos os apoios aos alunos. No final do ano há dias para tirar dúvidas.”

Mas não são só as escolas públicas que têm o exclusivo do mérito. Entre as privadas, ainda que escolham os seus alunos e contem, regra geral, com populações mais privilegiadas, também há as que “maximizam em alto grau o potencial de jovens que, em média, eram já bastante bons”, reconhece o Ministério numa explicação a estes dados. É o caso de colégios como o St. Peter’s (Palmela), o Terras de Santa Maria (Feira), o Luso-Francês (Porto), o D. Diogo de Sousa (Braga), Maristas de Carcavelos ou o Valsassina (Lisboa). Todos eles se repetem nos rankings das médias absolutas e da promoção do sucesso – estão assinalados nas listas em baixo.

O recorde de Viseu

Este ano, 69% das secundárias conseguiram médias nos exames nacionais de 10 ou mais valores, tal como em 2015. O que se acentuou ainda mais foi a hegemonia dos colégios nos primeiros lugares deste ranking que olha apenas para as notas externas. Em 2013 havia 20 estabelecimentos públicos no top 50. De então para cá, o número reduziu primeiro para 16, depois para 13 e este ano resumem-se a nove. Na lista do Expresso (escolas onde se realizaram mais de 100 provas), o Filipa de Lencastre, em Lisboa, estreia-se como número um.

Outra novidade é o aparecimento de duas escolas do interior no top 10 das públicas: a Secundária Alves Martins, em Viseu, que detém também o recorde da secundária onde mais alunos (41) têm notas entre 19,5 e 20 valores nos exames; e a Secundária Nuno Álvares, em Castelo Branco.

Num país inclinado para o litoral, destaque também para o distrito de Viseu, que, graças ao bom desempenho de escolas na capital, mas também nos municípios de Sátão, Mangualde, Vila Nova de Paiva e Penalva do Castelo, apresenta a melhor média a nível distrital. No 9º ano, foi a cidade de Beja a surpreender, com a Escola D. Manuel I a apresentar a média mais alta a Matemática e Português.

Mas nem só de surpresas positivas se fazem os rankings. Há quem os critique porque estigmatizam escolas que têm uma tarefa particularmente difícil em virtude do meio em que se inserem e das populações que recebem. Estabelecimentos em que a prioridade não é de certeza levar os alunos ao topo dos rankings, mas a aprenderem o mínimo exigível.

A questão é saber se é suposto todos se resignarem às dificuldades ou se estas escolas que se repetem no fim da tabela não deviam merecer mesmo uma atenção especial da 5 de Outubro.